TORTURA (Yulia Paievska: três meses sob cativeiro)

13 jul, 22:12
Yulia Paievska (CNN Internacional)

É conhecida por toda a Ucrânia como Taira e foi essa mesma fama que a atraiçoou quando os russos chegaram a um posto de controlo em Mariupol

Yulia Paievska tem 53 anos, é paramédica na Ucrânia e devido à guerra esteve em cativeiro durante três meses, depois de ter sido capturada por tropas russas na cidade portuária de Mariupol. Numa entrevista exclusiva à CNN Internacional, esta médica, também conhecida como Taira, contou os abusos psicológicos e físicos que sofreu. Apesar de terem sido três longos meses, é possível resumi-los numa palavra: tortura.

Taira era amplamente conhecida na Ucrânia por ser uma heroína e foi essa fama que a atraiçoou no dia 16 de março, quando foi reconhecida pelos russos num posto de controlo em Mariupol. Foi de imediato detida. Ela e o motorista que a acompanhava. Os abusos começaram logo no primeiro dia.

"Durante cinco dias eu não comi nem bebi praticamente nada." A violência física, que incluía espancamentos, foi "extrema". Já a pressão psicológica "não parou por um único minuto durante estes três meses". Além de heroína, Yulia tornou-se uma sobrevivente. 

Entre 16 de março e 17 de junho - quando foi libertada numa troca de prisioneiros entre a Ucrânia e a Rússia - esta paramédica e o motorista estiveram fechados num centro de detenção pré-julgamento na região de Donetsk, que era controlado por tropas russas e da autoproclamada República Popular de Donetsk. As condições em que foram mantidos em cativeiro eram de tal forma desumanas que Yulia comparou-as a um Gulag (campos de concentração soviéticos). "Diziam-me constantemente que era uma fascista, uma nazi e que seria melhor se eu estivesse morta do que ver o que iria acontecer a seguir."

Durante vários dias foi sujeita a interrogatórios forçados e chantageada pelos separatistas russos e pró-russos a gravar uma confissão, em frente a uma câmara, em como tinha ligações neonazis. Como nunca cedeu, "colocaram-me numa espécie de solitária, num calabouço sem colchão, apenas um beliche de metal". Esta confissão, explicou, iria fazer parte de um vídeo de 47 minutos de propaganda do Kremlin que foi transmitido pelo canal russo NTV, no qual a acusaram de usar crianças como escudos humanos, de 'roubar' órgãos e no qual era comparada a Hitler. Nesse vídeo, que foi emitido 12 dias depois de ter sido raptada, é possível ver Yulia algemada e encapuzada a ser levada para uma sala de interrogatório, onde a sentaram com um foco de luz forte na sua direção. 

O dia em que foi libertada 

Durante os três meses em que esteve em cativeiro foi impedida de contactar o marido. Só o conseguiu fazer no dia em que foi libertada. Quando lhe ligou, Vadim Puzanov, o marido, não lhe reconheceu a voz. Nem sequer lhe ocorreu que pudesse ser ela. Julgava-a morta. 

"Eu não a reconheci a voz porque não esperava que ela me ligasse", contou à CNN Internacional. Quando se dirigiu, com a filha e outros familiares, para o hospital onde Yulia estava, descreveu-o como "o momento mais feliz."

Enquanto esteve em Mariupol, esta paramédica trabalhava com uma bodycam para filmar o estado das pessoas que chegavam ao posto de socorro e os esforços que eram feitos para as salvar. Chegou mesmo a esconder um dos seus cartões de memória dentro de um tampão e entregou-o a uma equipa de jornalistas da Associated Press quando se preparavam para abandonar a cidade. E antes que os russos chegassem, destruiu um outro com o dentes e deitou-o fora. 

Enquanto esteve presa, Yulia perdeu 10 quilos. Agora vive com stress pós-traumático e tão cedo não voltará às linhas da frente. Neste entrevista, pediu o mesmo que os líderes ucranianos: mais ajuda do Ocidente para derrotar a Rússia. 

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