A Bielorrússia não dispõe atualmente de forças suficientes junto à fronteira para realizar um ataque imediato em larga escala. No entanto, tem vindo a expandir progressivamente a sua infraestrutura militar e a aumentar o número de tropas
A Ucrânia está a reforçar a sua fronteira norte devido ao receio de um possível ataque da Bielorrússia, perante a contínua expansão da capacidade militar de Minsk.
“Estamos a preparar-nos para todo o tipo de cenários e ameaças”, declarou à EFE Margarita Vershínina, porta-voz do destacamento fronteiriço de Volínia, que abrange 203 km da fronteira no noroeste da Ucrânia.
Fronteira reforçada
Até ao início da invasão russa em larga escala, há quase quatro anos e meio, apenas uma estreita faixa de areia separava os dois países na zona visitada pela EFE no final de julho. Os habitantes de ambos os lados costumavam apanhar cogumelos e frutos silvestres nas florestas situadas a poucos metros da linha de fronteira não fortificada.
Hoje, um muro de blocos de betão e arame farpado percorre a fronteira, patrulhada por soldados ucranianos a pé e em veículos e vigiada 24 horas por dia. Nas proximidades, há sinais que alertam para a presença de campos minados.
“Dependendo da zona, instalámos diferentes tipos de vedações, valas antitanque e ‘dentes de dragão’”, afirmou Vershínina, explicando que as medidas foram concebidas principalmente para deter a infantaria e os veículos inimigos.
As principais obras de engenharia na região, onde se encontram algumas das principais rotas de abastecimento da vizinha Polónia para Kiev e para o leste da Ucrânia, foram concluídas no final de 2025. Aproximadamente um terço da fronteira está protegido por terrenos pantanosos, uma barreira natural para maquinaria pesada.
Vershínina salienta que os trabalhos continuam ao longo da fronteira e nas zonas adjacentes para reforçar as defesas, incluindo a instalação de redes antidrones nas estradas de alguns setores.
Uma ameaça crescente
A Bielorrússia não dispõe atualmente de forças suficientes junto à fronteira para realizar um ataque imediato em larga escala. No entanto, tem vindo a expandir progressivamente a sua infraestrutura militar e a aumentar o número de tropas.
Em junho, o presidente Volodymyr Zelensky advertiu publicamente o líder bielorrusso Aleksandr Lukashenko para que deixasse de colaborar nos ataques russos com drones e pediu o desmantelamento dos transmissores utilizados para orientar os drones sobre Volínia e outras regiões.
Os transmissores foram desligados, mas os responsáveis ucranianos acreditam que Minsk continua sob uma pressão crescente da Rússia para assumir um papel mais ativo, seja através de uma ofensiva em larga escala, seja através de operações transfronteiriças limitadas que desviem as forças ucranianas da frente de batalha e coloquem em perigo a população civil.
No início de agosto, o comandante das forças de operações especiais da Bielorrússia, Alexander Iliukevich, confirmou a formação em curso de uma nova brigada de assalto aerotransportada perto de Gomel, a cerca de 40 km da fronteira com a Ucrânia.
Os guardas fronteiriços ucranianos e bielorrussos continuam a patrulhar a poucos metros uns dos outros, mas todo o contacto entre eles cessou depois de as forças russas terem invadido a Ucrânia a partir do território bielorrusso, nas proximidades de Kiev, em fevereiro de 2022, apesar das garantias dadas pela cúpula militar bielorrussa.
“Conhecíamo-nos bem depois de anos de serviço. Mas já não posso nem quero apertar-lhes a mão”, declarou à EFE um guarda fronteiriço ucraniano.
A vida à sombra da ameaça
O encerramento total das passagens fronteiriças afetou gravemente as comunidades locais. Muitos residentes têm familiares na Bielorrússia e anteriormente trabalhavam do outro lado da fronteira.
As florestas continuam a ser a principal fonte de rendimento para os habitantes de uma aldeia próxima. Levam os frutos silvestres recolhidos em zonas livres de minas para uma loja local.
“Antes, este lugar estava cheio de carros bielorrussos. Vinham aqui comprar de tudo porque era mais barato”, declarou à EFE Nina, uma comerciante de 56 anos.
Acabou de falar ao telefone com a irmã, que vive do outro lado da fronteira. Agora, esse é o seu único meio de comunicação; a irmã tem medo de viajar para a Ucrânia, mesmo através da Polónia.
A política raramente faz parte das conversas entre familiares que vivem nos dois países, para evitar problemas aos que estão na Bielorrússia.
Volodymyr, de 79 anos, admite que ficou assustado com um recente ataque russo com drones na zona e pensou que a Bielorrússia tinha iniciado uma ofensiva. No entanto, espera que Minsk não lance um ataque direto.
“Alguns dos que estão lá não gostam de nós, mas na Bielorrússia há mais gente inteligente do que gente disposta a envolver-se numa guerra connosco”, afirmou. A maioria dos habitantes confia em que o experiente exército ucraniano seria capaz de repelir qualquer nova ofensiva a partir do norte.efe
