Ucrânia, amor & morte. "Eu defendi o país dela. Eu para ela era um herói"

22 fev 2025, 18:00
Soldado ucraniano observa o pôr do sol na vila de Karlivka, nos arredores de Avdiivka (Narciso Contreras/Anadolu via Getty Images)

TRÊS ANOS DE GUERRA || Quase morre na guerra. Casou na guerra. Quase. Tuga, alcunha de combate, esteve alistado na Legião Estrangeira, a guerra marcou-o, no corpo e dentro, perdeu um irmão - “irmão de armas” -, mas nunca temeu ir, nem nunca mais voltar. O amor fez com que Tuga deixasse de combater, mas não de apoiar os que combatiam. O amor pode às vezes não durar, não tanto quanto dura uma guerra. Mas pode haver mais amor por vir

Mas não falemos já de amor. 

Falemos de fevereiro de 2022, recuemos ao dia 24. Ao início da guerra, da invasão russa da Ucrânia. Português, emigrante, há anos em França, A. estava de férias em Portugal. “Espantado, abismado” - ao saber das notícias, assim ficou. “Não tinha lógica nenhuma. Em 2022, um país a começar a  invadir outro? Ainda por cima na Europa? E se começam na Ucrânia, onde vão parar? Vão invadir a Europa? Ainda vai sobrar para Portugal, para os meus?” Questionou-se. Do questionamento ao choque não tardou.  

“Os bombardeamentos, as mortes - mulheres, idosos, crianças. Chocou-me. E em França eu tinha uma pessoa muito amiga minha que era ucraniana, pensava em como é que estaria. Isto tudo abriu-me a mente, revoltou-me.”. Revoltado mas como que expectante, era ver para crer, “aquilo podia não dar em nada, não é?, eu também não podia fazer nada, não é?”, até que não quis esperar mais - e nem um mês passado, em março, no dia 13, estava na Polónia, na fronteira ucraniana, para se voluntariar, para se alistar, para ir combater, mais um legionário.

“Eu descobri que podia ser da Legião Estrangeira muito por acaso, no começo eu até ia mais para grupos que eram tipo de ajuda, ajuda humanitária, era mais de bens, de comida e assim, mas depois alguém lá pergunta - num dos grupos -, 'quem quer participar militarmente’, e como eu tinha experiência como páraquedista, na Bósnia, em Timor-Leste, e se me estavam a pedir ajuda, disse que sim.”

A. já tinha 46 anos. E já não era militar, “em França era condutor, condutor de camiões”, mas foi até Varsóvia, na Polónia, “ver no que dava”, e viu-se num restaurante - “amadeirado, já mais perto da fronteira, fui num autocarro ucraniano” - que era uma “espécie de recruta”. “Era tudo um pandemónio.” Era suposto haver uma entrevista, feita ao que se dizia por uma alta patente do Exército, “mas ninguém lá apareceu”, e acabaria a dormitar - “dormir, não dormi nada” - com dezenas de outros voluntários militares, “num colchão que improvisaram no restaurante, na parte de cima”. Seria cama quente. “Já durava há dias. Já tinha ali dormido muita gente.” 

Passada aquela noite, de manhã A. parte de carinha, ele com mais sete, para lá da fronteira, “ainda me lembro bem, era uma Renault Trafic, cheia, tapada atrás”, recorda uma aura de silêncio, uma aura de segredo, “apenas me diziam para andar com o passaporte, passaporte à mão”, e finalmente lhe aparece um recrutador, “um encarregado de recrutamento - não era nenhuma alta patente”. Está agora num teatro, um teatro numa aldeia - é só o que sabe. O recrutador, “num inglês assim para o engasgado”, vai chamando os candidatos um por um, entram para uma sala, entram, saem, entram, saem, A. vai ficando para último, “esperei algumas duas horas ali”, e recorda com nitidez, recorda sem parar, o momento da entrevista - "finalmente", da entrevista. 

“Na entrevista perguntou-me tudo, porque é que me alistei, se tinha ou se não tinha experiência militar, mas uma pergunta de que é impossível esquecer-me é ‘você está disposto a matar os russos?’, ao que eu respondi ‘não estou disposto a matar, mas estou disposto a defender o vosso país’. E ele faz uma cruz no meu nome, uma cruzinha, pequenina. Havia umas cruzes bem maiores, mas aquela era pequena. Não entendia. Recusou-me?! Recusou esta gente toda? Fiquei à espera, na sala, com os restantes, mas já sem expectativa. Até que o encarregado do recrutamento sai e diz-me ‘como é que é, vens ou não vens?’ Não entendi. ‘Eu meti a cruz porque tenho dúvidas sobre se és capaz de matar ou não, se tens essa motivação…’ Respondi-lhe: ‘Não sou nenhum homicida, eu matarei um militar russo se ele me atacar’. E fui um dos selecionados e acabei numa espécie de centro, centro de formação, antes irmos para Kiev.”

A. chega à Polónia no dia 13. E no dia 19 estava na cidade de Kiev, não já para combater, mas para ir assinar contrato. “Porque eu não sou um mercenário.” Mas aquando de assinar o contrato teve, diz, um “imprevisto” que podia ter alterado toda esta história. “Eu estava lá, a assinar, e está um tipo, sentado atrás, de lado, e vira-se do nada e diz-me ‘o senhor por acaso sabe que só vai ganhar 300 dólares por mês?’, ao que eu lhe respondi ‘sei, sei, e o senhor por acaso sabe que eu vim de ganhar 3.000 euros lá em França para ajudar o vosso país?’, e ele não me respondeu mais, assinei o contato e estava na Legião.” 

Combateu em diversas frentes, “nas piores frentes”, em Irpin, em Bucha, “incursões demoradas”, mas foi quando esteve aquartelado na cidade de Bakhmut que teve dias que “jamais se esquecem, jamais se esquecem”. Não foram em Bakhmut, Bakhmut era só a base. Foram em Severodonetsk.

“Foi onde eu perdi o André, brasileiro, meu amigo, melhor amigo, meu irmão, irmão de armas. Severodonetsk foi como um pesadelo. A gente tínhamos acabado de chegar. Normalmente partíamos de noite e ao nascer do dia ocupávamos posições. Esta imagem não me sai da cabeça: os disparos de PKM - que é uma arma extremamente, extremamente poderosa - arrancaram-lhe completamente um braço. Eu vi-o a cair. [Longa pausa] Ele era a pessoa em que eu mais confiava.” A. sustém o fôlego a contar. Recupera. Retomará a memória daquela manhã fatídica.

“Quis continuar a combater. Por ele. Para completar uma 'vingança'. Ele faria o mesmo. Ele faria o mesmo! E tinha os homens, não é?, eu comandava uma equipa de homens brasileiros, georgianos, moldavos, homens muito unidos, 11 ao todo, uma pequena secção que eu só comandava porque falava diversas línguas - e assim não havia confusão a dar as ordens.” Mas houve por vezes confusões. A morte de André resulta de confusão. “O grande, grande problema da Legião Estrangeira, naquele começo, não era munições, não era armamento - as HK antigas davam jeito, porque se matássemos um russo, eles também usam as HK e recuperávamos os carregadores deles -, não era alimentação: era comunicação. Era falta de rádios. Não havia, simplesmente não havia. O André é morto por soldados da Ucrânia. Gritávamos, estivemos aí uns 20 minutos a gritar, a gritar!, que éramos dos ‘bons’, e os gajos aos tiros, porque achavam que éramos russos.”

Do you have a light? 

A. não pensou que morria. Nunca se pensa na morte? “Não é bem pensar em morrer. Tu com a adrenalina nem pensas bem em morrer ou não morrer. Achas só que se morreres, não queres morrer dolorosamente, sabes?, com uma granada, ou uma peça de artilharia, mas acho que só pensas em voltar - fazer o nosso trabalhar e voltar.” Quase não volta por duas vezes.

Continuamos em Severodonetsk, “isto foi na zona industrial”. “Ocupámos um edifício e ficámos lá encurralados. Agora sei que fomos traídos, por civis pró-russos. Andavam por lá a passear, às vezes de bicicleta, a falar ao telefone. Não desconfiámos logo. Até que começa a chover artilharia em cima de nós, rebentou com aquilo tudo. Um oficial da Ucrânia confisca um telemóvel e o que é que vê nas mensagens? A localização - mensagens a dizer ‘eles estão aqui, eles estão aqui’. Eu tinha comigo oito carregadores carregadinhos e, sei lá, mais umas duas caixas. Quando aquilo termina - e foram horas e horas -, não tinha uma munição. Se tivesse de enfrentar algum russo, era com canivete, só tinha um canivete. Foi milagre.”

A. reformula o final da frase, “não foi milagre, não”, foi sorte, ou acaso, "eu não sou um gajo religioso, nada, nada”. A sorte salva-o novamente, não em Severodonetsk, mas em Zaporizhzhia. O acaso vai-lhe mudar a vida. 

E agora já falemos de amor.

Estávamos em dezembro de 2022. “Estávamos em troca de tiros, dia sim, dia sim. E levo um tiro na barriga, no estômago. Já tinha sofrido uma lesão, mas nada tão grave. E acabei no hospital, fui operado, para retirarem os estilhaços. E é lá no hospital que, como é que eu digo?, a minha vida civil apanhou a minha vida militar.” Tatiana era uma filantropa do hospital de Zaporizhzhia. Visitava regularmente aquele local e agradecia aos combatentes. “E é assim que eu a conheço, começámos a conversar pelo Telegram, não é?, e casámos.”

A história avança demasiado rápida. Recuemos. “A verdade? Que queres que te diga? Que o português estava a fumar no jardim, a recuperar no hospital, que lhe pede lume, em inglês, que ela responde ‘só falo em francês ‘- e que a conversa nunca mais acabou -, eu posso-te dizer isso, mas ela não gosta.” Acabaria, por amor, “foi mesmo por amor”, por abandonar o exército. “Ela pediu-me isso, que abandonasse.”

Abandonaria a frente de guerra, não deixou a guerra. Nem ele nem Tatiana, a futura mulher. “A família da Tatiana detém a maior empresa de exportação de cereais da Ucrânia. Ou seja, são milionários. A verdade é que são. E financiavam os militares. Ora, como eu estava na Legião [Estrangeira], sabia o que lá havia, o que é que faltava, e depois os homens, os georgianos, os moldados, sobretudo os brasileiros, diziam-me ‘ó Tuga, precisamos disto, ó Tuga, manda não-sei-quê’ - eu sou o Tuga, não é?, é como eles me tratavam. E nós, a Tatiana e eu, enviávamos. Enviámos carros, enviámos drones, enviámos muita coisa. Eu tinha um emprego que era planear, apoiar, era civil mas estava na guerra. A família da Tatiana, como tinha esse império dos cereais, e como a guerra deixou o negócio numa situação um bocadinho complicada, apoiava o exército, queria a Rússia fora dali. Eu também.”

Se a guerra os une, também os separa. A relação perdura, já estamos no segundo ano de amor & morte, mas não resistiu. “Mas ainda nos damos, ainda gostamos muito um do outro. A sério! [Pausa] Hoje é o aniversário da Tatiana. Esta manhã enviei mensagem, de parabéns, a desejar um óptimo dia, ela respondeu-me, a desejar também.” Não enviou flores. “Ui, isso foi um problema: as flores. Nós, portugueses, num ano, enviamos quê?, duas, três vezes por ano. As mulheres ucranianas esperam receber flores de dois em dois dias. Às vezes tu nem te lembras de comprar. Se tu diariamente, de madrugada, duas, três, quatro da manhã, acordas com sirenes em Kiev, sirenes de bombas, e vais para o 'parking', para a zona subterrânea, tu não te lembras.”

À parte o esquecimento, culturalmente os dois distanciavam-se. “Eu quando cheguei à Ucrânia não sabia nada da Ucrânia. Da cultura, das pessoas. E é bastante diferente. A maneira das pessoas levarem a própria vida é aqui uma maneira que ainda nunca tinha visto. E já vivi em muitos países, não foi só em França. São pessoas rígidas. E há uma certa - digamos - frieza. Não resultou.”

Por isso não resultou. E a guerra também os esgotaria, “no assunto”. “Eu percebo, atenção!, eu percebo, mas em casa só falamos da guerra, da guerra, da guerra. Constantemente. Claro que isso desgasta uma relação. Tu queres cuidar, mas uma relação não é só cuidar. E quando estás sempre preocupado com aquela guerra, com estar vivo, vais pôr outras coisas de lado. Vêm os conflitos, vem a desconfiança.” 

À parte a desconfiança, manteve-se a admiração - A. garante que sim. “Eu para ela era o herói, basta isso para dizer tudo. Eu defendi o país dela. Para ela era um herói. Se ainda sou? Não sei. Não sei.”

Hoje já não defende a Ucrânia. Mas ainda vive na Ucrânia e é segurança privado e guarda-costas. Já regressou a Portugal, “talvez duas, três vezes”, de visita à família, tem uma filha que era ainda adolescente quando se alista e três filhos mais pequenos. “Os pequenos não consegui ver. Porque a relação com a mãe, enfim: divergências. Mas estive com a minha filha. Não é uma coisa fácil, ela não entendia que eu não estivesse com ela, que estivesse na Ucrânia, mas acabou por aceitar. Mas nunca soube que estive ferido - soube uns seis meses mais tarde, quando fui a Portugal. E quando ia sair em missão, só ligava no fim. Porque usar telemóvel numa guerra é uma má ideia - localizam-nos e atacam-nos.”

A. espera ver esta guerra chegar ao fim brevemente. “Mas só vai chegar quando o Presidente ucraniano decidir que vai dar à Rússia o que a Rússia quer. Os russos não vão deixar os territórios que conquistaram, não vão sair de lá. Infelizmente não. E a guerra acaba nesse dia.” Mesmo após o fim da guerra, A. continuará na Ucrânia, “recebo bem mais que em Portugal, o custo de vida é inferior”, mas há uma outra razão para ter decidido continuar. 

— Apaixonei-me.

— Novamente?

— Sim…

— Casados? 

— Estamos juntos - só juntos. 

— E é ucraniana? 

— Ucraniana! [risos] Pequenina, metro-e-cinquenta-e-sete, uma loira, de olhos azuis…

— Não tenho mais perguntas. 

— Ah, só mais uma coisa: lá no artigo fico como “Tuga”, está bem?. 

— Combinado. 

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