A aventura destes cinco na guerra: como Andriy, Oleksandr, Kyrylo, Oleksii e Valerii mudaram completamente o decurso das coisas

23 nov, 07:00
Volodymyr Zelensky

Esta é a história dos oficiais que ajudaram Volodymyr Zelensky a surpreender os russos. As biografias de guerra são sempre fascinantes

Valerii Zaluzhnyi – o general

Os ucranianos chamam-lhe “general de ferro” mas quem o conhece diz que corresponde pouco à imagem autoritária de um general. Prefere t-shirts ao rígido uniforme e é conhecido pelo seu sentido de humor. Valerii Zaluzhnyi podia ser facilmente subestimado pelos seus adversários mas após nove meses de guerra tornou-se o mais temido adversário que a Rússia enfrentou desde a queda da União Soviética.

Pouco fazia prever que fosse Valerii Zaluzhnyi o chefe de Estado-Maior das Forças Armadas ucranianas. Quando foi chamado para ocupar o cargo, em 2019, tinha apenas 48 anos e não estava hierarquicamente colocado para ser nomeado para o cargo. Estava a beber uma cerveja no aniversário da sua mulher quando lhe ligaram a dizer a notícia. Tinha sido nomeado. “Como assim?”, respondeu Zaluzhniy. De um momento para o outro, o general passava a ser a segunda pessoa mais poderosa do país, apenas atrás do Presidente que o escolheu pessoalmente, Volodymyr Zelensky.

Nascido numa base militar soviética no seio de uma família com tradição militar, Zaluzhniy não ambicionava seguir “o negócio da família”. O seu sonho era o de um dia tornar-se comediante. A vida tinha outros planos mas o seu sentido de humor mantém-se presente no estilo de liderança pouco comum. Não só não é visto a gritar com os seus soldados como é conhecido por contar piadas e fazer rir os seus subordinados.

No currículo conta com dezenas de anos de modernização das forças armadas da Ucrânia. Tentou por tudo afastar o exército do seu país do modelo soviético, aproximando-o do padrão utilizado pela NATO, de forma a tornar os seus homens uma força de combate mais eficaz e moderna capaz de defender as fronteiras do país. Mal chegou ao cargo implementou algumas mudanças que fizeram a diferença quando as hostilidades começaram. Com a sua ordem, os oficiais no terreno passaram a poder retribuir fogo com todos os meios que tinham ao seu dispor sem terem de esperar autorização de superiores.

General Valerii Zaluzhnyi num discurso no dia 19 de fevereiro de 2022 (Yuliia Ovsiannikova / Getty Images)

Mas a vontade de se afastar do modelo soviético não o fez com que este o deixasse de estudar. No seu escritório estão todos os trabalhos do general Valery Gerasimov, líder das Forças Armadas russas, com o qual admite ter apreendido muito. “Li tudo o que ele escreveu. Ele é dos homens mais inteligentes e as minhas expectativas dele eram enormes”, conta o general ucraniano à revista TIME.

Por esse motivo, afirma que no final de 2021, quando os primeiros carros de combate russos se começaram a acumular junto à fronteira, sabia que a guerra estava para vir e começou a preparar a sua estratégia. “Dava para cheirar”, dizia. Tinha o plano delineado mas não o revelou, nem mesmo às pessoas mais próximas. “Não podíamos permitir que Kiev caísse. E, em todos os outros vetores tínhamos de os obrigar a derramar sangue, mesmo que em alguns lugares isso exigisse perder território”, revelou na mesma entrevista.

E foi precisamente isso que aconteceu. Os ucranianos deixaram os soldados russos avançar e, assim que puderam, atacaram-lhes com rapidez as linhas de abastecimento na retaguarda. O sucesso desta estratégia espantou toda a gente, inclusive o homólogo americano, Mark Milley. Para a Ucrânia, a vitória é a única opção, caso contrário deixará de existir enquanto país. Por isso, Zaluzhnyi alerta que a vitória ucraniana não será o fim.  

“A nossa vitória não será definitiva. A nossa vitória vai ser uma oportunidade para respirar e para a Rússia se preparar para a próxima guerra”, alerta.

Oleksii Arestovych – o profeta

“A probabilidade de uma guerra com a Rússia é de 99%. Quando? Os anos mais críticos serão entre 2020 e 2022”, profetizou Arestovych numa entrevista em 2019, desenterrada nos primeiros dias da invasão. À data, as possibilidades de um conflito eram tão distantes que poucos o levaram a sério. Mas, nessa conversa, a previsão de Arestovych, que hoje parece uma simples descrição do conflito, não se ficou por aqui.

O antigo oficial dos serviços secretos ucranianos alargou-se numa explicação pormenorizada de como é que a Rússia iria levar a cabo a guerra, perante uma jornalista aparentemente incrédula com a perspetiva do que seria o começo da maior guerra europeia desde a Segunda Guerra Mundial. “Uma operação aérea russa, um ataque terrestre pela fronteira, com o cerco de Kiev, a tentativa de cercar o exército ucraniano perto de Donetsk. Atacar até à barragem de Kakhovka para assegurar o abastecimento de água para a Crimeia. Um ataque vindo da Bielorrússia e a proclamação de novas repúblicas populares, diversões e ataques a infraestruturas críticas”, apontava. Todas estas previsões acabaram por se tornar uma dura realidade para a Ucrânia.

Segundo Arestovych, a “operação militar maciça” do regime russo ia “devastar o território ucraniano”, ainda assim esse é um preço que a Ucrânia tem de estar disposta a pagar para entrar na NATO, caso contrário a Rússia acabaria por “anexar o país nos próximos 10 a 12 anos”.

Oleksii Arestovych visita um local atingido pelos bombardeamentos russos em Kiev (Oleksii Chumachenko/ Getty Images)

Oleksii Mykolaiovych Arestovych tem 47 anos e um vasto historial ligado às forças armadas ucranianas. Foi ator, tem formação de psicólogo, foi agente dos serviços secretos e serviu numa unidade militar na cidade de Kramatorsk, em 2018, durante o conflito no Donbass. Atualmente é conselheiro do presidente Volodymyr Zelensky. Durante os primeiros dias da guerra cumpriu o que chamou “sessões terapêuticas nacionais”, onde relatava de forma calma, racional e composta os mais recentes desenvolvimentos da guerra.

Dizer que Arestovych é um sucesso nas redes sociais não faz justiça aos milhões de seguidores que o psicanalista tem. Só no Youtube são mais de 1,6 milhões de subscritores, embora ultrapasse o milhão noutras plataformas. A postura calma com que fala e a facilidade com que transmite conceitos complexos em frases curtas e simples de entender fizeram com que a presidência ucraniana cultivasse Oleksii para o papel de "propagandista do reino". 

Mas nem todas as "profecias" se cumpriram. A certa altura, corriam apenas três meses de guerra, Arestovych atirou a previsão de que a guerra estaria para acabar dentro "de duas ou três semanas". Muitos ucranianos referenciam esta "profecia" de Arestovych quando lhe querem apontar o dedo. 

Kyrylo Budanov – o espião

É o major-general mais jovem do país e é nele que Zelensky deposita a pesada responsabilidade de liderar os serviços secretos militares da Ucrânia durante aquele que é o maior conflito que atingiu a Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Lidera um departamento responsável por conduzir operações secretas, negociações de troca de prisioneiros e, mais importante, recolha e análise de informação.

Os próprios russos acreditam que é ele o homem que está por trás da explosão da ponte de Kerch, na Crimeia, que destruiu por completo um dos tabuleiros do projeto mais icónicos da presidência de Vladimir Putin. Este ato de sabotagem altamente coordenado é considerado uma das maiores vitórias dos serviços secretos ucranianos, danificando aquela que era uma das principais rotas de abastecimento dos soldados russos no sul da Ucrânia. Budanov responde à acusação apenas com uma promessa: “Quando reconquistarmos a Crimeia, a ponte de Kerch deixará de existir”.

Este tipo de operações especiais não é novidade para o energético líder militar. Aliás, foi precisamente neste tipo de operações que ganhou três medalhas por coragem, atribuídas pelas suas ações em operações secretas contra as tropas russas no Donbass e na Crimeia. Sob o comando do coronel Maxim Shapoval, Budanov efetuou várias missões de sabotagem no interior do território inimigo num dos grupos de operações especiais mais restritos: a 10.ª unidade de Operações Especiais. 

Em 2017, o coronel Maxim Shapoval perdeu a vida após um explosivo ter sido detonado no interior do seu carro, num atentado que se julga ser da responsabilidade dos serviços secretos russos. Apenas dois anos depois, em 2019, Budanov foi alvo de uma tentativa idêntica. Um homem que viajou de Moscovo para a Ucrânia com um passaporte que tinha o nome Alexei Lomanka colocou cuidadosamente um explosivo debaixo do carro de Budanov mas este acabou por detonar antes de tempo e o oficial sobreviveu.

Kyrylo Budanov, à esquerda, e Andrii Yermak (Pavlo Bahmut / Getty Images)

A subida ao topo da hierarquia do mundo da espionagem aconteceu em agosto de 2020, quando foi nomeado para o cargo por Volodymyr Zelensky para suceder a Vasily Burba, após um escândalo político que envolveu um falhanço na captura de um grupo de mercenários do grupo Wagner. Desde julho passou a ter o controlo quase absoluto de todos os ramos de serviços de informação, que foram centralizados.

Kyrylo foi também o primeiro oficial ucraniano a avisar publicamente para o início de uma invasão russa, meses antes de esta acontecer. Em novembro de 2021, Budanov disse que a Rússia já tinha aglomerado mais de 92 mil soldados junto à fronteira da Ucrânia. Numa entrevista que deu naquela altura ao Military Times, Budanov apontou que o ataque russo deveria surgir “no final de janeiro ou no princípio de fevereiro” e ia incluir “assaltos anfíbios a Odessa e Mariupol”, bem como uma “incursão menor através da Bielorrússia”.

Porém, o jovem general está longe de estar isento de controvérsia. Desde fevereiro de 2022, é o responsável pela coordenação da Legião Internacional das Forças de Defesa Territorial, uma força militar criada em fevereiro de 2022 composta por cidadãos estrangeiros com experiência militar. Mas, desde então, muitos militares deste grupo queixam-se da conduta dos seus oficiais, que acusam de roubar armamento ou bens, de ameaçar soldados e de abusos sexuais. Além disso, o gabinete chefiado por Budanov foi também acusado de enviar estes soldados em missões suicidas.

Uma das maiores vitórias da Direção-Geral de Inteligência sob a liderança de Kyrylo Budanov foi a surpreendente troca de prisioneiros que envolveu a libertação dos defensores da Azovstal, a fábrica de metal que se transformou em fortaleza para os soldados cercados que defendiam a cidade de Mariupol.

Oleksandr Syrsky – o estratega

É possivelmente o comandante militar que obteve mais sucesso no campo de batalha no século XXI e demonstrou todas as suas competências militares, tanto a defender como a atacar. Descrito por quem o conhece como “estudioso e pensativo”, Oleksandr Syrsky foi o arquitecto da defesa da capital, Kiev, ainda durante os primeiros dias da invasão e da contraofensiva de Kharkiv, que foi apontada como “um ponto de viragem” nos confrontos.

Ainda antes da manhã do dia 24 de fevereiro, poucos acreditavam na possibilidade de que a Ucrânia seria capaz de aguentar uma ofensiva militar de larga escala do poderoso exército russo. Os números eram claros, quer na terra como no ar, e a Ucrânia não tinha como fazer frente à superioridade russa. Mas Syrsky foi capaz de organizar a defesa da capital, travando o inimigo russo nos subúrbios de Kiev.

O coronel-general, de 57 anos, criou um plano que passava pela criação de duas linhas defensivas, uma no perímetro da cidade e outra afastada, de forma a manter os soldados russos o mais longe possível dos habitantes da capital. Seguiu-se uma campanha de erosão às capacidades logísticas do adversário, que obrigaram as forças russas a recuar e abandonar por completo aquela frente.

“Pensar que a liderança da Rússia desencadearia uma agressão tão descarada e em larga escala... A falar honestamente, nem eu poderia imaginar”, admitiu o líder militar, que é frequentemente visto a visitar os soldados na linha da frente, ao jornal norte-americano Washington Post. “Mas somos o exército. Por isso, independentemente daquilo em que eu acredito ou não acredito, daquilo que poderia parecer, eu fiz o que era necessário.”

Oleksandr Syrsky durante a campanha militar em Kharkiv, em junho de 2022 (Anastasia Vlasova for The Washington Post via Getty Images)

Herdeiro da tradição militar soviética, este general entrou para as forças armadas em 1990. Nesta guerra de 2022, e sob o seu comando, as forças armadas ucranianas lançaram um contra-ataque na região da sua segunda maior cidade, Kharkiv, reconquistando perto de nove mil quilómetros quadrados.

A execução da sua estratégia obrigou à retirada forçada das tropas russas, que se viram obrigadas a deixar para trás toneladas de equipamento militar, que acabariam ao serviço do exército ucraniano. Além disso, a conquista desta região permitiu à Ucrânia cortar uma importante via de abastecimento ferroviário do exército russo, que passava pela cidade de Izyum, dificultando mais um pouco as operações no Donbass. Estas ações valeram-lhe o título “Herói da Ucrânia”.

Antes da guerra no Donbass ter começado, em 2014, Oleksandr Syrsky comandava a 72.ª Brigada Mecanizada. Foi durante este período que o general teve contacto com oficiais militares ocidentais da NATO, chegando mesmo a organizar algumas mudanças das forças armadas do país para ir ao encontro dos padrões da Aliança.

Mas Syrsky teve também um papel fundamental durante a guerra no Donbass. Corria o inverno de 2015 e o então major-general, que liderava as operações de antiterrorismo, comandou as forças ucranianas na batalha de Debaltseve. A sua prestação valeu-lhe a honra da Ordem de Bohdan Khmelnytsky III e a promoção a tenente-general. Atualmente é o comandante da infantaria ucraniana.

Andriy Kovalchuk – o paraquedista

Foi o primeiro general a pisar o chão da cidade de Kherson, no sul da Ucrânia, depois de mais de oito meses de ocupação russa. Entre as lágrimas, os abraços e os cânticos de alegria dos cidadãos ucranianos, Kovalchuk entrou vitorioso na cidade - que prometeu reconquistar.

Quando era jovem, Kovalchuk era conhecido por ter problemas de comportamento e só as boas notas acabaram por fazer com que não fosse expulso da sua escola. Acabou por se graduar em Engenharia na Escola Superior de Comando de Tanques em Kharkiv, em 1997, mas foi no comando dos paraquedistas, no Donbass, que ganhou fama.

Enquanto chefe de gabinete da 80.ª Brigada de Paraquedistas, Kovalchuk liderou os seus homens à reconquista do aeroporto de Lugansk, onde levou dois tiros, mas recusou-se a ser hospitalizado, supervisionando a defesa do aeroporto durante os vários contra-ataques das forças pró-russas. O seu desempenho valeu-lhe a reconquista de várias cidades na região de Donetsk e a promoção a brigadeiro-general. O zelo com que comandava os seus soldados fez com que um ano mais tarde fosse mesmo promovido a chefe de gabinete e vice-comandante das Forças de Paraquedistas ucranianas.

Atualmente é responsável pelo comando do grupo de batalha sul e comanda mais de 100 mil soldados. Quando a Rússia começou a invasão à Ucrânia, algumas das regiões que estavam sob o seu comando foram das mais afetadas, particularmente a província de Kherson, que caiu sem dar tanta luta quanto outras regiões.

É creditado como um dos principais cérebros por trás da contraofensiva ucraniana no sul do país, que assistiu à recuperação da importante cidade de Kherson e de dezenas de localidades nos seus arredores. A estratégia de Kovalchuk passou por bombardeamentos certeiros a depósitos de munições russos e às pontes que abasteciam as várias dezenas de milhares de tropas russas na região, acabando por privar o exército russo de apoio logístico.

Seguiu-se “uma escolha difícil” feita pelo comandante russo, que ordenou que os seus soldados recusassem para posições mais fáceis de defender, abrindo mão de uma das maiores conquistas russas em quase nove meses de guerra. 

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