Estas são as principais teorias sobre o que causou o (catastrófico) colapso da barragem na Ucrânia

CNN , Ivana Kottasová e Gianluca Mezzofiore
9 jun 2023, 12:41
Imagens de satélite da barragem de Nova Kakhovka antes do seu colapso (à esquerda, a 5 de junho) e depois do desastre (à direita, a 7 de junho). Maxar Technologies/Reuters

A Rússia será quem mais tem a ganhar com a ação, que poderia potencialmente abrandar uma esperada contraofensiva ucraniana

O colapso da barragem de Nova Kakhovka, no sul da Ucrânia, é um dos maiores desastres industriais e ecológicos das últimas décadas na Europa. A catástrofe destruiu aldeias inteiras, inundou terrenos agrícolas, privou dezenas de milhares de pessoas de eletricidade e água potável e causou enormes danos ambientais.

Ainda é impossível dizer se a barragem ruiu porque foi deliberadamente atingida ou se a rutura pode ter sido causada por uma falha estrutural. A barragem e a central hidroelétrica estão sob controlo russo e, por conseguinte, inacessíveis a investigadores independentes, o que deixa os peritos de todo o mundo a tentar perceber o que aconteceu com base em provas visuais limitadas.

Vários responsáveis ocidentais responsabilizaram a Rússia pela catástrofe, quer acusando diretamente Moscovo de ter visado a barragem, quer dizendo que a Rússia é responsável apenas porque é o agressor na guerra contra a Ucrânia.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, descreveu a destruição como "mais uma consequência devastadora da invasão russa da Ucrânia", mas acrescentou que a ONU não tem acesso a informações para verificar de forma independente a causa.

Fonte militar da NATO disse à CNN que, embora vá demorar algum tempo até saberem com certeza quem foi responsável pela destruição da barragem de Nova Kakhovka, acreditam que a Rússia está provavelmente por detrás disto. Segundo a fonte, a Rússia é quem mais tem a ganhar com a ação, que poderia potencialmente abrandar uma esperada contraofensiva ucraniana, se esta tivesse lugar naquela parte do país.

Imagens de satélite da barragem de Nova Kakhovka antes do seu colapso (à esquerda, a 5 de junho) e depois do desastre (à direita, a 7 de junho). Maxar Technologies/Reuters

Vários especialistas em engenharia civil sugeriram que uma explosão no interior da estrutura é a causa mais provável da rutura da barragem, embora não seja a única explicação possível.

Eis as três principais teorias sobre a causa do colapso - e o que dizem os especialistas e as autoridades sobre cada uma delas:

Foi a Rússia que provocou o colapso?

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, o seu governo e as forças armadas do país apressaram-se a culpar Moscovo pelo desastre. Zelensky citou um relatório dos serviços secretos ucranianos do ano passado que afirmava que as tropas de ocupação tinham minado a barragem.

Os ucranianos salientam que a barragem tem estado sob controlo russo desde há um ano, o que facilita a colocação de explosivos pelas forças russas.

Publicações nas redes sociais indicam que as pessoas na zona ouviram o som de explosões na altura em que se pensava que a barragem tinha sido danificada.

O timing alargado do incidente não é insignificante. Embora Moscovo e Kiev se tenham acusado mutuamente de conspirar para fazer explodir a barragem da era soviética, este colapso coincidiu com o momento em que as forças ucranianas se preparam para a sua esperada contraofensiva.

A barragem atravessa o rio Dnipro, uma importante via fluvial que se tornou uma linha da frente no conflito e palco de fortes combates nesta parte do sul da Ucrânia. A cidade de Kherson, situada na margem ocidental do Dnipro, foi libertada pelos militares ucranianos em novembro, após oito meses de ocupação russa. Mas grande parte da margem leste do rio, a sul da barragem de Nova Kakhovka, continua sob controlo russo.

As forças ucranianas têm levado cada vez mais a batalha para as linhas de frente entrincheiradas da Rússia no sul e no leste, e Kiev acusou a Rússia de fazer explodir a barragem "em pânico".

Mykhailo Podolyak, alto conselheiro de Zelensky, disse que "o objetivo dos terroristas é óbvio - criar obstáculos para as ações ofensivas das Forças Armadas ucranianas".

"Isto confirma mais uma vez que o Kremlin não está a pensar estrategicamente, mas sim em termos de vantagens situacionais a curto prazo. Mas as consequências já são catastróficas", disse à CNN.

Os danos também estão a afetar a área a norte do reservatório, onde os níveis de água estão a descer. O colapso deixou 94% dos sistemas de irrigação em Kherson, 74% em Zaporizhzhia e 30% nas regiões de Dnipro "sem fonte de água", de acordo com o Ministério da Agricultura ucraniano.

A central nuclear de Zaporizhzhia também se situa a montante da barragem destruída. O reservatório fornece água de arrefecimento à central, a maior central nuclear da Europa, e é crucial para a sua segurança. A central está sob controlo russo, o que tem sido uma grande fonte de ansiedade para os ucranianos, ainda assustados com o desastre nuclear de Chernobyl em 1986.

Terá sido um ataque de mísseis da Ucrânia?

A Rússia negou qualquer envolvimento no desastre e, por sua vez, acusou a Ucrânia de ter destruído a barragem, sem apresentar provas.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que o ataque foi "planeado e executado por ordem recebida de Kiev, do regime de Kiev", com o objetivo de "privar a Crimeia de água" e desviar a atenção do campo de batalha. A Ucrânia negou as acusações.

O reservatório fornece água a grandes áreas do sul da Ucrânia, incluindo a península da Crimeia, que a Rússia anexou ilegalmente em 2014.

A Crimeia tem tido problemas com água desde que a Ucrânia cortou o seu abastecimento pouco depois da anexação. As forças russas capturaram o canal da Crimeia do Norte - que é alimentado pelo reservatório de Kakhovka - e começaram a restaurar o abastecimento de água nos primeiros dias da sua invasão em 2022.

Embora as inundações possam afetar qualquer contraofensiva da Ucrânia, também estão a afetar as forças russas. Algumas das áreas mais atingidas pela catástrofe estão sob controlo da Rússia e, no passado, serviram de palco para os militares de Moscovo.

Cidade ucraniana de Korsunka vista numa imagem de satélite em 7 de junho, após as inundações causadas pelo colapso da barragem. Maxar Technologies/AP

Há também sugestões de que o colapso da barragem apanhou de surpresa algumas forças russas.

Um oficial das forças armadas da Ucrânia disse à CNN que os seus homens testemunharam soldados russos a serem arrastados pelas águas das cheias e a fugirem da margem oriental do rio Dnipro. O capitão Andrei Pidlisnyi disse à CNN que quando a barragem rebentou na madrugada de terça-feira, "ninguém do lado russo conseguiu fugir". "Todos os regimentos que os russos tinham do lado de lá ficaram inundados." A CNN não pôde verificar de forma independente o seu relato.

A Rússia acusou a Ucrânia de lançar "ataques de artilharia em massa" contra a barragem, mas alguns especialistas questionam se seria possível causar uma destruição desta dimensão a partir do exterior.

Vários especialistas afirmam que uma explosão interna é a explicação mais provável.

"O bombardeamento pela Ucrânia é altamente improvável, uma vez que seria necessário colocar explosivos maciços perto das fundações", explicou Chris Binnie, professor convidado da Universidade de Exeter e presidente da Tidal Engineering and Environmental Services, ao Science Media Centre do Reino Unido.

Craig Goff, diretor técnico e líder da equipa de Barragens e Reservatórios da HR Wallingford, uma empresa de consultoria em engenharia civil e hidráulica ambiental, disse que para infligir danos suficientes na barragem seria necessário um ataque muito preciso.

"Na Segunda Guerra Mundial, houve os ataques dos Dambusters [da Força Aérea Real] às barragens alemãs e eles tiveram de gastar muito tempo a trabalhar para saber exatamente onde colocar os explosivos na barragem de modo a causar danos suficientes para provocar a rutura", lembrou à CNN.

"Não era uma coisa simples. Era preciso colocar os explosivos mesmo a montante da barragem, a uma profundidade considerável. Se fosse só a parte de cima da barragem, provavelmente ela ainda sobreviveria. Perder-se-ia um pouco de água, mas sobreviveria", esclarecey Goff.

Falha estrutural?

A barragem de Nova Kakhovka - o maior reservatório da Ucrânia em termos de volume - é também a mais a jusante de seis barragens da era soviética no rio Dnipro. O facto de a barragem estar a funcionar há várias décadas levou a que se especulasse sobre uma possível falha técnica.

"A secção da barragem que estamos a analisar é uma barragem de gravidade em betão, com 35 metros de altura e 85 metros de comprimento. Este é um tipo de barragem muito comum em todo o mundo. São construídas há centenas de anos e, se tiverem sido bem concebidas e construídas e se a sua manutenção for adequada, a probabilidade de uma falha é muito, muito baixa. Seria extremamente invulgar que este tipo de barragem falhasse sem qualquer aviso", disse Goff.

No entanto, não é claro até que ponto a barragem tem sido mantida sob a ocupação russa. A área circundante tem sido uma das regiões mais fortemente disputadas desde que a Rússia lançou a sua invasão em grande escala da Ucrânia em fevereiro de 2022 e a barragem sofreu alguns danos anteriores.

Secções da parte norte da barragem e algumas comportas foram também afetadas por uma explosão em novembro, quando os militares russos se retiraram da margem ocidental do Dnipro e Kherson foi libertada pelas tropas ucranianas.

Uma análise da CNN a imagens de satélite da Maxar mostra que a estrada por cima da barragem foi danificada poucos dias antes do colapso estrutural. As imagens de satélite mostram que a ponte estava intacta em 28 de maio, mas as imagens de 5 de junho mostram que falta uma secção da mesma ponte. A análise de imagens de satélite de menor resolução sugere que a perda da secção da ponte ocorreu entre 1 e 2 de junho.

Entretanto, os dados mostram que os níveis de água na albufeira por detrás da barragem atingiram níveis recorde no mês passado, de acordo com o serviço de informação Hydroweb.

"As imagens que vi mostram duas ruturas, de cada lado de uma estrutura. Se a rutura fosse causada por um excesso de nível de água a montante, haveria apenas uma. Assim, as causas naturais são altamente improváveis", observou Binnie.

"O projeto da barragem terá em conta estes níveis de água muito elevados, mesmo extremos, inundações do tipo bíblico, e haverá vertedouros para permitir a passagem da água. Por isso, mais uma vez, a barragem não deverá falhar só por causa dos níveis de água elevados", acrescentou Goff.

Os peritos estão também a analisar se uma falha no interior da central elétrica poderá ter causado o colapso. Goff recordou a explosão ocorrida em 2009 na central de Sayano-Shushenskaya, a maior central hidroeléctrica da Rússia. "Nesse caso específico, houve um problema com uma das turbinas. A turbina vibrou e acabou por explodir. E isso matou os trabalhadores da casa das máquinas, mas não afetou a barragem nesse caso, devido à forma como a barragem foi construída", sublinhou.

"É possível que, se a central hidroelétrica estivesse num ponto crítico dentro da barragem e acontecesse algo de mau na casa das máquinas, isso pudesse ter causado uma explosão no interior que danificasse a barragem", considerou Goff. Acrescentou, no entanto, que seria "extremamente improvável" que um acidente desse género acontecesse sem aviso prévio.

"Saber-se-ia como operar a barragem em segurança e saber-se-ia que as turbinas não deveriam vibrar tanto... por isso, se a barragem estivesse a ser bem cuidada, provavelmente poder-se-ia excluir essa hipótese", afirmou.

Mas como a central esteve sob controlo russo durante mais de um ano, ninguém pode ter a certeza do que se passou no seu interior durante esse período, e está longe de ser certo que aqueles que a operavam soubessem o que estavam a fazer.

*Vasco Cotovio, Allegra Goodwin, Sebastian Shukla, Sam Kiley, Natasha Bertrand, Alex Marquardt, Jim Sciutto e Jennifer Hansler contribuíram para este artigo

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