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Porque Xi pode finalmente estar pronto para falar com Zelensky

CNN , Opinião de Frida Ghitis
17 mar 2023, 14:21
O presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Getty Images

NOTA DO EDITOR | Frida Ghitis, antiga produtora e correspondente da CNN, é colunista de assuntos mundiais. É colaboradora semanal da CNN, colunista do The Washington Post e colunista da World Politics Review. As opiniões expressas neste comentário são as suas

Seria de esperar que as autoridades norte-americanas parecessem preocupadas com as notícias de que o presidente chinês, Xi Jinping, planeia falar com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, após a viagem de Xi à Rússia na próxima semana. Afinal, Xi, que lidera o país que os EUA veem como a sua maior ameaça estratégica, está a sentir-se mais forte do que nunca.

Nos últimos dias, o líder chinês mais poderoso desde Mao Tse Tung garantiu um terceiro mandato presidencial sem precedentes e, num golpe à influência dos EUA no Médio Oriente, Xi ajudou a intermediar um acordo diplomático entre rivais - Irão e Arábia Saudita.

Agora, encorajado por esse sucesso, Xi pode tentar trazer a paz à Ucrânia. Se ele conseguir encontrar uma fórmula que pare o derramamento de sangue na Ucrânia sem permitir que a agressão da Rússia seja recompensada, Xi merecerá aplausos. Zelensky, o povo ucraniano, assim como os EUA e os seus aliados, saudariam tal resultado. Mas tudo isto é um grande "se".

Dado o potencial - e outros resultados menos óbvios, mas também importantes, que poderiam resultar da reunião - não é surpreendente que Washington pareça bastante satisfeito com a notícia.

O Conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan saudou a ideia, dizendo que os EUA têm tentado convencer Xi a falar com Zelensky. Zelensky também queria falar com Xi, um dos poucos grandes atores globais com quem não teve oportunidade de conversar desde que a guerra começou.

Zelensky tem boas razões para confiar nos seus poderes de persuasão e, até agora, os EUA também aprenderam que Zelensky pode ser um defensor muito convincente do seu país.

Embora a reunião - que pode ser um telefonema, segundo o Wall Street Journal - não tenha sido confirmada, permitiria a Xi elevar o seu estatuto como estadista e pacificador global. Tanto Zelensky como a administração Biden também esperam que a conversa dê a Xi uma perspetiva diferente. Fundamentalmente, esperam que isso ajude a impedir que a China decida fornecer armas à Rússia.

A China nega ter planos para armar Moscovo, mas vários governos ocidentais sugeriram que Pequim está a considerar seriamente a possibilidade de o fazer. Se Xi se mover no sentido de reforçar o arsenal da Rússia, pode virar a maré de uma guerra que tem sido em grande parte desastrosa para a Rússia, e pode resultar num conflito muito mais mortífero, duradouro e geopoliticamente perigoso. 

A China tem tentado convencer o mundo de que pode oferecer uma alternativa ao poder dos EUA. Uma tentativa real de mediação da paz na Ucrânia, mesmo sem sucesso, pode ajudar a promover a imagem de um estadista responsável.

Da perspetiva dos EUA, o esforço tem o potencial de poder enfranquecer os laços na amizade "sem limites" entre Xi e Putin que, como defendi anteriormente, deveria ser um objetivo da política externa dos EUA. É um pouco usar os pontos fortes de um oponente ou as próprias fraquezas para atingir determinados fins, com o sucesso da China no Médio Oriente potencialmente a ajudar os objetivos dos EUA noutros lugares, encorajando Xi a tentar a sua mão na Ucrânia - abrindo a possibilidade de que isso poderá colocar distância entre ele e Putin.

E no entanto, uma conversa entre Xi e Zelensky - que ocorreria logo após a visita de Xi a Putin - poderia ser arriscada.

Xi e Putin - os irmãos autocracia - têm muito em comum, desde o seu desejo de ver os Estados Unidos e a aliança ocidental enfraquecidos, até ao seu desdém pela democracia ou pelas suas práticas autocráticas em casa. É justo dizer que Xi preferiria que a guerra terminasse sem uma derrota russa.

Na chamada telefónica, Xi poderá alertar Zelensky de que Putin pode começar a receber armamento chinês a menos que a Ucrânia concorde com concessões territoriais. Xi pode estar disposto a fazer isso, mesmo que o envio de armas para a Rússia pudesse desencadear sanções ocidentais prejudiciais contra a China, quando tenta recuperar da sua desastrosa política de "covid zero". E se Xi o fizesse, isso colocaria uma enorme pressão sobre Zelensky, que se recusa firmemente a deixar a Rússia ficar com qualquer terra ucraniana.

Mas também é possível que Xi possa exercer pressão sobre Putin para aceitar um tipo diferente de acordo, um que lhe permita retirar as suas tropas do matadouro para o qual as enviou, com o custo de dezenas de milhares de vidas russas.

Se a Rússia tivesse vencido rapidamente, como tantos esperavam, a China provavelmente não se importaria com o facto de a Rússia ter invadido a Ucrânia, um país pró-ocidental cuja soberania Putin rejeita, como a China rejeita a de Taiwan.

No entanto, não tem sido esse o caso. E assim, há algumas semanas, Pequim lançou um plano de paz de 12 pontos para acabar com a guerra na Ucrânia. Zelensky saudou o novo interesse da China na Ucrânia, chamando-lhe "nada mau". O plano apela ao "respeito pela soberania de todos os países", mas era extremamente vago. Parecia mais destinado a delinear o que a China quer do mundo do que o que é necessário para parar a guerra.

O documento também pedia o "abandono da mentalidade da Guerra Fria" e da expansão de um bloco militar - ou seja, da NATO -, bem como o fim das sanções económicas e a "manutenção de cadeias industriais e de abastecimento estáveis". Foi um sinal claro das razões pelas quais a China gostaria que esta guerra terminasse.

O esboço chinês pede ainda o fim das hostilidades e o início de conversações de paz. Mas, ao contrário do plano de Zelensky, não exige que a Rússia retire as suas tropas que ocupam atualmente grandes partes da Ucrânia.

Um cessar-fogo nessas condições consolidaria o controlo da Rússia e travaria o ímpeto, que agora favorece indiscutivelmente a Ucrânia. Mesmo em Bakhmut, onde os ucranianos lutam para se manterem firmes, a Rússia passou meses a tentar capturar a cidade agora devastada. Pode acabar por capturá-la, mas o custo mostra o quão ferozmente os ucranianos estão a lutar.

Em termos simples, existe uma fórmula para acabar com a guerra na Ucrânia. Mas Putin está determinado a manter partes da Ucrânia, e Zelensky e o seu povo opõem-se a tal desfecho.

Se Xi conseguir convencer Putin a aceitar garantias de segurança - talvez pressionando a Ucrânia a comprometer-se com a não adesão à NATO - ganhará a reputação de pacificador. Outros elementos também podem influenciar um acordo, como um referendo legítimo e supervisionado internacionalmente em certas regiões - sem tropas russas no terreno - sobre a que nação os ucranianos querem aderir.

O optimismo em relação a um acordo de paz, porém, é escasso. Os dois lados estão muito distantes. Putin acha que pode sobreviver mais ao apoio ocidental à Ucrânia. A última declaração sobre a Ucrânia do governador da Florida, Ron DeSantis, apoia essa opinião se o provável candidato presidencial vencer em 2024, e a guerra ainda não tiver terminado. Tanto DeSantis como Trump parecem inclinados a recuar e deixar Putin ficar com partes da Ucrânia.

O resultado mais realisticamente esperançoso das conversações, se de facto ocorrerem, é que os poderes de persuasão de Zelensky possam funcionar, convencendo Xi a manter as suas armas fora das mãos da Rússia e - cenário ainda melhor - que Xi possa prevalecer sobre Putin de que esta guerra é insuperável, para que o derramamento de sangue de ambos os lados chegue ao fim. Essas probabilidades, no entanto, não são boas.

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