Batalha por Bakhmut esmaga mercenários da Wagner e reduz a importância de Prigozhin

CNN , Análise de Tim Lister
17 mar 2023, 08:00
Yevgeny Prigozhin, fundador da força mercenária russa Wagner, fala em Paraskoviivka, Ucrânia, nesta imagem estática a partir de um vídeo não datado lançado a 3 de março (Concord Press Service/Reuters)

Yevgeny Prigozhin, o líder do grupo paramilitar russo Wagner, aprecia o seu papel de individualista antirregras, mas estão a crescer sinais de que está encurralado por Moscovo e com dificuldades em respirar.

Prigozhin apostou nos seus mercenários hasteando a bandeira russa na cidade ucraniana de Bakhmut, embora a um custo considerável para as suas tropas e, provavelmente, para a sua própria fortuna.

Gastou pesadamente no recrutamento de cerca de 40.000 prisioneiros para a luta, mas, depois de meses de batalha e perdas espantosas, está a lutar para reconstituir as fileiras da Wagner, ao mesmo tempo que acusa o Ministério da Defesa da Rússia de tentar estrangular a sua força.

Muitos analistas pensam que as suas suspeitas são fundadas - que a autoridade militar russa está a usar o "matadouro" de Bakhmut para reduzir a sua importância ou eliminá-lo por completo como uma força política.

No fim de semana, Prigozhin reconheceu que a batalha de Bakhmut é "difícil, muito difícil, com o inimigo a lutar por cada metro".

"Precisamos dos militares para proteger as aproximações (a Bakhmut). Se eles o conseguirem fazer, tudo ficará bem. Se não, então os combatentes da Wagner serão cercados juntamente com os ucranianos dentro de Bakhmut", disse Prigozhin numa outra mensagem em vídeo.

Imagem retirada de um vídeo divulgado pelo serviço de imprensa de Prigozhin a 2 de março e que, alegadamente, mostra combatentes da Wagner no topo de um edifício em Bakhmut. Concord/Reuters

Justamente quando Prigozhin mais precisava do apoio das forças russas e de um fluxo fiável de munições, nenhum deles parece estar disponível.

A Wagner conseguiu ganhos importantes em torno de Bakhmut e agora detém a parte leste da cidade. Mas parece incapaz de gerar força suficiente para expulsar as forças ucranianas do resto de Bakhmut. E os seus combatentes estão dispersos à medida que tentam forçar as zonas a noroeste e sudoeste da cidade.

O Institute for the Study of War (ISW), um think tank com sede em Washington, diz que o ministro da Defesa Sergei Shoigu "está, provavelmente, a aproveitar a oportunidade para esgotar deliberadamente tanto as forças de elite como os condenados da Wagner em Bakhmut, num esforço para enfraquecer Prigozhin e inviabilizar as suas ambições por maior influência no Kremlin".

O ministro da Defesa russo Sergei Shoigu, à direita, num suposto posto de comando das forças armadas russas na Ucrânia, em local não revelado, a 4 de março. Ministério da Defesa russo/Reuters

Durante semanas, Prigozhin e os seus comandantes queixaram-se de fornecimentos de munições inadequados, quando tentam cercar e tomar Bakhmut.

"O ministro da Defesa russo tem vindo a restringir cada vez mais a capacidade de Prigozhin para recrutar condenados e assegurar munições, forçando Prigozhin a reconhecer publicamente a sua dependência" do ministério, analisa o ISW.

Culpar Prigozhin também ajuda o Ministério da Defesa a desviar-se das suas próprias falhas, especialmente em torno de Vuhledar, ao sul, onde as forças regulares têm sofrido pesadas perdas.

O disruptor autorizado

No ano passado, a bazófia e a ligação de Prigozhin ao presidente Vladimir Putin, que faziam dele um disruptor autorizado, permitiram-lhe ter acesso às prisões da Rússia e promover a Wagner como parte vital da máquina de guerra da Rússia.

Ao mesmo tempo, duplicou as críticas cáusticas a Shoigu e aos generais por incompetência e corrupção. Atacou a forma como foi gerida a mobilização de outono. Dias depois das forças ucranianas terem humilhado os militares russos em Kharkiv, em setembro último, Prigozhin apareceu numa prisão russa a fazer um vídeo de recrutamento.

Às vezes, as críticas de Prigozhin eram ainda mais contundentes: ridicularizou o genro de Shoigu por ter ido ao Dubai durante o Ano Novo. Havia também sinais de que estava ao lado dos ultranacionalistas russos, que foram igualmente críticos com a condução da campanha.

Mas Shoigu - ministro da defesa há mais de uma década - é astuto. Ele engendrou mudanças no alto comando que privaram Prigozhin de aliados e promoveu generais que Prigozhin tinha criticado.

Muitos analistas viram Shoigu como estando por detrás da divulgação súbita, em fevereiro, de que o grupo Wagner não ia mais recrutar combatentes nas prisões.

Agora o líder da Wagner parece isolado. Foi obrigado a empurrar os seus melhores combatentes para a batalha de Bakhmut, levando o ISW a supor que o Ministério da Defesa estava a usar a Wagner "para suportar o peso da guerra urbana de alta intensidade para tomar Bakhmut a fim de conservar as forças convencionais russas".

Há uma amargura crescente na volumosa produção dos serviços de imprensa de Prigozhin. Na segunda-feira, foi-lhe perguntado sobre um comandante russo com quem estava em Bakhmut. Ele descreveu-o como "um russo normal e forte".

"Estas pessoas deveriam gerir o exército russo - simples, compreensíveis, corretas, honestas", acrescentou. Em vez disso, "canalhas e intriguistas esmagaram estes tipos modestos e começaram a pressioná-los e a humilhá-los".

Foi mais uma farpa destinada ao regime.

Mas a elite de Moscovo parece sentir que Prigozhin está ferido.

Na segunda-feira, Alexei Mukhin, membro do think tank Valdai Club, ligado ao Kremlin, acusou Prigozhin numa publicação no Telegram de ter ambições políticas - mesmo uma inclinação para a presidência. Isso seria uma heresia na Rússia de Putin.

Mukhin também alegou que Prigozhin era um comandante incompetente que tentava camuflar as suas falhas, culpando os militares: "Ele expôs os combatentes da Wagner a um grande risco de cerco face a um esperado contra-ataque."

Prigozhin respondeu às críticas: "Uma vez que não tenho ambições políticas, por favor deem-nos munições."

Prigozhin pode também ter ficado surpreendido com a determinação ucraniana de lutar por Bakhmut. Um combatente da Wagner afirmou esta semana que "eles estão a lutar por cada casa, não querem partir, enviando constantemente mais reservas e lutando ferozmente".

Militares ucranianos num howitzer 2C1 perto de Bakhmut, a 8 de março. Lisi Niesner/Reuters

Os militares ucranianos parecem ter decidido permanecer na batalha por Bakhmut e isso apenas prolonga as probabilidades de Prigozhin. "Enquanto houver uma frente estável, enquanto houver um abastecimento estável, enquanto houver uma evacuação estável dos feridos, é óbvio que a cidade deve ser mantida", disse um soldado ucraniano numa entrevista televisiva na terça-feira.

Se a Wagner for dizimada numa tentativa infrutífera de tomar Bakhmut, Prigozhin poderá ser esquecido.

"Putin tem todo o gosto em dar aos empresários políticos que giram à sua volta um grau de autonomia se eles prometerem resultados, mas também os descartará facilmente se eles não conseguirem cumprir", escreveu no The Spectator o observador do Kremlin Mark Galeotti.

E o Prigozhin apostou tudo em Bakhmut.

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