Se a Rússia continuar "a cometer crimes de guerra, a comunidade internacional vai intervir dentro de dias ou poucas semanas"

3 mar, 10:00

Estará o fim do conflito para breve? Um outro Afeganistão, as guerrilhas ou a queda de Putin

Do governo fantoche às guerrilhas armadas, como irá acabar a guerra entre a Ucrânia e Rússia?

Afeganistão da URSS, Vietname dos EUA e a Ucrânia da Rússia. Como pode acabar a guerra na Europa?

“Guerrilhas, resistência e até terrorismo”. Como e quando pode acabar a guerra na Ucrânia?

Como a Rússia já perdeu a guerra na opinião pública, "aquilo que lhe resta é a brutalidade", diz à CNN Portugal um especialista em contrainformação e subversão russas. "Pode acontecer à Rússia na Ucrânia uma repetição do que lhe aconteceu no Afeganistão", refere um general. Mas para se perceber melhor o rumo desta guerra, os próximos "dois a quatro dias" serão fundamentais. E fica uma ressalva: "Os ucranianos continuarão a lutar ferozmente aconteça o que acontecer, com ou sem o seu agora-louvado Presidente"

Ao oitavo dia de guerra e com tantas movimentações a nível internacional, dentro e fora da Europa, começam a colocar-se vários cenários acompanhados de outras tantas interrogações: quanto tempo é que este conflito vai durar? Será a comunidade internacional forçada a intervir mais adiante ou vai sempre assistir de fora? Se Kiev for tomada pelos russos, a Ucrânia deixa de lutar? Há sequer a hipótese de Zelensky ganhar esta guerra? 

Victor Madeira, especialista em relações diplomáticas e contrainformação e subversão russas, considera que os próximos dois a quatro dias são essenciais para se começar a perceber para onde caminhamos. "Continua a haver deserções russas, com tropas muito mal preparadas para - e não informadas sobre o que as esperava na Ucrânia. Mas é vital não perdermos a perspectiva. No sul, as forças russas estão a ter mais sucesso que no norte mas só graças a tácticas medievais e brutais, visando propositadamente populações civis. Vimos isto na Chechénia, na Síria e agora na Ucrânia." 

Para o Victor Madeira, esta guerra só tem uma forma de terminar: com um acordo político. No entanto, dada a gravidade da situação atual, não vê forma de as autoridades russas "pararem os ataques". "Se continuarem a cometer crimes de guerra, como já se alega, a comunidade internacional vai intervir, tem de intervir, dentro de dias ou poucas semanas". 

O general Garcia Leandro considera que este conflito pode tornar-se desastroso para Putin e para a Rússia. "Toda a gente tem muitas dificuldades em explicar esta intervenção. Só se aconteceu com base no princípio ‘a Ucrânia é nossa’. O mundo está quase todo contra ele, a própria Assembleia Geral das Nações Unidas votou esmagadoramente contra a invasão." 

O general refere que os objetivos estratégicos do Putin nunca foram claros e que se o propósito desta invasão era apenas tomar a Ucrânia não era preciso tanto "show-off". "Podiam ter paralisado as comunicações todas para a Ucrânia não funcionar. Mas optaram por aquele show-off de mandar tropas e tropas, com uma forte componente terrestre, de carros de combate e artilharia. A resistência civil e militar ucraniana é muito forte. É muito difícil para quem vem de fora combater em sítios que não conhece, tem de usar as rotas mais conhecidas. Quem está nas cidades conhece as ruas, as rotas de fuga, os esconderijos."

Será isto um outro Afeganistão da Rússia? Para Victor Madeira, será isso para ambos os lados "porque esta guerra faz parte de um projecto de erradicação da identidade ucraniana". Alega que a Rússia já perdeu a guerra na opinião pública e, por isso, "aquilo que lhe resta é a brutalidade". "Putin subestimou a tenacidade e coragem do povo ucraniano. Será uma tragédia para muitos jovens russos e ucranianos que vão morrer por causa de uma obsessão pós-imperial dos ocupantes do Kremlin." 

Na mesma linha, o general Garcia Leandro também acredita nesse cenário: "Já há baixas nas tropas russas. Pode acontecer que seja uma repetição da experiência no Afeganistão".

Se a Rússia tomar Kiev, os ucranianos vão continuar a lutar?

"Os ucranianos continuarão a lutar ferozmente aconteça o que acontecer, com ou sem o seu agora-louvado Presidente. Aliás, se algo lhe acontecer, os ucranianos redobrarão os seus esforços para expelir as forças invasoras custe o que custar". Esta é a perspetiva de Victor Madeira. 

Aliás, na terça-feira os Serviços de Segurança da Ucrânia garantiram terem impedido o assassínio de Volodymyr Zelensky, em Kiev, graças a um aviso por parte do Serviço Federal de Segurança russo. "Se isto se confirmar, quer dizer que as autoridades russas já não podem confiar inteiramente nas suas próprias forças de segurança e militares", sublinha Victor Madeira. E ainda a propósito do presidente da Ucrânia, o general Garcia Leandro acredita que a importância, o respeito e a confiança relativamente Zelensky entre a população ucraniana é cada vez maior e, por isso mesmo, esta "não vai aceitar qualquer solução com a presença russa". 

Tal como já aconteceu no passado noutras partes do mundo, o cenário de guerrilhas e resistência popular é muito provável. No entanto, ninguém sabe quais são as verdadeiras intenções de Putin. "Uma das possibilidades é que a situação acabe por descambar como aconteceu no caso da União Soviética no Afeganistão e com os Estados Unidos no Vietname", diz Luís Tomé, coordenador científico do Observatório de Relações Exteriores da Universidade Autónoma de Lisboa. Além disso, o professor catedrático lembra que os ucranianos já reiteraram, em variadas ocasiões, que "não estão dispostos a ceder nem um centímetro". "Duvido mesmo que a maioria dos ucranianos aceitasse um governo fantoche pró-russo, aí teríamos guerrilhas, resistência e até terrorismo. Mas duvido que Putin quisesse isso, portanto pode tentar fazer cair este governo e convocar eleições sem nomear os seus homens."

O que levaria Putin a recuar?

Esta não deixa de ser uma questão complexa, porque os vários perfis feitos ao presidente russo, e a própria história, já demonstraram que não é homem para recuar ou desistir. Ou mantém os ataques ou pára onde está e começa a negociar. Para Luís Tomé, nem o Ocidente nem a Ucrânia têm, pelo menos para já, uma resposta a esta pergunta.  "Há uma desordem quanto ao que conhecíamos. A partir de agora está tudo em cima da mesa, até uma terceira guerra mundial. Por outro lado, podemos vir a assistir a um movimento interno que acabe com a queda de Putin."

Uma das factos que podem levar Putin a mudar de atitude, e isso não significa dar um passo atrás, seria os oligarcas russos começarem a sentir os efeitos das sanções e pressionarem o presidente russo. "A expectativa é que, tal como Abramahovic, outros se demarquem deste conflito ou se afastem de Vladimir Putin. Mas, se se perceber que as sanções não estão a atingir os alvos, os cidadãos ocidentais vão começar a pressionar os governos. É impensável que estas sanções visem a população russa e não os responsáveis", aponta Luís Tomé.

O cenário pode agravar-se?

Ainda esta quarta-feira, António Guterres assegurou que, "por muito má que seja a situação para as pessoas da Ucrânia neste momento, isto vai ficar muito, mas muito pior -é uma bomba-relógio". Para Victor Madeira, aquilo que mais o preocupa são as ameaças russas no que toca à energia e às bombas nucleares. "Preocupa-me mais ainda o que forças russas possam fazer se conseguirem controlar estações de energia nuclear e instalações de investigação nuclear que já estão a ser visadas em ataques. Será que a Rússia quer só cortar a electricidade e a água às cidades? Ou será que estaria preparada a usar instalações nucleares para irradiar território ucraniano? De um modo ou outro, esvazia-se a Ucrânia. Esperemos que nunca tenham essa oportunidade," 

Ainda assim, é expectável que o Ocidente continue a apoiar a Ucrânia, "quer militarmente, quer humanitariamente, quer economicamente", afirma Victor Madeira. E não se trata apenas de uma atitude moral ou ética, trata-se, sobretudo, de não terem outra hipótese. "Esta guerra foi-nos imposta pelo governo russo e não podemos recuar. Porque depois da Ucrânia outras democracias serão o alvo." 

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