Como sobrevive o futebol no meio da guerra?

3 mar, 11:00
Futebol na Ucrânia (AP Photo/Andrew Kravchenko)

Edgar Cardoso é o único português que ainda trabalha no Shakhtar Donetsk e faz um retrato do futebol na Ucrânia: os jogos em estádios com abrigos antiaéreos, os expedientes para contrariar a Lei Marcial e a proteção que o clube tenta dar aos miúdos mais novos. «Os jogadores habituaram-se à rotina da guerra.»

Edgar Cardoso é o único português que continua a trabalhar no Shakhtar Donetsk. O coordenador da formação está em Split com oitenta jovens da formação do clube e sempre que a equipa principal ou os sub-19 viajam para jogar as competições europeias junta-se à comitiva.

Ele que está diariamente em contacto com os responsáveis, para dar todo o apoio e o acompanhamento que é necessário do lado de cá da guerra. Até porque a Lei Marcial continua: os homens só podem sair da Ucrânia com autorizações especiais do governo e sempre por um período limitado.

Numa altura em que se completou um ano sobre o início da guerra, o Maisfutebol falou com ele para perceber como o futebol sobrevive por entre os escombros e traz-lhe um retrato dos sacrifícios que as pessoas fazem para parecer que é possível viver uma vida normal no país.

Onde é que o Edgar Cardoso está agora?

Precisamente há um ano estávamos no processo de evacuação dos jogadores da Ucrânia, trouxemo-los para a Croácia e ainda aqui estamos.

Desde que saiu da Ucrânia, naquela retirada um bocadinho assustadora organizada pela embaixada, voltou à Ucrânia?

Não. Foi uma coisa que negociei com o clube. O Shakhtar disse-me que precisava muito de mim, uma vez que os treinadores ucranianos não podiam sair do país. Eu era praticamente a única pessoa que podia circular livremente pela Europa.  Então decidi continuar a colaborar com o clube, primeiro só até ao verão passado. Depois percebemos que havia condições para continuarmos, não são condições fantásticas, mas são interessantes. Então decidi continuar, com uma única condição: que eu não teria de voltar a entrar na Ucrânia. O clube acabou por aceitar e aqui estou com 80 jogadores neste momento.

Têm muito trabalho aí em Split?

Temos pouco staff e muito trabalho. Para além disso, sempre que a equipa principal e os sub-19 saem do país para jogar, eu junto-me a eles. Quando há estágios fora do país ou jogos, eu acompanho-os. Depois regresso a Split.

Perderam muita gente que não conseguiu sair do país?

Sim, perdemos alguns treinadores, porque não podiam continuar à espera que a situação se resolvesse e tiveram que procurar outras soluções. O que conseguimos fazer, mas não é sempre e não é de uma forma regular, é que quando os seniores ou os sub-19 passam a fronteira para fazer jogos internacionais, tentamos trazer uma ou duas pessoas para a Croácia para nos ajudar. Mas isto dura um ou dois meses, porque depois desse período os treinadores são obrigados a voltar à Ucrânia.

A Lei Marcial continua, não é?

Continua, continua. Mas há exceções para clubes que disputam as competições europeias. Há autorizações especiais do governo para que um grupo de pessoas possa cruzar a fronteira, mas sendo obrigadas a voltar. Por exemplo, agora vamos jogar contra o Feyenoord e vamos sair do país no dia 6, para regressar no dia 9. São quatro dias. Dia 6 de abril, no máximo, as pessoas que saem do país têm que voltar e têm que trazer o carimbo no passaporte. Caso contrário são considerados fugitivos e podem ter problemas graves no futuro.

Os miúdos miúdos da formação estão todos aí em Split?

Na Croácia temos os jogadores dos sub-12 aos sub-15. Neste momento são cerca de 80 atletas. Utilizamos os campos do Hadjuk Split para treinar e estamos a viver num hotel que não tem nada a ver o Hadjuk.

As famílias acompanham esses miúdos?

Não, as famílias não estão aqui, mas temos sete a oito mães que nos têm ajudado neste período, sobretudo em tarefas relacionadas com a escola, com a alimentação e com o controlo dos jogadores quando eles saem do hotel.

Fazem esse trabalho pro bono?

Sim, totalmente pro bono. São pessoas que fazem isto para ajudar, sem qualquer recompensa.

Eles na Croácia conseguem continuar a estudar?

Continuam a estudar, de forma remota. Têm aulas online, todas as manhãs, com os professores deles na Ucrânia. O hotel tem três salas grandes, dividimos os jogadores pelos diversos anos, cada sala tem um projetorzinho e o professor está em direto a dar as aulas.

E como fazem para ter competição?

Conseguimos, não com a Federação da Croácia, mas com a associação de futebol aqui da região de Split, que é a associação de futebol da Dalmácia, que eles registassem as nossas equipas em campeonatos regionais. Por isso todas as semanas temos jogos.

E os outros miúdos com mais de 15 anos onde estão?

Houve miúdos que num primeiro momento também estiveram aqui, mas que perceberam que se ficassem connosco a perspetiva de realizarem o sonho de serem jogadores profissionais podia ficar um bocadinho comprometida. A verdade é que, apesar de tentarmos ter uma uma abordagem profissional ao treino, estamos sempre limitados em termos de espaço para treinar e em termos de competição: os jogos são a nível regional e a oposição é muito fraca. Então os jogadores de sub-16 e sub-17 resolveram procurar outros clubes na Europa e neste momento temos 20 a 30 jogadores, muito, muito bons, em diversos países e em diversos clubes de topo. Temos jogadores no Barcelona, na Roma, no Valencia, no Bayern Munique, no Bayer Leverkusen, no Borussia Dortmund.

Portanto esses jogadores seguiram a carreira noutros clubes e já não têm ligação ao Shakhtar...?

Há jogadores que no início da guerra tinham contrato profissional com o Shakhtar e esses contratos profissionais continuam em vigor, por isso podemos considerar que neste momento eles estão como emprestados a esses clubes. O que significa que se a guerra acabar e o contrato continuar em vigor, eles regressam. Depois há outro grupo de jogadores que não tinha contratos assinados e esses jogadores podemos considerá-los como perdidos.

E ainda têm também a equipa sub-19, não é?

Sim, é uma equipa que tem jogadores de 18 e 19 anos, todos têm contratos profissionais com o Shakhtar e estão a competir de forma oficial na Ucrânia. O campeonato na Ucrânia começou em agosto e está a decorrer. Em novembro foi interrompido para a pausa de inverno e vai recomeçar agora neste fim de semana. Ao mesmo tempo jogámos também a Youth League, juntamente com a equipa sénior. Portanto, os sub-19 e equipa sénior têm uma vida muito semelhante. Sempre que a primeira equipa viajava para jogar com o Real Madrid, com o Celtic ou com o RB Leipzig, os sub-19 também viajavam e jogavam exatamente com o mesmo adversário.

Entretanto a Youth League acabou para o Shakhtar.

Conseguimos passar a fase de grupos, jogámos o play-off de acesso aos oitavos de final e perdemos, curiosamente contra o Hadjuk Split, aqui em Split. Ironia do destino. Por isso, neste momento os sub-19 estão só a jogar a competição interna, na Ucrânia. A equipa sénior continua na Liga Europa. Qualificou-se a semana passada contra o Rennes e vai jogar na próxima semana contra o Feyenoord para os oitavo de final.

Os jogadores destas duas equipas estão a viver na Ucrânia?

Na Ucrânia, sim. Ou em Lviv ou em Kiev. Os sub-19 nesta altura já estão em Kiev, porque fomos eliminados das competições europeias e voltamos à nossa casa. Os seniores estão em Lviv, porque como jogam a Liga Europa, e Lviv está muito perto da fronteira, facilita muito a logística de transporte e as deslocações.

Os jogadores vivem num hotel?

Sim, num hotel.

Os jogos em casa também são na Ucrânia?

As competições europeias não podem ser jogadas na Ucrânia, por isso fazemos os jogos em Varsóvia, na Polónia. Utilizámos o estádio do Lechia para jogar e o centro de estágio deles para preparar os jogos. O campeonato ucraniano está a ser disputado dentro da Ucrânia.

Como é que isso se consegue?

Consegue-se. Obviamente que na parte mais perto da fronteira com a Rússia não não há qualquer tipo de competição. Mas desde Kiev, que fica exatamente no centro do país, até Lviv há vários estádios que estão a ser utilizados para o campeonato. Na faixa que faz fronteira com a Rússia, não há nada a decorrer.

E como é que são os jogos de futebol num país em guerra?

Os jogos decorrem sem público. Só estão a ser jogados em quatro ou cinco estádios e é obrigatório que todos eles tenham abrigos antiaéreos, porque acontece várias vezes estar a decorrer um jogo, começarem a tocar as sirenes e os jogadores têm de se abrigar. De resto, o policiamento é feito pelo exército, que controla a entrada e saída das equipas, e são sempre às duas ou três da tarde, para não se colocar o problema da iluminação artificial.

As outras equipas ucranianas também conseguiram continuar a atividade?

Da primeira divisão apenas um clube cessou atividade, que foi o Mariupol. Todas as outras equipas tiveram capacidade para sair da zona onde estavam, para procurar um centro de treinos em zonas menos perigosas e continuam a atividade normal e a participar em campeonatos.

Todas elas se devem concentrar ali naquela zona de Lviv, não?

Eu diria que 90 por cento das equipas estão nessa zona. Sobretudo Lviv, mas também um bocadinho mais a sul, numa cidade perto da fronteira com a Hungria que se chama Uzhhorod, onde também estão três ou quatro equipas.

O Shakhtar joga em Lviv?

Sim, os jogos do campeonato foram todos feitos em Lviv. Quando a equipa for afastada das competições europeias, acho que o que está programado é regressar a Kiev, tal como fizeram os sub-19, e aí voltamos a jogar em Kiev.

Já agora tem ideia de como está a fazer o Dínamo Kiev?

Sim, tenho. Eles estiveram agora a fazer um estágio de preparação da segunda parte do campeonato na Turquia e entretanto regressaram à Ucrânia. Estão a treinar no centro de estágios em Kiev e jogam no Estádio Olímpico.

Psicologicamente como é que estão as pessoas no clube?

Eu costumo dizer que os ucranianos são especiais, são feitos de uma fibra diferente. Acho que ao fim de um ano as pessoas acabaram por se habituar àquilo que é o dia a dia na Ucrânia, em que há duas ou três semanas em que não acontece nada e de repente num dia a Rússia decide lançar uma ofensiva grande. A Ucrânia neste momento está muito mais bem equipada em termos de defesa antiaérea e consegue anular 90 a 95 por cento dos ataques com mísseis e drones que a Rússia faz. Já percebemos que a Rússia tenta atingir sítios estratégicos, tenta sempre danificar tudo o que esteja relacionado com eletricidade, comunicações, internet, água... Portanto, as pessoas já se foram habituando este tipo de intervenção da Rússia. Os jogadores já se habituaram a este tipo de vida na guerra e não posso dizer que psicologicamente sinta os atletas muito afetados.

Mesmo os miúdos que estão aí consigo já estão habituados?

Sim. Até porque o Shakhtar criou uma dinâmica em que permite que as mães possam visitar os jogadores e possam ficar por um período de sete dias, sem terem de pagar para isso. Nós damos-lhe um quarto no hotel nesse período de sete dias. O que não podemos ter é mães em permanência aqui. Então a cada mês e meio ou dois meses os jogadores têm a visita da mãe. Há alguns pais, por terem contactos especiais, também conseguem essa permissão para sair do país durante um mês. Depois há a internet e conseguirem falar com os pais todos os dias por vídeochamada também ajuda.

Durante este ano teve de lidar com alguma história difícil?

Logo na primeira semana houve uma ofensiva realmente grande por parte da Rússia e um treinador de uma escola de futebol do Shakhtar infelizmente faleceu. Depois disso não tive conhecimento de nada diretamente ligado ao Shakhtar. Felizmente não aconteceu nada a pais, mães, irmãos, avós. Há pais e alguns treinadores que têm sido chamados para a linha da frente, mas felizmente até hoje não aconteceu nada.

Também houve a história do Sudokov que o Fernando Valente partilhou e que chegou a viver com a namorada grávida num bunker.

Sim, num bunker. É verdade. Entretanto o filho dele já nasceu. Tenho estado com ele nos jogos internacionais, ainda a semana passada estive com ele em França, e volto a dizer o mesmo: acho que o tempo faz com que as pessoas se habituem e que as coisas comecem a lhes parecer normais. Não o vejo afetado, acho que a mulher passará muito tempo na Polónia como acontece com grande parte das famílias dos jogadores, e o que eu vejo são vidas normais, habituadas a esta rotina de caos que é uma guerra.

Estas pessoas já perceberam que vão ter de se habituar à guerra mais algum tempo, não é?

Sim, o que sinto, o que ouço, é que a guerra não acaba em breve e que as pessoas têm de ser conformar com isso.

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