Ucrânia foi invadida há três meses: 10 perguntas e respostas sobre a guerra que já está a mudar a Europa

24 mai, 08:00
Mariupol, na Ucrânia (AP Photo/Alexei Alexandrov)

Assinalam-se hoje três meses desde que a Rússia invadiu a Ucrânia. Falámos com o coronel Carlos Mendes Dias e a investigadora Diana Soller para um balanço do que aconteceu até agora e o que se perspetiva daqui em diante.

1. Quem está a ganhar a guerra?

“Depende da perspetiva”, começa por dizer a investigadora especialista em relações internacionais Diana Soller. “Apesar de tudo, os avanços no terreno na Rússia são mais significativos do que as travagens que a Ucrânia consegue fazer e, nesse sentido, pode dizer-se que a Rússia está a ganhar a guerra”, afirma. “Mas, por outro lado, temos o argumento de que a Ucrânia, que era uma não existência militar, tem sido capaz de não deixar a Rússia avançar”. Recorde-se que, antes da invasão, o orçamento da Ucrânia para a Defesa era dez vezes inferior ao da Rússia.

“Do ponto de vista militar, quem está a ganhar é a Rússia. Tem praticamente a zona de Lugansk conquistada, a ligação entre a Crimeia e o Donbass e mesmo a província de Donestk está acima de 60% conquistada”, refere o coronel Mendes Dias. "A Ucrânia está a experimentar grandes dificuldades no Donbass", acrescenta, destacando que "a perda de Mariupol e Azovstal causou algum impacto na moral ucraniana". Ainda assim, “do ponto de vista político, a Rússia está isolada e não tem ganhos”, continua, pelo que, nesta dimensão, “a Ucrânia está a ganhar”.

2. Quantos civis já morreram?

A guerra já matou 3.930 civis – 1482 homens, 973 mulheres, 90 raparigas e 98 rapazes, 69 crianças e 1218 adultos cujo sexo não foi possível identificar. Estes são os últimos dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, mas o organismo admite que o número real de civis mortos será muito superior ao divulgado. É que as organizações têm dificuldade em recolher informação nas regiões onde os combates são mais intensos, sobretudo em Mariupol (Donestsk), Izium (Kharkiv) e Popsana (Lugansk).

Quanto aos feridos, a guerra já fez pelo menos 4532 vítimas – 880 homens, 588 mulheres, 106 raparigas, 124 rapazes, 164 crianças e 2670 adultos cujo sexo não foi possível apurar.

A ONU diz que maioria dos civis mortos foram vítimas de explosões em grande escala, incluindo bombardeamentos com artilharia pesada, mísseis e ataques aéreos.

3. E soldados?

A Ucrânia não tem divulgado o número de soldados mortos por uma questão estratégica, mas esta segunda-feira o presidente Volodomyr Zelensky afirmou que morrem 50 a 100 soldados ucranianos por dia na zona do Donbass, onde os combates se têm intensificado. O coronel Mendes Dias considera que estas declarações sugerem que Zelensky estará a deixar um apelo: "Isto é um grito a dizer 'estou a precisar de pessoas'", frisando que é um número "com alguma gravidade".

Do lado da Rússia, o Kremlin também não divulga há várias semanas o número de militares mortos, sendo que o último balanço oficial foi divulgado no final de março e, na altura, o regime de Vladimir Putin deu conta de cerca de 1350 soldados mortos - um número que os observadores internacionais consideraram estar manifestamente abaixo da realidade.

A Ucrânia afirma que a Rússia já terá sofrido mais perdas com esta invasão do que em toda a guerra do Afeganistão – entre 1979 e 1989. As autoridades ucranianas falam em 27 mil soldados russos mortos. Apesar de não ser possível apurar um número real, a maioria dos soldados de Moscovo que já morreram serão jovens, com idades entre os 21 e os 23 anos, provenientes de regiões rurais e inseridos em contextos socioeconómicos mais vulneráveis.

O coronel Mendes Dias não tem dúvidas: "Há muito mais vítimas do que as que foram anunciadas. Parece-me que há mais perdas russas do que ucranianas, até porque ucranianos estão na defensiva", sublinha. No entanto, nota que "nem sempre quem tem mais baixas é aquele que perde. Na maior parte dos casos isso não acontece".

4. Quantos refugiados a guerra já provocou?

Desde o início da invasão, mais de 6 milhões e 552 mil pessoas já fugiram da Ucrânia, sobretudo para países da Europa que estão mais próximos da fronteira. Os dados são das Nações Unidas e revelam que a Polónia é o país que recebeu um maior número de refugiados (mais de 3 milhões e 500 mil), seguindo-se a Roménia, com 961 mil.

Mais de 900 mil ucranianos também foram para a Rússia, segundo o Kremlin, mas não se sabe em que circunstâncias, e há relatos de que muitos terão sido forçados. Numa entrevista à CNN Portugal, a diretora executiva da Amnistia Internacional da Ucrânia falou em pessoas que “eram literalmente retiradas de, por exemplo, Mariupol ou aldeias à volta, e enviadas para um lugar na Rússia”. 

Apesar do cenário de guerra, mais de dois milhões de ucranianos já regressaram ao país desde 28 de fevereiro (quatro dias após o início da invasão).

5. Kiev é ou não um alvo para a Rússia?

Inicialmente, a capital da Ucrânia parecia ser um dos alvos da Rússia nesta invasão, mas agora os combates têm-se concentrado no leste do território. “A Rússia traçou objetivos impossíveis o que fez com que se reagrupasse. A estratégia da Rússia neste momento é essa concentração no Donbass. Não estou certa de que essa concentração tenha sido pensada. Penso que houve a necessidade de encontrar uma nova forma de não perder esta guerra, não a perder completamente e de alcançar alguns objetivos”, frisa Diana Soller, que acrescenta que “foi a Ucrânia que obrigou a Rússia a repensar” os seus objetivos. 

Opinião diferente tem o coronel Mendes Dias, para quem Kiev "nunca foi um alvo". "Do ponto de visto de forças, terá sido um eixo secundário a apoiar eixos principais no Donbass", sublinha. O especialista em assuntos militares considera que o objetivo não era tomar a capital ucraniana, mas sim decapitar o governo: "Eliminar Zelensky e as pessoas que o aconselham". Para o coronel, os principais objetivos de Moscovo são fazer o contorno de terreno no leste da Ucrânia e a conquista de territórios até ao eixo Sloviansk - Kramatorsk, que permitam formar "duas repúblicas" do tamanho equivalente a duas vezes Portugal continental: "uma República de Kherson e outra do Donbass". 

6. A Ucrânia está a receber ajuda?

A Ucrânia tem insistido na necessidade de ajuda financeira para resistir à invasão russa nas suas mais variadas vertentes: necessita de dinheiro para combater, mas também para manter os hospitais e outros serviços básicos a operar.

Desde que começou a guerra, os EUA já enviaram mais 3,8 mil milhões de dólares em armamento. Mas, recentemente, o Congresso norte-americano aprovou um pacote de ajuda que ronda os 40 mil milhões de dólares, dos quais 20 mil milhões serão destinados a aumentar a produção de stock de armas. Parte da verba será também usada para auxiliar o governo de Kiev em termos económicos e humanitários.

Este novo pacote de ajuda segue-se a outros já enviados pelo Ocidente. Esperam-se ainda mais 18,4 mil milhões de dólares (perto de 17,5 mil milhões de euros) por parte do G7, que também esta quinta-feira aprovou uma ajuda nesse montante. Sabe-se que, desses, 9 mil milhões de euros vão chegar da União Europeia.

7. Quanto tempo a guerra ainda vai durar?

Esta é a pergunta para um milhão de dólares. E há vários fatores em jogo. Diana Soller considera que vai depender da “resistência da Ucrânia” e que “de há dois ou três dias para cá a resistência parece desmoralizada”. Por outro lado, vai pesar também a vontade política russa em manter esta guerra e as próprias capacidades do regime de Vladimir Putin. 

O coronel Mendes Dias também não arrisca uma previsão. "Só poderemos começar a contabilizar tempo depois de saber o resultado da ofensiva russa até Sloviansk e Kramatorsk", frisa. 

8. Que consequências terá esta guerra para a segurança da Europa?

Ao nível da segurança “já sabemos que a NATO se está a transformar”, frisa Diana Soller, numa alusão ao alargamento da aliança atlântica com os pedidos de adesão da Finlândia e da Suécia. A investigadora destaca a “perceção da ameaça russa por parte da Europa”, com os países a terem “a sensação de que estão mais inseguros do que o que estavam” e a reforçarem o investimento na Defesa. A investigadora lembra que a Alemanha, por exemplo, anunciou investimentos que lhe vão permitir constituir “o maior exército europeu”. “Durante muitos anos, não voltaremos a olhar para a Rússia sem ser com desconfiança”, afirma Diana Soller.

No entanto, o coronel Mendes Dias nota que "os exércitos e as Forças Armadas em geral demoram muito tempo a construir" e, no caso de Portugal, não perspetiva grandes progressos em termos de reforço a breve trecho. Para o especialista, o maior desafio será atrair jovens para as carreiras militares.  

9. E para a economia?

Em termos económicos também já há consequências, com a subida da inflação e dos preços. "Vamos entrar numa fase económica muito complicada com o esforço de guerra”, começa por dizer Diana Soller. “Alguns países terão de mudar gastos de outros setores para o setor de Defesa e o próprio corte do gás russo e a tentativa europeia de acabar com a sua dependência vai ter custos económicos muito grandes”, vinca.

10. Poderá haver mais guerras como esta? 

A investigadora Diana Soller alerta que esta guerra “poderá ter reedições no futuro”. “Houve uma guerra civil na Chechénia e que já teve várias reedições, houve a guerra da Geórgia, houve a primeira guerra da Ucrânia em 2014. Em nenhuma destas guerras, Putin ficou satisfeito. A menos que a Rússia tenha uma derrota verdadeiramente decisiva, vamos ter sempre a hipótese de voltar a ver a Rússia ressurgir”.

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