A contraofensiva da Ucrânia está envolta em confusão. E esse pode ser o plano

CNN , Análise de Nick Paton Walsh
19 mai, 08:00
Tropas ucranianas disparam um obus perto da cidade de Soledar, na região de Donetsk. Sofiia Gatilova/Reuters

Objetivo é, claramente, manter Moscovo instável, incapaz de avaliar se cada novo ataque das forças ucranianas é "aquilo" ou apenas mais uma sondagem

As colunas de dezenas de M-ATV fornecidos pelos Estados Unidos continuavam a chegar, precedidas por um carro da polícia, com as luzes a piscar, e seguidas por dezenas de carrinhas civis enlameadas. O destino final dos veículos blindados não era claro. Mas continuavam a ser beges - a cor que teriam tido no Iraque e no Afeganistão - sugerindo que estavam a uma lata de spray ou a uma lavagem de estarem prontos para serem usados na linha da frente.

Ao longo de cinco semanas de reportagem nas linhas da frente do sul, tornou-se difícil conceber que - pelo menos nas suas fases limitadas e preparatórias - a contraofensiva da Ucrânia não tivesse começado no final de abril.

Os implacáveis bombardeamentos pontuais de alvos militares russos; os indícios de pequenos desembarques ucranianos ao longo da margem oriental ocupada do rio Dnipro; e as explosões que atingiram depósitos de combustível e infraestruturas dentro das próprias fronteiras da Rússia e em cidades ocupadas - tudo isto pode ser visto como indicadores.

E, também, um ataque de helicóptero que testemunhámos contra um alvo russo; os ataques ucranianos na frente ocupada de Zaporizhzhia; e a evacuação da população civil em áreas ocupadas.

Estes sinais ganharam força no último mês e são os primeiros das "operações de moldagem" que um alto funcionário dos EUA disse à CNN terem começado na semana passada. No entanto, oficialmente, a contraofensiva da Ucrânia ainda não começou.

Há indícios de que a esperada ofensiva ucraniana pode estar já a decorrer. Libkos/AP

Tendo em conta o volume de equipamento, aconselhamento e formação dos EUA e da NATO investidos nesta operação - com um alto responsável americano a dizer recentemente ao Congresso que os EUA tinham treinado Kiev a "surpreender" - parece justo assumir que este atraso na declaração do início do assalto é uma tática e não o produto do caos ucraniano, da desorganização e de um abril relativamente chuvoso que deixou o terreno demasiado macio.

O anúncio do início está inteiramente nas mãos do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Se declarar que a operação está a decorrer, o relógio começa imediatamente a contar os primeiros resultados. Se declarar que a operação ainda não começou, quaisquer perdas crescentes que a Rússia sofra serão apenas o resultado do desgaste normal da linha da frente. Ao longo do último mês, os comentários evasivos de Zelensky, segundo os quais os "primeiros passos importantes" da operação "aconteceriam em breve" ou precisariam de "um pouco mais de tempo", apenas confirmaram a promessa inicial de Kiev de que não anunciariam o seu início.

É possível que só venhamos a saber que a contraofensiva começou quando forem revelados os seus primeiros resultados tangíveis. Muito do que está a acontecer não está a ser divulgado publicamente.

O objetivo desta confusão é, claramente, manter Moscovo instável, incapaz de avaliar se cada novo ataque das forças ucranianas é "aquilo" ou apenas mais uma sondagem.

Os recentes ataques em torno de Bakhmut são uma prova disso mesmo. O líder do grupo de mercenários Wagner, Yevgeny Prigozhin, passou dez dias numa elaborada conversa essencialmente consigo mesmo no Telegram, alertando para o colapso das suas tropas sem mais projéteis de artilharia das altas patentes russas. Não recebeu praticamente nenhuma resposta pública oficial aos seus apelos, e não se sabe se recebeu o que queria.

Tropas ucranianas disparam um obus perto da cidade de Soledar, na região de Donetsk. Sofiia Gatilova/Reuters

A notável sobrevivência de Prigozhin, após esta sucessão de críticas públicas aos homens do Kremlin, é uma expressão tanto de necessidade como de medo: Putin talvez tema a reação adversa que o afastamento de Prigozhin causaria e também precisa que as forças da Wagner mantenham as suas posições. Também é possível que ainda precise de Prigozhin como contraponto a um poderoso exército. Tal como acontece com muita da Kremlinologia, a verdade é, por enquanto, desconhecida, mas também não é assim tão importante.

O que é fundamental é a demonstração resultante de uma desunião espantosa nas fileiras de Putin - algo impensável em fevereiro de 2022. Até agora, a explosão de Prigozhin resultou apenas em ligeiras mudanças territoriais no controlo da simbólica cidade de Bakhmut.

Mas, mais significativamente, revelou uma diferença enorme na forma como as máquinas de guerra da Rússia e da Ucrânia estão a funcionar.

Até agora, Kiev tem conseguido manter secretas as suas intenções, preparativos e eventuais falsas partidas. Os ucranianos parecem ter paciência e capacidade de manter o seu plano suficientemente confidencial para o levar a cabo de forma metódica. Moscovo, pelo contrário, tem mostrado toda a sua disfuncionalidade. Isto será vital nas próximas semanas: Moscovo parece processar muito mal e publicamente as más notícias.

Até agora, a maior parte das informações que tivemos sobre as operações da Ucrânia tem vindo das autoridades pró-russas nas zonas ocupadas e de bloggers militares. Por vezes, pode tratar-se de desinformação propositada.

Quando fontes russas alertaram para o facto de as suas tropas estarem cercadas em Lyman, no verão passado, tratou-se provavelmente de um estratagema destinado a desviar a atenção de Moscovo, que estava a executar uma retirada calma. Mas, outras vezes, o seu debate online sobre política e fraquezas projeta o caos em fileiras que claramente não precisam dele. A retirada russa de Kherson foi outro exemplo notável de mensagens contraditórias de altos funcionários.

Imagem de satélite mostra edifícios universitários demolidos e uma torre de rádio em Bakhmut esta semana. Maxar Technologies/Reuters

No entanto, tal como acontece com a confusão em torno da Wagner e de Bakhmut, a desordem das suas mensagens nem sempre pode ser explicada racionalmente como uma névoa propositada de desinformação. Ninguém quer parecer tão confuso quando o moral da linha da frente está seguramente tão baixo.

Nas próximas semanas, é provável que assistamos a mais confusão sobre o que a Ucrânia está a fazer. Os ataques contra alvos russos específicos e importantes, mais no interior do território ocupado, podem aumentar de ritmo e ferocidade, como aconteceu com os aparentes ataques com mísseis a grandes edifícios em Lugansk.

Poderemos também assistir a mais falsas partidas ucranianas ao longo de uma linha de frente de 1.000 quilómetros. A oeste, a Ucrânia tem de fazer com que a ocupada Kherson continue a parecer vulnerável a um ataque anfíbio de maiores dimensões através do rio Dnipro; e a leste, Bakhmut tem de continuar a parecer precariamente em risco de ser cercada por novos avanços ucranianos. E, entre estes dois flancos, a enorme frente sul da Zaporizhzhia ocupada pela Rússia também deve permanecer vulnerável a um avanço rápido através das fortificações russas por um exército mais bem equipado e mais preciso treinado pela NATO.

Moscovo não se pode dar ao luxo de perder em nenhuma destas três frentes. Contudo, poderá ser forçado a escolher - a estabelecer prioridades - e com essa escolha virá o primeiro risco de uma derrota estratégica mais alargada para Putin.

Se perder qualquer um destes "prémios" de ocupação, tudo parecerá ainda mais frágil do que quando o Kremlin teve de admitir, por qualquer razão, que tinha sido atacado por drones no coração de Moscovo. Uma perda pública e estratégica pode fazer com que as fileiras russas corram o risco de entrar em pânico e colapsar.

Os comentários mais reveladores de Zelensky sobre a operação foram talvez o seu apelo renovado e flagrante a mais armas ocidentais: disse que a vitória estava assegurada mas que, sem melhor equipamento, mais vidas ucranianas se perderiam. Este é um princípio fundamental da campanha de Kiev: a santidade da vida ucraniana. As suas perdas são, sem dúvida, significativas, mas os ucranianos aceitam-nas muito menos do que o seu inimigo.

Um ataque frontal total contra posições russas enfraquecidas - onde as cadeias de abastecimento, o comando e o moral são provavelmente fracos - é possível para Kiev em qualquer altura. Mas mais algumas semanas de confusão russa, de sobrecarga e de autocrítica pública irão provavelmente reduzir o custo humano final para Kiev.

Enquanto as mensagens confusas de Moscovo talvez anunciem sinais raros de fissuras internas, as de Kiev são um sinal de propósito e determinação.

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