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Agência chinesa suspeita de andar à procura de detetores e bloqueadores de drones para a Rússia

CNN , Laura He
5 jun, 12:39
Um bloqueador portátil de deteção de drones é exibido durante uma exposição de segurança em Villepinte, um subúrbio de Paris, França, em 14 de novembro de 2023. 
Miguel Medina/AFP/Getty Images/File

Uma agência governamental chinesa criada para promover o comércio com a Rússia tem tentado obter detetores e bloqueadores de drones, aumentando as preocupações de que Pequim possa estar a fornecer tecnologia de dupla utilização a Moscovo.

Empresas estrangeiras procuravam “equipamento para veículos aéreos não tripulados (UAV)”, incluindo detetores de drones e bloqueadores, de acordo com um anúncio de concurso publicado a 22 de maio na conta oficial WeChat da Associação Provincial de Guangdong para a Promoção do Comércio com a Rússia.

A associação, supervisionada pelo Departamento de Comércio da província, disse que os compradores queriam “geradores de interferência, detetores de drones (nomes comerciais BorisTone, Assel Labs e Bulat) ou outras soluções tecnológicas semelhantes, supressores de drones e bloqueadores de banda de comunicação”.

Os detetores de drones Bulat foram desenvolvidos pela 3MX, uma empresa russa. São conhecidos por terem sido utilizados pelo exército russo durante a invasão da Ucrânia em 2022.

O documento de aquisição foi removido da conta da associação na rede social WeChat, mas ainda existe na conta de outro órgão governamental na mesma província.

A Associação para a Promoção do Comércio Internacional da cidade de Yunfu publicou o mesmo anúncio no WeChat na semana passada, pedindo a qualquer “empresa interessada” nos produtos que enviasse as suas informações.

Os bloqueadores de drones emitem sinais nas frequências que os drones utilizam para operar e transmitir informações, sobrecarregando a sua capacidade de comunicação.

A Ucrânia tem-se apoiado fortemente nos drones desde o início da invasão em grande escala da Rússia e tem acumulado recursos para fazer avançar a tecnologia e o fabrico nacional. Tem vindo a utilizá-los para atacar a indústria russa do petróleo e do gás, que continua a ser a maior fonte de dinheiro para o esforço de guerra de Moscovo, apesar das sanções ocidentais.

A publicação dos avisos chineses ocorre no momento em que Pequim enfrenta uma pressão significativa dos governos ocidentais para garantir que os produtos de dupla utilização com aplicações militares não cheguem ao sector de defesa da Rússia ou às suas forças no campo de batalha da Ucrânia.

Os Estados Unidos acusaram Pequim de apoiar secretamente a guerra de Moscovo através da venda desses produtos de dupla utilização. Entre eles, contam-se chips semicondutores, equipamento de navegação e peças para jatos.

Pequim afirma que é neutra no conflito Rússia-Ucrânia e tem dito repetidamente que não fornece armas a nenhum dos lados e que “controla rigorosamente” a exportação de bens de dupla utilização.

Aviso retirado

Uma pessoa que atendeu o telefone da associação de Guangdong negou que o documento se destinasse a garantir encomendas para clientes russos. Disse à CNN que o documento foi retirado por ser “impróprio”. Quando lhe pediram mais pormenores, disse que o pedido tinha sido feito em nome de compradores do Cazaquistão, antes de terminar abruptamente a chamada.

A CNN também contactou a associação comercial Yunfu para obter comentários.

De acordo com a sua conta oficial no WeChat, as principais responsabilidades da associação de Guangdong incluem o apoio ao trabalho de comércio global da província, o estabelecimento de contactos com compradores ou vendedores russos, a organização de intercâmbios, a coordenação de acordos comerciais com a Rússia e a prestação de aconselhamento jurídico relacionado com a Rússia aos comerciantes chineses.

A China estabeleceu laços mais profundos com a Rússia desde a invasão da Ucrânia e tornou-se uma linha de vida económica e diplomática vital para o país. No mês passado, o presidente russo Vladimir Putin visitou Pequim e encontrou-se com o seu homólogo chinês Xi Jinping, tendo ambos elogiado as relações estreitas entre os seus países.

No início desta semana, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou, numa reunião de chefes de defesa em Singapura, que o apoio da China à Rússia irá prolongar a guerra na Ucrânia, juntando a voz da Ucrânia às preocupações manifestadas pelos EUA e pelos líderes europeus nos últimos meses.

“Pequim apoia diretamente a guerra da Rússia na Ucrânia de várias formas, quer seja através da compra de petróleo para ajudar a alimentar a sua economia, quer seja ajudando-os a reconstituir a base industrial de defesa”, afirmou Oriana Skylar Mastro, membro do Instituto Freeman Spogli de Estudos Internacionais da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.

Mastro disse que “não está particularmente surpreendida” com o facto de os governos locais chineses ajudarem as empresas russas a procurar equipamento para drones. Mas não acredita que Pequim venha a ter um envolvimento mais “direto” na guerra.

Na semana passada, os EUA avisaram que poderiam atuar contra empresas e instituições financeiras chinesas em resposta ao alegado apoio de Pequim aos esforços de guerra russos.

O secretário de Estado norte-americano Antony Blinken afirmou em abril que Washington já tinha imposto sanções a mais de 100 entidades e indivíduos chineses por alegadamente ajudarem a apoiar os esforços de guerra da Rússia.

“Pequim está a tentar manter uma linha muito ténue entre aderir ao que os Estados Unidos lhes pedem e, especificamente, ao princípio da sua política externa de não vender armas e equipamento e [envolver-se em] interferência militar estrangeira”, disse Mastro.

“O que eles diriam é que estão a fazer o seu melhor para impedir a venda de material militar à Rússia, mas há sempre coisas que [vão] passar”, assinalou.

*Joyce Jiang contribuiu para este artigo

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