ENTREVISTA || QUATRO ANOS DE INVASÃO || Depois da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, o paralelismo que salta à vista é com a Guerra Civil de Espanha, defende o historiador António José Telo, numa conversa que vai dos planos furados da Rússia em 2022, à guerra de atrito agora em curso na Ucrânia, passando pelas “traições” sofridas por uma “nação martirizada” durante mais de um século que "está de pé atrás" em relação ao Ocidente desde o final da I Guerra Mundial. “Não tenho dúvidas de que a Rússia, na forma como conduz as negociações, está já a pensar na futura guerra – não na atual, mas no seu posicionamento na futura guerra”
Têm sido feitas várias comparações entre a Guerra da Ucrânia e outros conflitos e guerras do passado recente. Há quem considere que o grande paralelo é com a II Guerra Mundial porque, não sendo mundial, opõe grandes blocos de nações e também pelo seu impacto demográfico. Que paralelismo salta à vista?
Podíamos traçar vários paralelos, mas o primeiro que me ocorre é com a Guerra Civil de Espanha. Como é evidente, esta guerra na Ucrânia não é civil, embora haja teoricamente alguns ucranianos que apoiam o lado russo – muito poucos, mas que devem ter aumentado, entretanto, nas zonas conquistadas, porque a Rússia já terá tratado de expor a população à sua versão. Mas sobretudo em termos internacionais, esse é o paralelo mais evidente.
Porquê?
A Guerra Civil espanhola é uma guerra que antecede uma guerra maior, que funciona como antecâmara de uma guerra maior. Tudo o que de novo houve na II Guerra Mundial foi experimentado em Espanha pelos dois lados, pela Rússia ao lado da república espanhola, e pela Espanha do lado franquista, ou nacionalista como se dizia na altura. A Espanha serviu como campo de ensaio em larga escala.
Também podem ser comparadas pela sua duração, embora esta guerra tenha já excedido a espanhola, em termos de baixas civis, que em Espanha foram arrasadoras, houve milhões de mortos, e também em termos de refugiados – ainda que numa escala menor, na altura também houve muitos refugiados, que num primeiro momento atravessaram a fronteira portuguesa e depois a fronteira com França.
Quando diz que a guerra na Ucrânia e a Guerra Civil espanhola são comparáveis também em termos internacionais, refere-se aos apoios de um lado e de outro?
Essa guerra, como esta, serviu para esclarecer alianças na Europa e preparar a guerra que aí vinha. Os entendimentos na origem da II Guerra foram experimentados em Espanha, com a formação de eixos, nomeadamente da Alemanha nazi e da Itália fascista e, sobretudo, com a mudança que houve nas duas principais democracias da Europa à data, França e Reino Unido.
Desde o primeiro momento da intervenção em Espanha, houve uma grande preocupação de França e de Inglaterra em não provocar a Alemanha. Foi uma intervenção a meia velocidade, enviavam alguma coisa, alguma ajuda, mas não o suficiente para a república espanhola vencer. Quem foi o grande apoiante da república foi a Rússia, não foi França, inclusive França cola-se a Inglaterra, que forma uma Comissão de Não Intervenção, e o nome já diz tudo. A intervenção da Alemanha e também de Itália, ainda que esta fosse muito fraca, foi ampla, ao passo que França e Reino Unido tiveram uma intervenção muito pequena logo desde 1937 a favor da república espanhola.
E de que forma é que podemos comparar isso ao que está a acontecer na Ucrânia?
A guerra na Ucrânia faz lembrar, desde o primeiro momento, uma guerra internacional porque opõe dois lados, o lado russo com o apoio da Coreia do Norte e do Irão, e o lado da Ucrânia com o apoio de um amplo leque de países, inclusive a NATO como um todo num primeiro momento. E no caso do apoio à Ucrânia, houve sempre uma preocupação muito forte desde o primeiro momento – isto falando do presidente Biden e não de Trump – de não permitir uma derrota total da Ucrânia, mas também não permitir uma vitória, sempre com receio da resposta russa, tal como houve receio da resposta alemã no caso da Guerra Civil espanhola.
Num primeiro momento, os Estados Unidos da América – de Biden, não de Trump, volto a frisar – tiveram a preocupação de que esta guerra servisse para enfraquecer a Rússia, não tanto para salvar a Ucrânia. O prolongamento do conflito até era visto como algo favorável, daí a preocupação ter sido dar tudo a conta gotas e não dar logo o que era mais avançado. Daí ter levado um ano e meio até os EUA aceitarem enviar os F-16 para a Ucrânia, daí ter levado também um ano e meio até aceitarem que os Leopard 2 fossem para a Ucrânia – os Leopard 2 são alemães, mas só foram dados quando houve luz verde dos EUA de Biden. E depois, sobretudo, quando houve a ofensiva do verão de 2023, que não correu muito bem à Ucrânia, houve uma preocupação clara do Ocidente de recuar ainda mais, de dar ajuda a conta gotas e muito bem medida.
Como é que a postura dos EUA mudou com Donald Trump?
Com Trump, a preocupação central é acabar com a guerra – e, embora não seja dito oficialmente pelos EUA, está escrito na sua Estratégia de Segurança Nacional que o objetivo é restabelecer uma nova base de relações com a Rússia e arrastar a NATO europeia para esse novo entendimento. Isso é algo que interessa aos EUA e que está no seu plano de médio prazo.
É quase uma traição à Ucrânia e aos aliados…
Da perspetiva ucraniana, desde que é independente, portanto desde 1991, a Ucrânia foi traída várias vezes pelo Ocidente, inclusive em 1994, com a cedência do seu arsenal nuclear. O melhor arsenal nuclear da URSS estava na Ucrânia, incluindo a maior parte dos [bombardeiros estratégicos supersónicos] TU-160 usados pela Rússia contra a própria Ucrânia nesta guerra.
A Ucrânia abdicou desse arsenal e entregou-o à Rússia em troca de garantias fortíssimas encabeçadas pela própria Rússia, de que iria respeitar e garantir as fronteiras da Ucrânia e por aí fora, e os EUA e os europeus todos assinaram também esse documento sem qualquer problema. E de que valeu? De nada.
Depois, foi novamente traída em 2014, quando os ucranianos tentaram montar uma resposta mais firme contra a anexação da Crimeia e a operação no Donbass, mais uma vez em troca de garantias de segurança dos EUA e dos europeus como um todo, de que as suas fronteiras eram invioláveis e seriam defendidas até à última gota de sangue – e viu-se o que aconteceu, com a invasão de 2022.
Os ucranianos têm um historial muito claro e muito forte de traições e o receio óbvio é o de que a história se repita. As garantias anteriores eram as mais firmes de sempre no papel, oralmente, e viu-se no que deu – há um passado muito claro.
Como olha então para o desenrolar desta guerra ao final de quatro anos?
Bom, esta não é a primeira guerra entre a Ucrânia e a Rússia, no século XX já houve outras duas, uma logo em 1919-1920, quando o Exército Vermelho ocupou a Ucrânia e depois invadiu a Polónia. Houve aliás a Batalha do Rio Vístula, em que a Rússia sofreu uma derrota tremenda, levou uma tareia monstruosa dos polacos, o que forçou o Exército Vermelho a recuar, e a estabelecer as fronteiras da Polónia a Oriente com a URSS [sob o Tratado de Riga de 1921], que agora já não existem – mas não as fronteiras da Ucrânia, que não participou nessa batalha, porque já estava ocupada pelos russos, e como tal perdeu aí essa oportunidade.
Depois olhe-se para a coletivização imposta pela Rússia no final dos anos 20, início dos anos 30, em que os mortos ucranianos na resistência foram para cima de dois milhões, bastante mais do que os desta guerra. E aí houve mais uma traição, inesperada, quando houve a invasão alemã da URSS.
Que traição?
É que, num primeiro momento, muitos ucranianos ofereceram-se para lutar ao lado da Alemanha contra a URSS, simplesmente verificaram, ao fim de muito pouco tempo, semanas ou meses, que a Alemanha era ainda pior do que a Rússia – não só não dava nenhuma garantia, nem sequer oralmente, como afastava totalmente a hipótese da independência e tratava os ucranianos com mão de ferro. Aí é que os ucranianos participaram fortemente no combate ao invasor alemão. Aliás, o principal grupo do Exército Vermelho soviético, ativo na libertação da Ucrânia e na ofensiva contra a Alemanha nazi, chamava-se Primeira Frente Ucraniana – era da URSS, mas eram fundamentalmente ucranianos.
Ucrânia e Rússia têm um longo historial de guerras no século XX, algumas até esquisitas, como esta de 1941, em que grande parte dos ucranianos teve, num primeiro momento, a tendência de apoiar a Alemanha por se lembrarem do que acontecera às mãos dos russos no passado, com a coletivização e aí por diante. Depois há este historial de garantias do Ocidente que acabam por dar em nada, o que faz com que a Ucrânia esteja de pé atrás desde o final da I Guerra Mundial. É uma nação martirizada.
Voltando aos paralelismos: há quem defenda que, tal como aconteceu com a Primavera de Praga em 1968, o plano da Rússia em 2022 foi baseado numa sobrevalorização das suas próprias forças e em pressupostos errados sobre o adversário. Concorda?
Não, era um contexto diferente em 1968, até porque houve vários levantamentos contra a ocupação russa antes da Primavera de Praga, a começar com o levantamento da Hungria em 1956, que foi completamente esmagado, e com as várias insurreições dos sindicatos polacos católicos contra a ocupação militar russa.
Diria que, desse ponto de vista, a atual guerra é mais comparável com a operação pela qual a Rússia ocupou o Afeganistão.
De que forma?
A Rússia atacou o Afeganistão com um golpe de palácio em Cabul, feito justamente por forças especiais aerotransportadas de helicóptero, derrubando o governo afegão, matando os antigos dirigentes e colocando lá um governo pró-soviético, enquanto colunas blindadas avançavam vindas da URSS e da Mongólia.
Foi o começo de uma guerra que durou dez anos, a Guerra da Resistência Afegã, que foi apoiada pelos EUA – em que aconteceu com os russos o mesmo que aconteceu com os EUA no Vietname, que ao fim de dez anos vieram embora. Mas foi o mesmo plano que a Rússia tinha em 2022 para a Ucrânia – um golpe de Estado em Kiev, derrubar e capturar o governo, matar os dirigentes se não colaborassem... O plano para a Ucrânia foi uma repetição da ocupação do Afeganistão, mas com uma diferença muito grande: é que no Afeganistão funcionou até certa medida, e na Ucrânia não.
Porque é que acha que assim foi?
Porque os ucranianos sabiam com grande antecedência que a invasão ia acontecer, sabiam-no com pelo menos um ano de antecedência. E posso dizer isto sem qualquer dúvida porque, no ano anterior, houve um congresso histórico na Polónia e quando chegou a altura de debater qual seria o tema do próximo congresso os polacos sugeriram o tema das fronteiras. Toda a gente ficou muito admirada e eles justificaram-no assim: a Rússia vai invadir a Ucrânia no ano que vem. Isto foi dito num congresso histórico em 2021, pelo que os ucranianos tiveram tempo para se prepararem em Kiev – e aquilo que era o centro da manobra russa, que era a ocupação da capital, foi um fiasco para a Rússia.
A ocupação da capital ucraniana foi um fiasco, mas a guerra continua sem fim à vista, apesar das negociações em curso. Diria que a guerra na Ucrânia se tornou comparável à I Guerra Mundial enquanto guerra de atrito, de longa duração, elevado desgaste e combates intensos, mas localizados?
Diria que se tornou uma guerra de atrito e de erosão, mas que não é comparável à I Guerra Mundial, principalmente porque esta guerra se caracteriza por grandes mudanças militares. Se quisermos apontar uma única, podemos dizer que esta é a guerra dos drones. Os drones alteraram tudo na guerra, e os drones é que têm permitido a resistência ucraniana.
Ao início eram drones conduzidos à distância, com um piloto em terra, depois passaram a ser drones mistos, já com uma componente de Inteligência Artificial (IA) e o comando assumido por quem estava à distância, mas isso foi-se tornando cada vez mais difícil com o empastelamento das comunicações, a Rússia tem arte nisso. E atualmente, os drones não precisam de comunicação, têm uma missão, têm IA para poderem adaptar-se a novas situações ou então, para distâncias mais curtas, são drones de fibra ótica. Uma coisa impressionante de se ver nesta guerra foi quando, no Donbass, o céu parecia estar enfeitado para o Carnaval, por causa de centenas de milhares de drones que explodiram e deixaram para trás a fibra ótica.
Houve algumas surpresas nesta guerra. Ao contrário do que se pensava, provou-se difícil mover forças mecanizadas convencionais, é mais fácil o movimento de drones de IA, de submarinos, de drones terrestres, numa grande quantidade. Há drones terrestres que têm o tamanho de um rato, que até andam em quatro patas e não em lagartas, e que conseguem explosões significativas perto de um agrupamento militar russo, por exemplo.
Esta transformação tecnológica será recordada como um dos grandes marcos desta guerra?
Sim, mas é uma guerra que também tem um outro componente decisivo que é o espacial, por via das redes de satélites. A Ucrânia não se aguentava sem os satélites americanos, e Elon Musk, através da sua empresa privada [Starlink], apoiou fortemente a resistência ucraniana nesta guerra. Os satélites foram e continuam a ser muito importantes.
Também é impressionante a forma como os ucranianos se adaptaram, os flip flaps que fizeram no ar em relação a mudanças nas doutrinas militares… A visão do que é uma posição militar mudou bastante, e aponta para o futuro.
Isso leva-nos de volta ao paralelismo com a Guerra Civil de Espanha…
Sim, em que muitas das coisas que vão fazer a novidade da II Guerra são experimentadas ali. Não tenho dúvidas de que a Rússia, na forma como conduz as negociações, está já a pensar na futura guerra, não na atual mas no seu posicionamento na futura guerra. E tem um dilema difícil de resolver, que é se faz já ou em 2030.
Uma das coisas importantes para a Rússia é o Donbass, apesar de pequeno tem uma grande importância, não só pelo posicionamento militar, mas também por ser o território da indústria pesada, das terras raras, e da energia, alberga a maior central nuclear de energia da Europa, que está neste momento ocupada pela Rússia. Esse é, aliás, um dos pontos mais acesos na discussão, nas negociações, é quem vai controlar Zaporizhzhia. Isto para a Rússia é muito importante.
E como diria que será essa guerra futura? Fazendo um exercício impossível de antevisão, o que vai acontecer a seguir?
Tudo depende do contexto internacional. Diria que o passo seguinte, o ponto em que a Rússia vai fixar atenções a seguir é o Báltico, que é essencial para a Rússia, porque neste momento tem um acesso muito reduzido ao Báltico – que está rodeado pela NATO de todos os lados. A Rússia tem uma saída estreita para o Báltico, com países da NATO nas duas margens, e depois tem a região de Kaliningrado, que também está rodeada pela NATO. Mas o Báltico é essencial para a Rússia no futuro. A outra vantagem é que uma parte significativa do litoral da região do Báltico é composta pelos países bálticos [Estónia, Letónia e Lituânia], que são os mais fracos em todo o contexto NATO. O ponto fraco está ali – e digo fraco não intelectual ou politicamente, fraco militarmente, logo, mais fácil de ocupar.