opinião
Major-general

Seis meses, conjunturas, tempos e réplicas. Para quando a vitória da Ucrânia?

18 ago, 11:57

Poucos dias depois da invasão da Ucrânia pela Rússia fica-se com a sensação de que pouco sobra que esteja a correr exatamente como o planeado para os lados de Moscovo. Muito embora não tenhamos um conhecimento concreto e fidedigno no que aos objetivos políticos, ao plano de campanha, ou naquilo que diz respeito à dita “operação militar especial”, muitos indícios há que sugerem que dificilmente a Rússia conseguirá tomar Kyiv; “desnazificar” uma Ucrânia que quase nada tem de nazi; e desmilitarizá-la. Ou sequer eliminar o regime em vigor colocando no seu lugar e no do seu líder eleito um outro que lhe seja favorável. Criando assim um regime fantoche pró-russo.

Para grande surpresa de muitos, o apoio prestado pelo Ocidente à causa ucraniana e uma considerável reação pública internacional de repúdio de imediato manifestada, foram desde o primeiro dia visíveis após a ignominiosa invasão russa. Igualmente assinaláveis, foram a firme determinação de Kyiv em lutar com coragem e tenacidade contra a infâmia cometida por Moscovo, convergido com o rápido cerrar de fileiras no âmbito europeu e transatlântico de uma solidariedade e indignação que todos surpreendeu. Aspeto este que vinha sendo amplamente questionado por alguns líderes ocidentais, como por exemplo Emmanuel Macron que, pouco tempo antes se tinha referido à NATO como uma entidade que padeceria de uma espécie de “morte cerebral”. Nada mais errado: na presença de um inimigo comum não raramente tudo se altera. O “timing” da declaração do Presidente francês apostado em ganhar as eleições que estavam à porta e empolgado com a ideia de promover uma entidade militar centrada numa França que, com o Brexit, se tornara na única potência nuclear de União Europeia foi infeliz, para dizer o mínimo. Esbaforido com o desaire – e decerto preocupado com as eleições que se iam seguir – o Presidente francês correu a Moscovo e foi recebido com desprendimento por um Vladimir Putin que com ele dialogou a seis metros de distância. Emmanuel Macron viu-se, assim, na contingência de ter de recuar, repetindo o que lhe tinha acontecido em 2016 quando tentou, sem qualquer sucesso, um famoso bromance com o então Presidente Donald Trump.

Mas voltemos à invasão de Ucrânia durante vários meses “planeada” e a 24 de fevereiro executada pela Rússia. Desde muito cedo, ao terceiro dia, a ofensiva inicial da Federação entrou em colapso. Estagnou, pumba. Aliados e parceiros transatlânticos reagiram com inusitadas veemência e rapidez ​​em bem coordenadas ações de apoio. Com um fôlego que Macron não esperava e Putin não queria nem previra, a NATO deu sinais claros de estar disposta a admitir a Finlândia e a Suécia no seu seio. Facto que por si só representou um enorme revés russo nos níveis político e estratégico. Tal como, mais tarde, o afundamento do grande Moskva, no Mar Negro, o flagship russo da sua Esquadra afetada a este mar interior.

Tudo tinha começado mal. O fiasco das colunas que tentaram descer para Kyiv provindas sobretudo da Bielorrússia e se quedaram, atoladas durante semanas, ao longo de 60 dos 150 quilómetros necessários para chegar à capital ucraniana; alinhados numa estrada flanqueada de florestas enlameadas para onde não se podiam deslocar. “Sitting ducks”; caso tivessem recebido os aviões que pediram, os militares ucranianos tinham acabado com eles todos num ápice, como aconteceu, em 1991, no Kuwait, quando os militares iraquianos tentaram regressar à pressa para Bagdade. Deparamo-nos com tropas enregeladas, paradas sem fuel, sem comida, sem uma cadeia de comando clara, no fundo, sem Rei nem Roque. As coisas correram menos bem, logo à partida, quando da tentativa gorada dos para-quedistas ex-spetnatz, agora ao serviço do Grupo Wagner que tinham avançado para o Palácio Presidencial com o intuito de capturar o Presidente Zelenskii e acabar com ele e a família. Nada disso aconteceu, tudo parecia mal pensado, gerando acontecimentos inesperados.

Efetivamente, ab initio, pouco correu de feição. A segunda cidade e ex-capital da Ucrânia, Kharkiv, soube resistir à investida massiva dos militares de Moscovo, chegados de vários pontos-chave como, por exemplo, Belgorod. As colunas intermináveis de viaturas blindadas alinhadas na fronteira leste da Ucrânia, pouco conseguiram, a não ser as que avançaram para o Donbas. Entre Oficiais Generais mortos por snipers e drones, ou por militares russos furibundos, e outros sumariamente demitidos, com milhares de carros de combate e outras viaturas blindadas destruídos ou abandonados, tudo continuou a correr mal. Como é bem sabido, uma bicicleta só se mantém de pé enquanto está em movimento.

Volvidos quase seis meses - uma eternidade, diga-se de passagem, quando se trata de um conflito sangrento, com árduas batalhas e pesadas baixas, sobretudo russas, muitos crimes de guerra tendem a ser cometidos, pense-se em Bucha e Azovstahl e urbes como Mariupol a serem completamente arrasadas por bombardeamentos de todo tipo - afigura-se importante tentar perspetivar o que se passou. Só assim se torna credível tentar antever o que se poderá vir a ocorrer nos próximos tempos. Fazendo-o tendo em conta a realidade tal e qual como ela se nos apresenta e o desenrolar das coisas, para entender como à mesma se chegou. Lessons learned que deviríamos todos interiorizar.

O Ocidente Alargado parece estar a fazê-lo, embora aos soluços. Será a Federação Russa igualmente capaz de aprender com a experiência, dada a sua propensão histórica para admitir elevadas perdas humanas? Ao que acresce uma rigidez operacional e tática que se tem vindo mais uma vez a confirmar à revelia de várias vagas de restruturações militares anunciadas e buscando maior flexibilidade nas últimas décadas.

Favorecida pelas sanções ocidentais contra a Rússia e pelo fornecimento de equipamentos militares cada vez mais letais, a Ucrânia tem vindo finalmente a lograr resistir à ofensiva das forças da Federação Russa no leste e no sul, repelindo de forma razoavelmente consistente quaisquer ataques. Com melhores equipamentos, moral mais elevado e liderança e táticas superiores, a Ucrânia tem vindo a adquirir capacidade para lançar contra-ofensivas em cada vez maior dimensão, como já o fizera em torno de Kharkiv onde foi capaz de “empurrar” as forças russas para a sua fronteira.

Uma Ucrânia que recentemente foi capaz de provocar a destruição em duas bases da força aérea russa em Saky e em Gvardiyske ambas na Crimeia, destruindo vários aviões, e instalações aeroportuárias provocando prejuízos de centenas de milhões de euros à Rússia. Para além destas duas atividades de sabotagem, tudo indica, segundo elementos afetos aos movimentos de insurreição ucraniana no sul, serem inúmeros os atentados cirúrgicos e as ações de sabotagem a instalações logísticas das forças ocupantes, tendo em vista enfraquecer a capacidade militar de Moscovo no sul da Ucrânia. O que tem desencadeado uma sistemática caça as bruxas sem precedentes nesta região.

Muito embora ainda nos encontremos claramente numa longa, mas ainda primeira fase, do movimento insurrecional no sul da Ucrânia, a capacidade demonstrada pelos seus elementos, designadamente os Tatares da Crimeia tem sido notável e têm vindo a atuar sempre em crescendo. Seria imprudente, no entanto, cantar vitória. Não obstante a Rússia se ter vindo a revelar incapaz de conseguir materializar os seus objetivos maximalistas originais, o facto é que tem conseguido materializar pequenos avanços no leste e tem logrado manter uma postura defensiva razoavelmente eficaz no sul da Ucrânia. Em boa verdade, o Kremlin tem sido capaz até agora de consolidar a ponte terrestre para a Crimeia, no sul, e proteger as regiões separatistas de Donetsk e Luhansk, no leste. Mais ainda, muito embora as forças ucranianas se encontrem a defender a par e passo a região de Donetsk, estas ainda não se revelaram capazes de expulsar as forças russas empurrando-as para suas posições anteriores a 24 de fevereiro.

Assim, e vista deste prisma, a guerra parece estar, de momento, a tender para um conflito cujo desenlace se encontra no essencial adiado, no qual nenhum dos lados parece ser capaz de alcançar uma vitória militar clara e decisiva. Efetivamente este conflito na Ucrânia pode configurar um problema de meses, senão anos, para a Europa- como de resto já foi aventado pelo Secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg. Putin insiste em aterrorizar Kyiv e as cidades no oeste da Ucrânia com ataques de mísseis de longo alcance, em assustar a Europa com a ameaça de um desastre nuclear em Energodar, enquanto o conflito se intensifica periodicamente nas linhas da frente, em especial no leste da Ucrânia. De qualquer modo, em todos os casos, com eficácia limitada. Certo é que uma Ucrânia cada vez melhor armada, equipada e instruída consegue facilmente defender-se dos ataques terrestres russos. Mas em geral ainda se mostra incapaz de reconquistar os territórios separatistas e as posições russas fortemente defendidas na “ponte terrestre” de ligação do Donbas à Crimeia. Há, de novo, que ser prudente na avaliação prospetiva que façamos. Embora reforçada por laços aprofundados com a UE, a economia da Ucrânia é duramente atingida pelo contínuo esforço de guerra e pela menor produção agrícola e industrial das quais tanto depende.

Retirando ilações. De momento parece não haver um fim claro para esta guerra, e nenhum dos lados parece disposto a desistir do que já investiu em reputação, em vidas humanas, em material bélico e em recursos financeiros. “Cuidado: um carro pode esconder outro”, como julgo escreveu o nosso grande poeta e publicista Alexandre O’Neill. Em Moscovo, Putin pode reclamar para si próprio algum arremedo de vitória, tendo garantido alguns ganhos territoriais no leste e sudeste da Ucrânia e consolidando o seu domínio sobre a Crimeia através do estabelecimento de uma ponte terrestre passando a sul pela martirizada cidade de Mariupol. Em termos gerais podemos, por conseguinte, afirmar que a posição da Rússia na Ucrânia parece estar para já suficientemente segura, muito embora Moscovo tenha de investir cada vez mais recursos de que futuramente pode não dispor para manter os seus ganhos territoriais. Quando não há dinheiro não há palhaços.

O que está em causa não é apenas a economia. É bom lembrar que para estabilizar terreno conquistado onde existe insurreição organizada são necessários em média 16 militares por cada 1000 habitantes, o que aponta para cerca de 160 000 militares só para garantir tarefas de consolidação e estabilização dos territórios controlados pela Rússia no leste e sul da Ucrânia, pois estamos em presença de uma população que ultrapassa os 10 milhões de habitantes, numa Ucrânia que tem mais de 44 milhões de almas. É adicionalmente de referir que a Rússia continua a enfrentar uma severa pressão financeira e diplomática do exterior, especialmente porque a Europa continua fortemente empenhada em reduzir a sua dependência do gás e do petróleo russos – e dado que muitas das sanções ocidentais continuam ativas, ameaçando crescer, o que redundará na produção de efeitos devastadores para a economia deste país. De momento parece dado adquirido que um gasoduto destinado a levar gás natural liquefeito para a Europa Central e de Leste se encontra em vias de ser contruído a partir de Sines, com ramificações em Espanha e passando os Pirinéus por várias vias e daí partindo para norte e leste. A UE ainda permanece algo desunida sobre a questão de eliminar gradualmente, e sublinho, todas as importações de energia russas. A França de Macron tem vindo a manifestar alguma renitência a este projeto. Estou em querer que se trata novamente de uma postura negocial mais do que uma decisão definitiva.

Trata-se de um best case scenario para o Kremlin, pois continuamos a acreditar que uma intervenção direta da NATO na Ucrânia é improvável, dado o bom desempenho dos militares ucranianos no campo de batalha. Evidências de quase seis meses de operações sugerem que as forças armadas da Ucrânia, com substancial e crescente apoio militar ocidental, estão moralizadas, determinadas e têm-se mostrado capazes não apenas de defender, mas também de contra-atacar as forças russas, embora ainda não na escala desejável.

Em síntese, uma contra-ofensiva ucraniana em grande escala, bem-sucedida, e conduzindo a um resultado decisivo desta guerra a favor de Kyiv, parece estar ainda temporalmente algo distante. As condições mínimas para que tal aconteça, em nossa opinião, ainda não se encontram completamente reunidas. Talvez a chegada das dezenas de milhares de soldados ucranianos que estão a ser treinados na Inglaterra, agora com a ajuda da Suécia e da Nova Zelândia, possam ser o verdadeiro desiquilibrador decisivo neste conflito. Com a chegada de 10 000 combatentes a cada quatro meses, significa que em oito meses poderemos ter aproximadamente quatro Brigadas de Combate devidamente equipadas e instruídas para poder efetivamente fazer a diferença e levar de vencida as forças russas de ocupação. Claro está, se o fizer em conjunto com todo o movimento insurrecional que dentro de alguns meses pode inclusivamente transitar para a segunda fase deste processo, tornado assim possível conquistar e manter algumas áreas de santuário em território ucraniano ocupado pela Rússia.

Como é óbvio, prever o futuro é sempre arriscado e as dúvidas são múltiplas. Entre estas destacaria apenas algumas: (i) A que ritmo, em que quantidade e qualidade o apoio militar do Ocidente continuará a chegar efetivamente ao campo de batalha ucraniano?; (ii) O apoio das populações ocidentais permanecerá nos moldes atuais, continuando a amparar o emprego de recursos significativos em favor da causa ucraniana?; (iii) Aliados e parceiros ocidentais continuarão unidos em torno de novos pacotes de sanções?; (iv) A Europa deixará efetivamente de consumir energia russa, especialmente o gás?; (v) Putin enfrentará problemas politico-pessoais em resultado da crise económica interna que tenderá a agudizar-se?

Em abono da verdade, não o sabemos. Estas são apenas algumas de entre uma miríade de questões que se colocam e das quais muito dependerá o evoluir do conflito nas planícies e florestas da Ucrânia. Trata-se de interrogações cujas respostas desconhecemos e tal, na prática, nos impede de discernir cenários prospetivos sobre o futuro concreto deste conflito. Como é sabido, as guerras encontram-se na “fronteira do caos” e justamente por isso raramente se pautam por quaisquer guiões previamente definidos. E esta, como não podia deixar de ser, também tem tomado rumos diferentes dos inicialmente previstos.

Em concreto e ao fim de quase seis meses, gostaria muito de ser capaz de responder, hoje e agora, como e quando esta guerra terminará. Bem como sob quais condições e suas verdadeiras implicações de médio e longo prazo para a ordem global internacional vigente que daí resultarão. Infelizmente confesso e lamento que, dadas as complexas circunstâncias atuais, tais intuições e deduções apenas começarão a poder ser elencadas com alguma razoabilidade nos próximos meses, na melhor das hipóteses. Talvez mesmo na Primavera no próximo ano.

Muito vai depender da capacidade militar-industrial de ambos os contendores em manter ativo um conflito prolongado. No caso da Rússia de si própria e de alguns aliados, como o Irão e agora, ao que parece, da Coreia do Norte. No caso da Ucrânia, dos países do dito Ocidente Alargado. Nos dois casos, muito depende sobretudo da respetiva capacidade de repor, na quantidade e na qualidade necessárias, equipamentos militares bem como combatentes devidamente treinados no campo de batalha.

Na maioria dessas dimensões (exceto na última), a História da Rússia sugere que ela terá, porventura, uma maior resiliência, pelo menos para já. Mas o Ocidente tem, seguramente, muitíssimo mais meios, em todos as outras dimensões, incluindo a última, do que aquelas a que Moscovo se pode agarrar. Tal como o bem, o mal também se divide-se pelas aldeias.

Era possível traçar alguns cenários de evolução? Sê-lo-ia sem dúvida. Contudo estou em crer que não passariam de meros exercícios de adivinhação!  

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