A retirada da Rússia de Kherson é humilhante - e nada surpreendente

CNN , Tim Lister
10 nov, 11:23
Soldado russo vigia junto a memorial dos combatentes soviéticos que representaram Kherson na Segunda Guerra Mundial (AP)

O Ministério da Defesa russo diz que as suas tropas estão a preparar-se para retirar de uma grande parte da região ucraniana ocupada de Kherson, num movimento que é humilhante, mas que - após os acontecimentos das últimas semanas – também não surpreende.

O plano entregaria milhares de quilómetros quadrados de território (incluindo algumas das melhores terras agrícolas da Ucrânia) que a Rússia tem estado a ocupar desde os primeiros dias da invasão, e que declarou formalmente como território russo há apenas cinco semanas.

Numa reunião coreografada em Moscovo, na quarta-feira, o Ministro da Defesa russo Sergei Shoigu e o general Sergey Surovikin - o comandante recém-nomeado para aquela que Moscovo apelida de “operação militar especial” na Ucrânia - apresentaram a melhor face possível na retirada.

Desde agosto, as tropas russas mataram 9.500 soldados ucranianos em Kherson e repeliram com sucesso “até 80 a 90% dos mísseis inimigos”, afirmou Surovikin.

No entanto, sublinhou, uma retirada protegeria a vida de civis e soldados.

“Entendo que é uma decisão muito difícil, mas ao mesmo tempo vamos preservar aquilo que é mais importante - a vida dos nossos soldados e a capacidade geral de combate das tropas, capacidade essa que é inútil manter na margem oeste de uma área limitada”, disse Surovikin.

Os comentadores e responsáveis russos evitaram cuidadosamente a palavra “retirada”, transformando a ação numa decisão inteligente por parte dos militares para se reagruparem na margem leste do rio Dnipro, em posições defensíveis ​​que as forças ucranianas teriam dificuldades em destruir.

Ainda não se sabe, neste momento, como irão responder os ucranianos. As tropas nas linhas da frente a sul estão exaustas e o território à frente delas deverá estar fortemente minado. Perseguir as tropas russas derramaria mais sangue, tal como aconteceria com qualquer combate em áreas densas como a cidade de Kherson.

A Ucrânia “vai avançar com muito cuidado, sem emoções, sem correr riscos desnecessários”, disse o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky na noite de quarta-feira, na sua mensagem diária em vídeo.

“Estamos a avançar gradualmente para sul, a fortalecer as nossas posições. Passo a passo”, disse.

O anúncio em Moscovo não provocou as frustrações que acompanharam anteriores reveses.

O líder tchecheno Ramzan Kadyrov, que muitas vezes criticou o Ministério da Defesa e o alto-comando, disse que Surovikin salvou mil soldados e “fez uma escolha difícil, mas acertada, entre sacrifícios sem sentido por declarações ruidosas e salvar as vidas inestimáveis ​​dos soldados”.

Kadyrov acrescentou que Kherson era um lugar difícil onde lutar, especialmente sem rotas de reabastecimento garantidas.

No verão, quando a Ucrânia recebeu rockets de longo alcance, como os HIMARS norte-americanos, começou a destruir o maior número possível de pontes fluviais, centros ferroviários e armazéns de mantimentos atrás das linhas russas. Os russos recorreram a pontes flutuantes – chegando até a submergir carruagens ferroviárias - mas receber munições e outros mantimentos através do Dnipro tornou-se cada vez mais difícil.

Mas nem todos aceitaram a retirada de Kherson com serenidade. O agressivo comentador russo Sergey Markov descreveu no seu canal do Telegram a renúncia planeada de Kherson como “a maior derrota geopolítica da Rússia desde o colapso da URSS". "As consequências políticas desta enorme derrota serão bastante grandes.”

“A principal razão para esta derrota é a rejeição de uma verdadeira guerra e o atraso catastrófico na tomada das decisões necessárias”, continuou.

Kadyrov parecia concordar que os atrasos tinham reduzido as opções de Moscovo. A batalha em Kherson exigia “um abastecimento regular e estável de munições e a criação de uma retaguarda forte e de confiança”, disse. “Porque não fizeram isso desde os primeiros dias da operação especial?”

Em outubro, quando Surovikin conseguiu o cargo de comandante-geral da operação, alertou que teriam de enfrentar escolhas difíceis. O fracasso de Kharkiv – onde as forças ucranianas varreram grande parte da região numa semana - antecedeu a sua nomeação, e ele pode ter desconfiado que Kherson viria a tornar-se mais uma humilhação.

A 18 de outubro, em entrevista à agência de notícias estatal russa TASS, Surovikin disse que os planos para Kherson dependeriam da “situação tática militar em desenvolvimento”, que ele descreveu como “já bastante complicada”.

“Agiremos conscientemente, no momento oportuno, não excluindo a tomada de decisões difíceis”, disse.

Parece que a prudência se tornou a melhor parte da coragem. Nas últimas duas semanas, as forças russas entrincheiraram-se na margem leste. As pequenas guaritas tornaram-se uma visão comum; as trincheiras apareceram nas imagens de satélite e os civis foram retirados sem cerimónias das suas casas junto ao rio.

O que acontece se a Rússia se retirar

Se e quando as tropas russas se retirarem para a margem leste, as suas linhas de abastecimento tornar-se-ão mais acessíveis e recuperarão a defesa. Qualquer tentativa das forças ucranianas de cruzar o Dnipro seria penosa ao ponto de ser proibitiva.

A Rússia manteria o controlo de 60% da região de Kherson, incluindo a costa ao longo do Mar de Azov. Enquanto as tropas de Moscovo controlarem e fortalecerem a margem leste do Dnipro, as forças ucranianas lutarão para danificar ou perturbar o canal que leva água potável para a Crimeia.

A prioridade de Surovikin parece ser estabilizar as linhas defensivas da Rússia após alguns meses difíceis. Ele sublinhou na quarta-feira que as forças que deixarão Kherson “serão usadas para operações ativas, incluindo ofensivas, noutras áreas da zona da operação”.

Há sempre a hipótese de a reunião de Moscovo na quarta-feira ter sido planeada para atrair as forças ucranianas para uma armadilha, e que os russos não pretendam abandonar completamente a margem oeste. A verdade é que as autoridades ucranianas se mostraram céticas. Mas a situação tática para as forças russas, empurradas para uma bolsa cada vez menor acima do rio, passou de complicada a quase impossível, no espaço de semanas.

O maior fracasso político em Kherson não pode ser camuflado. Funcionários nomeados pela Rússia têm administrado a cidade de Kherson e os seus arredores desde março. Distribuíram passaportes russos a quem os quisesse, falaram sobre a substituição da moeda ucraniana pelo rublo e organizaram o roubo indiscriminado de cereais.

Altos funcionários chegaram de Moscovo para discutir a integração de Kherson no “mundo russo”. E depois houve o referendo ilegal e implausível em setembro, seguido pela pompa da cerimónia em Moscovo da anexação de Kherson e outras três regiões.

A 30 de setembro, Putin disse que tinha uma mensagem para Kiev. “As pessoas que vivem nas regiões de Lugansk e Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia estão a tornar-se cidadãos russos. Para sempre”. “Vamos defender a nossa terra com todos os poderes e meios à nossa disposição.”

Mais uma vez, uma semana é muito tempo na política. As celebrações orquestradas por Putin há pouco mais de um mês foram baralhadas numa região, no momento em que as forças ucranianas começam também a fazer incursões em Lugansk.

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