Vertigem

18 nov, 16:49

A guerra, o míssil na Polónia e o aviso permanente

Este mundo, não nos fatigaremos de insistir,

é uma comédia de enganos.

Na sua simplicidade inimitável a cartografar e a saber expressar as complexidades da condição humana, José Saramago – que esta semana celebraria o seu centenário – resume assim, em apenas uma frase, tão ao seu estilo, uma fórmula possível para explicar o sentido da existência e do mundo.

Na reflexão, entre incontáveis outras na sua extraordinária A Jangada de Pedra, bem poderíamos trocar “comédia” por “tragédia” para também resumir o momento de vertigem coletiva, quando um míssil caiu em solo polaco, a poucos quilómetros da fronteira com a Ucrânia, parando o mundo ao longo de toda uma noite.

Na noite dos tempos, de que serve falar dos que há tantos anos morreram,

se é a Terra que está morta, por si mesma sepultada.

Na mesma obra, afirmando, Saramago questiona. E reforça-se a dúvida, agora com palavras nossas: se uma guerra continua a ser possível hoje, na Europa dos nossos tempos, de que servem as lições do passado? Se, por vezes, desconsoladamente, essa dúvida fica sem resposta, no momento de vertigem que parou o mundo, porventura, as lições do passado serviram.

Porque a incerteza dessas horas reanimou a realidade que, não obstante, está sempre presente desde o início da invasão e que teimamos em ignorar: como esta guerra, confinada no território ucraniano, pode extravasar fronteiras a qualquer momento e arrastar o mundo para um novo conflito, ainda mais arrasador. As potenciais consequências desta constatação, tão distintivamente percetível, explica o silêncio, nessas horas, dos pesos-pesados que tomam as decisões e decidem o curso da História.

Está a aprender para o futuro,

que é o lugar único onde se podem emendar os erros.

Cientes do peso dos “erros” no mundo, as lições do passado e os riscos do presente explicaram a  contenção da Polónia, dos Estados Unidos ou da Nato. A Ucrânia, que sofre todas as horas, diariamente, nove meses fora, com o peso da invasão, prontificou-se a condenar “o terror da Rússia”. E assim se manteve, mesmo quando as conclusões preliminares confirmaram a origem ucraniana do míssil, em legítima defesa de um ataque russo, retirando por isso qualquer culpa aos próprios ucranianos.

A vertigem do momento, como um aviso permanente do potencial desta guerra para a aniquilação humana, desvenda a realidade no terreno. O apoio constante do Ocidente com as mais diversas tecnologias militares, tem permitido travar, acredita-se, com maior sucesso agora, os efeitos ainda mais destruidores das centenas de mísseis russos. Mas mesmo com a defesa antiaérea mais desenvolvida, há fugas. Essas fugas materializam-se nos alvos energéticos que acabam por ser arrasados, guardando a promessa do inverno mais difícil em décadas para o povo ucraniano. E redobrando a obrigatoriedade do apoio ocidental nos próximos meses.

A Rússia, por seu lado, humilhada pela retirada de Kherson, intensifica estes ataques energéticos, mantendo ainda a ofensiva diária no Donbass. Mas mesmo aqui, há uma janela de tempo. Os recursos de alta-precisão que devastam as condições de vida dos ucranianos vão sendo gastos. E mesmo no leste, entre as tropas que combatem em Donetsk e Lugansk, multiplicam-se os relatos do extremo cansaço e da extrema falta de motivação para continuar a combater. Desta forma, com o inverno a chegar, a Rússia está à espera da formação dos soldados recém-mobilizados para substituir e reavivar as peças no terreno.

E é assim que chegamos às expectativas de uma negociação. Volodymyr Zelensky admite receber indicações de outros líderes de que Vladimir Putin pretende falar, recordando que a Ucrânia não vai ceder um centímetro do seu território. Todas estas variáveis lançam dúvidas sobre os rumores constantes das negociações, seja para um cessar-fogo, seja para a paz.

Perante tudo isto, nesta tragédia de enganos, retomamos A Jangada de Pedra, também esta a narração de um povo à deriva, quase abandonado pelo mundo à sua sorte, desconhecendo o seu destino, numa travessia de afirmação da sua identidade. Saramago, na sua resignação inimitável, escreve a sentença:

A nós o que nos ilude é esta linha de vivos em que estamos, que avança para isso a que chamamos futuro, só porque algum nome lhe havíamos de dar, colhendo dele incessantemente os novos seres, deixando para trás incessantemente os seres velhos a que tivemos de dar o nome de mortos para que não saiam do passado.

Será essa a ilusão permanente do nosso presente até ao próximo momento de vertigem?

Colunistas

Mais Colunistas

Patrocinados