No dia em que se assinalam quatro anos de guerra, Volodymyr Zelensky recorda as primeiras horas da invasão russa, quando todos subestimavam a resistência dos ucranianos. Joe Biden, então presidente dos EUA, ofereceu ajuda a Zelensky. "Eu respondi que precisava de armas, não de uma boleia", recorda o chefe de Estado ucraniano, num vídeo de 18 minutos para assinalar a data
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, pressionou os líderes europeus a adiantarem uma “data concreta” para a adesão da Ucrânia à União Europeia (UE) e voltou a desafiar Donald Trump a visitar Kiev para perceber “quem é o agressor”.
Num vídeo de 18 minutos publicado nas redes sociais, Zelensky aparece a depositar rosas num memorial na Praça Maidan, em Kiev, em homenagem aos milhares de militares ucranianos que morreram nos últimos quatro anos de guerra. “Queria muito vir aqui com o presidente dos EUA, um dia”, desabafa. “Uma coisa é certa: só vindo à Ucrânia e vendo com os próprios olhos a nossa vida e a nossa luta, sentindo o nosso povo e a imensidão desta dor - só então se poderá compreender o verdadeiro significado desta guerra”, sublinha.
Volodymyr Zelensky sugere que, dessa forma, Trump saberia “quem é o agressor e quem deve ser pressionado”. “Isto não é uma luta de rua – é um ataque de um Estado doente contra um Estado soberano. Ele [Putin] é a causa do seu início e o obstáculo ao seu fim. E é a Rússia que deve ser colocada no seu devido lugar. Para que possa haver verdadeira paz”, vinca.
O vídeo inclui imagens divulgadas pela primeira vez do bunker subterrâneo na rua Bankova, em Kiev, onde Zelensky e os seus assessores trabalharam e dormiram durante as primeiras horas após o ataque russo que lançou a invasão em larga escala, há precisamente quatro anos.
Nas imagens, surge um longo corredor sem janelas, com um cartaz a anunciar o “Gabinete do Presidente da Ucrânia”. "Este escritório – esta pequena sala no bunker da Rua Bankova – foi onde tive as minhas primeiras conversas com líderes mundiais no início da guerra”, indica.
Today marks exactly four years since Putin started his three-day push to take Kyiv. And that says a great deal about our resistance, about how Ukraine has fought all this time. Behind those words stand millions of our people, immense courage, incredibly hard work, endurance, and… pic.twitter.com/9qiqACurhx
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) February 24, 2026
Zelensky lembra um telefonema que recebeu na altura de Joe Biden, então presidente dos EUA, que se ofereceu para o ajudar a sair do país imediatamente. "Falei com o presidente Biden aqui, e também o ouvi dizer: 'Volodymyr, há perigo, precisas de sair da Ucrânia urgentemente. Estamos prontos para te ajudar com isso'. E eu respondi que precisava de armas, não de uma boleia", contou o presidente ucraniano.
Esta manhã, Volodymyr Zelensky recebeu em Kiev o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Ao contrário do que aconteceu no ano passado, em que os líderes europeus chegaram a Kiev com o anúncio de um financiamento de 3,5 mil milhões de euros à Ucrânia, desta vez Costa e Von der Leyen assinalaram a ocasião sem anúncios, um dia depois de os 27 Estados-membros da UE não terem conseguido chegar a um consenso sobre um novo pacote de sanções à Rússia.
Zelensky pressiona UE a definir "data concreta" para adesão da Ucrânia
Num discurso transmitido por videoconferência no Parlamento Europeu, Zelensky pressionou os líderes europeus a definirem uma “data concreta” para a adesão da Ucrânia ao bloco comunitário, advertindo que Putin pode aproveitar a indefinição nesta matéria para “bloquear” quaisquer avanços nesse sentido.
“Sem uma data, sem qualquer garantia, ele [o presidente russo] vai arranjar forma de bloquear a Ucrânia, (...) dividindo-vos, dividindo a Europa. Temos de nos proteger disto”, avisou.
Numa entrevista ao jornal Público divulgada esta terça-feira, António Costa afirma que fixar uma data realista para a adesão da Ucrânia à UE “depende muito da dinâmica de todo o processo de guerra, do processo da paz e do processo de negociação”. O presidente do Conselho Europeu indica que o ano de 2027 “é o prazo para (...) concluir as negociações”, lembrando que ainda falta uma “fase muito exigente” da ratificação do Tratado de Adesão.
Do lado russo, a manhã fica marcada pelo reconhecimento, por parte do Kremlin, de que os objetivos da “operação militar especial”, como descreve a invasão em larga escala da Ucrânia, ainda não foram alcançados.
"É verdade que os objetivos não foram totalmente alcançados. Por isso, a operação militar especial continua", adiantou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, em conferência de imprensa, responsabilizando o Ocidente pelo alargamento do conflito.
"Após a intervenção direta dos países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos neste conflito, a operação militar especial transformou, de facto, a Rússia num confronto muito maior entre a Rússia e os países ocidentais, que tinham e continuam a ter o objetivo de destruir o nosso país", disse Peskov.