A guerra na Ucrânia vista do Donbass: “Trovoada em Donetsk. Não entre em pânico”

19 jul, 18:31

A artilharia pesada é o meio mais usado nesta guerra e as autoridades separatistas olham para Avdeevka, um dos bastiões militares da Ucrânia no Donbass, com preocupação

Não morrer é uma questão de sorte

Quando a guerra civil começou, em 2014, as explosões viraram a vida de milhões de pessoas do avesso na região do Donbass. Como se tratasse do argumento do filme "A Vida é Bela", foram muitos os pais que disseram aos filhos que as bombas eram apenas relâmpagos. Em fevereiro, a Rússia penetrou em território ucraniano e as hostilidades subiram de tom. O que nos últimos anos eram bombardeamentos esporádicos passaram a ser constantes. Há bairros em que não há uma hora de sossego. Mas na noite deste domingo, durante cerca de uma hora, seguiram-se vários clarões que iluminaram a cidade antes de vários estrondos. O gesto de levar a mão ao telemóvel tornou-se um hábito. Pelo sim e pelo não, as diferentes autoridades da autoproclamada República Popular de Donetsk, que informam ao minuto sobre os bombardeamentos através de canais no Telegram, lançaram uma nota:

“Trovoada em Donetsk. Clarões de relâmpagos. Não entre em pânico”.

 

Mas quando se ouve uma explosão, dependendo da zona da cidade, todos sabem para que lado olhar. É do norte e do oeste de Donetsk que os projéteis voam. Praticamente todos os perigos se concentram nas localidades de Avdeevka, Maryanka e Pieski. É aqui, nas proximidades da maior das cidades do Donbass, que a Ucrânia concentra a maioria da sua artilharia. Estas três posições militares encontram-se a menos de cinco quilómetros de bairros de Donetsk como Petrovskyi, Kirovskyi, Kuibyshevskyi e Kyivskyi, que curiosamente deve o seu nome à capital ucraniana.

É uma roleta russa

Anna Rogovskaya quis sair do centro de Donetsk mais cedo. Por preguiça, decidiu não apanhar o autocarro na estação central da cidade mas mais à frente. São três da tarde e ouve-se uma enorme explosão. O céu azul denuncia que não é trovoada. Um dos canais do Telegram informa que um projétil atingiu a estação central de autocarros de Donetsk. Não fosse a preguiça e este era o transporte que Anna teria apanhado.

A situação no local é caótica. O edifício em frente exibe as marcas da explosão. Não há uma janela intacta. Em frente, há um autocarro completamente destruído. Ainda agarrado ao volante, o motorista está morto. Atrás, entre seis passageiros feridos, uma mulher de meia idade também não respira.

As ambulâncias vêm e vão até que não sobra no local mais do que os dois cadáveres, autoridades e uma dezena de jornalistas. O silêncio apenas interrompido pelos disparos das máquinas fotográficas é interrompido pelos gritos da mulher do motorista que acaba de chegar. Tenta agredir fotógrafos no desespero de evitar a canibalização do sofrimento alheio.  Não é um episódio inédito. Semanas antes, assistimos à mesma situação com o marido de uma jovem morta em frente a um supermercado depois de um bombardeamento ucraniano.

Do outro lado da cidade, Anna Rogovskaya pensou no seu amigo Vadik, também motorista, que fazia esta rota e que podia ter sido a vítima desta tarde quente de verão. Quando soube da morte do condutor, lembrou-se que, felizmente, Vadik faz agora outro trajeto entre Petrovka e Yama. O que não sabia Anna é que no dia seguinte a artilharia ucraniana atingiria um novo autocarro. E, desta vez, seria Vadik a vítima mortal.

Avdeevka, uma dor de cabeça para os separatistas

Com pouco mais de 30 mil habitantes em 2021, a cidade de Avdeevka concentra agora boa parte das preocupações das autoridades rebeldes. A maior parte dos disparos de artilharia pesada contra Donetsk e Gorlovka partem desta localidade. Se muitos pensavam que a entrada da Rússia, neste conflito que se desenrola desde 2014, ia acelerar a tomada dos territórios controlados pela Ucrânia no Donbass, a verdade é que os esforços por avançar, sobretudo a norte, na região de Lugansk, demonstram que os estrategas militares russos sabem bem a dor de cabeça que representa Avdeevka. Apesar do levantamento que levou ao controlo militar desta cidade em 2014 pelas tropas rebeldes, em julho desse mesmo ano as forças ucranianas recuperaram este território.

Em 2016, construíram importantes fortificações em torno da zona industrial. No princípio do ano seguinte, uma encarniçada batalha que durou seis dias enfrentou as duas partes pelo controlo desta área sem grandes mudanças. A cerca de cinco quilómetros de Donetsk, a artilharia ucraniana consegue alcançar distâncias de 15 quilómetros com projéteis mais modestos. Já o famoso Sistema de Lançamento de Múltiplos Rockets (MLRS, Multiple Launch Rocket System) atinge distâncias até 70 quilómetros no caso dos veículos oferecidos pelos países ocidentais e de até 35 quilómetros no caso de veículos próprios da artilharia ucraniana.

As tropas russas conseguiram tomar Verkhn’otots’ke, Troits’ke, Novoselivka Druha e Novoselivka mas estancaram a poucos quilómetros de Avdeevka. Especialistas militares consideram, contudo, que o simples controlo desta cidade não garante o bloqueio da artilharia ucraniana porque as distâncias que os projéteis MLRS conseguem percorrer são superiores.

Como no caso de Mariupol e Severodonetsk, as forças ucranianas reforçaram as suas posições ao longo dos anos criando sistemas de túneis interligados entre si numa cidade mais elevada do que os objetivos sobre os quais tem disparado e, novamente, com um complexo industrial que facilita a defesa.

O que parece ser certo é a aposta das tropas russas e das milícias das autoproclamadas repúblicas em avançar a norte sobre as cidades de Siversk, Soledar e Bakhmut, antes do objetivo altamente estratégico de conquistar Slaviansk e Kramatorsk, eventualmente antecipando um cerco final sobre Avdeevka.

Europa

Mais Europa

Patrocinados