"Chega um dia em que se esgota a possibilidade de tocar o coração da opinião pública." Portanto: as declarações "absurdas" e "polémicas" de Zelensky "vão repetir-se"

12 ago, 07:00
Conferência de imprensa de Volodymyr Zelensky (EPA/SERGEY DOLZHENKO)

ANÁLISE Proibir todos os russos, acreditem eles no que acreditarem, de entrar no Ocidente - é isto que o presidente ucraniano defendeu, é isto que tem sido criticado e arrasado. Objetivo número 1 de Zelensky ao causar uma polémica assim: não deixar que o Ocidente se esqueça da guerra. Objetivo número 2: não deixar que o Ocidente se esqueça da guerra. Objetivo número 3: não esquecer o objetivo 1 e 2. Estamos em fadiga de guerra e ele sabe disso: "A polémica é boa para manter a marca viva"

Volodymyr Zelensky pediu ao Ocidente para proibir a entrada de "qualquer tipo de russo", sejam esses russos a favor ou contra a guerra. São declarações controversas - e até receberam resposta imediata do vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, que não perdeu a oportunidade de sugerir (novamente) uma comparação entre o governo ucraniano e o regime nazi. 

Mas as palavras do presidente ucraniano também geraram desconforto a Ocidente. E porquê? "Zelensky pisou um traço vermelho, que é o das liberdades das pessoas", aponta o especialista em comunicação Rui Calafate. "Este pedido raia um pouco o absurdo", afirma em entrevista à CNN Portugal. "Uma coisa é Putin, que é condenável, outra coisa é o povo e a cultura russa. Os cidadãos russos têm a liberdade de visitar os países que bem entenderem."

Uma posição partilhada pela especialista em relações internacionais Diana Soller, que considera que as declarações de Zelensky foram "exageradas": "Sabemos que a população russa tem estado sob uma forte campanha de propaganda e não é propriamente responsável pelo que se está a passar. Fundamentalmente a guerra é da cúpula, do governo russo e da elite russa, que por um lado querem desestabilizar o Ocidente e por outro acreditam que a Ucrânia faz parte do seu território. Diplomaticamente, a Ucrânia tudo tem tentado fazer para afetar a Rússia com sanções económicas, mas este castigo diretamente à população parece excessivo".

Então o que pode estar por trás desta intensificação do discurso de Volodymyr Zelensky? Tanto Rui Calafate como Diana Soller consideram que é a forma que Zelensky encontrou de fazer com que o Ocidente não de esqueça da guerra. Segundo Diana Soller, a guerra está a chegar a uma fase diferente - em que a Ucrânia começa a ter poder de contraofensiva mas em que começa a sofrer um défice de atenção por parte do Ocidente em comparação com os meses iniciais. As atitudes de Zelensky, diz, acompanham esse momento de "viragem". "Estamos numa fase da guerra muito perigosa para a Ucrânia e Zelensky sabe disso", sublinha Diana Soller. "A opinião pública europeia e americana têm sido muito resilientes neste conflito", aponta a também investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI). Mas é já sabido que existe uma fadiga de guerra. E, nesse sentido, a especialista acredita que o presidente ucraniano "tenta manter a sua guerra viva na opinião pública".

A boa polémica e a má polémica - e como está mais difícil "tocar o coração"

Rui Calafate considera que "Zelensky tem um problema em mãos": "A estratégia inicial de falar aos parlamentos e aos senados dos vários países chega a um dia em que se esgota. A mensagem que é o baluarte de Zelensky - de chegar e tocar as emoções do Ocidente, com discursos segmentados para cada um dos países, tocando o coração da opinião pública internacional - chega a uma altura em que não há mais nada a dizer".

Admitindo a dificuldade em manter a atenção do Ocidente numa guerra como esta, Diana Soller acredita que Zelensky "continuará a fazer uso de todos os recursos que tem - inclusive destas declarações que podem ser polémicas e que por isso mesmo chegam aos jornais -  precisamente para não deixar que o nível de atenção para o conflito baixe". "Estou convencida de que este tipo de posições vai repetir-se porque é disto que Zelensky precisa para que a guerra não caia no esquecimento."

Então como é que se evita cair no esquecimento? Para Rui Calafate, a "polémica é boa para manter a marca viva". E, neste caso, a marca é o próprio presidente da Ucrânia. Mas se há meios em que a polémica é boa e útil, há também situações em que pode ser prejudicial. 

E, no caso de Volodymyr Zelensky, não têm faltado exemplos nos últimos tempos. Tanto Diana Soller como Rui Calafate recordam a produção fotográfica para a Vogue, uma ação que o especialista em comunicação considera que foi polémica porque era "manifestamente uma operação de propaganda", que acabou por não ter sido vista da melhor forma: "Ficou mal porque um homem que está em guerra não tem tempo para fotografias. Já aí se viu que Zelensky não quer desaparecer dos media ocidentais porque é aí que mantém a sua força de resistência face à Rússia".

É aqui que entra a palavra-chave: coerência. E Rui Calafate exemplifica: "O importante na comunicação é manter sempre a coerência da linha que estamos a tomar. A partir do momento em que Zelensky se torna um combatente pela liberdade após a invasão da Rússia, fica mal, nessa linha de coerência, quase restringir a liberdade de outro povo. Este pedido para proibir os russos de entrarem no Ocidente é um pedido grave que não é coerente".

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