Putin quer afastar o cheiro da guerra das elites russas: 200 mil soldados já morreram e a contagem continua

24 fev, 19:13
Vladimir Putin presta homenagem aos soldados mortos no Dia da Pátria (Maxim Shipenkov/AP)

Não são números oficiais, mas são os números possíveis de uma guerra que está a devastar a Rússia, mas mais nuns locais do que noutros. De Moscovo ou São Petersburgo são poucos os que saem para ir combater na Ucrânia. Não podem dizer o mesmo as pessoas que vivem no Bascortostão ou no Tartaristão

Quantas pessoas morreram ninguém sabe. Nem civis nem militares, até porque Ucrânia e Rússia têm sido lacónicas na divulgação do número de vítimas provocadas por uma guerra que esta terça-feira faz quatro anos.

Ainda assim, há quem faça um esforço contínuo para tentar contar toda a história. É o caso da Mediazona, o serviço russo da BBC, que prossegue a publicação de dados relativos à guerra, nomeadamente do lado de Moscovo.

De acordo com o balanço mais recente, 200 mil soldados morreram desde 24 de fevereiro de 2022, sendo que 23 mil nomes foram adicionados à lista nos últimos 10 dias.

Isso não quer diretamente dizer que morreram 23 mil militares russos numa semana. O brutal aumento é antes explicado pela divulgação de dados secretos do lado russo, e que permitiram ter uma nova noção da dimensão da guerra no povo liderado por Vladimir Putin.

Do Ártico ao Daguestão, de Kaliningrado ao Estreito de Bering, são 27 mil cidades de onde saíram cidadãos para morrer na guerra.

Como escreve a Mediazona, o Estado russo continua num esforço concertado para tentar esconder ao máximo o verdadeiro impacto da guerra. Não dá para esconder o insucesso de quatro anos em que os avanços são parcos, mas os números, esses, o Kremlin vai adulterando como pode.

E como em qualquer Estado autocrata, a divulgação de dados russos é especialmente difícil. Ainda mais difícil quando falamos de dados ligados às Forças Armadas e às suas operações.

Mesmo assim, isso acontece. Seja com a ajuda de desertores, seja pela partilha de informações da Ucrânia ou até publicações nas redes sociais de quem procura familiares desaparecidos, quem procura acaba por conseguir achar mais e mais mortos no lado russo.

Ainda assim, como refere a Mediazona, é sempre necessária uma dupla confirmação, o que faz com que milhares de nomes estejam no limbo, já que não há certeza total de que tenham morrido na guerra.

“Dezenas de milhares de obituários esperam na nossa lista, à espera de serem processados e verificados”, escreve aquela publicação.

Ajuda, portanto, quando acontecem coisas como a que fez a Manticore, que divulgou uma quantidade maciça de dados que encontrou nos registos civis russos, onde estão as estatísticas relativas aos nascimentos, mas também aos casamentos e, mais importante, às certidões de óbito.

Para a contabilização foram tidas em conta todas as certidões que têm claramente a Ucrânia, mas também as regiões fronteiriças de Kursk, Bryansk ou Belgorod como local de morte.

O cruzamento desse dado com a lista pendente que a Mediazona guarda permitiu chegar aos tais 23 mil mortos em apenas 10 dias, todos verificados de forma independente.

Em todo o caso, o número será bem maior, até porque os dados divulgados só contêm informação até ao início de 2025, faltando contabilizar as mortes de grande parte do ano passado.

“Mesmo com estes dados, os nossos números ficam nuns conservadores, não exagerados, 200 mil [mortos]”, escreve a Mediazona, que decidiu dar nome a muitos dos mortos, dando também cara aos mais diretos afetados pela guerra que Vladimir Putin lançou há quatro anos.

É o caso de Alexey Zharkov, sniper de 35 anos que morreu em Avdiivka, uma das batalhas mais duras da guerra. É também o caso de Rustam Rustamov, que foi morto aos 24 anos na região de Zaporizhzhia. Mais novo era Alexander Ninek, que chegou à guerra vindo do extremo oriente, da cidade de Uelen, no Estreito de Bering, próximo aos Estados Unidos, e morreu aos 19 anos.

De acordo com os dados da Mediazona, o impacto é especialmente visível nas zonas urbanas. Cerca de 68%, ou 122.700 mortos, eram dessas áreas.

Curiosamente, isso não abrange cidades como Moscovo ou São Petersburgo. Ali, as maiores cidades russas, são poucos os que vão para a guerra, pelo que também são poucos os que morrem nela, o que confirma a predileção de Vladimir Putin em enviar para o terreno quem vive afastado das elites.

A Mediazona escreve mesmo que as principais cidades, sobretudo as que têm mais de um milhão de habitantes, têm poucos mortos registados. Em sentido contrário, quando se fala de cidades com mais de 100 mil habitantes, o cenário é diferente, já que juntas têm quase um terço do total de mortes militares. Os restantes dois terços vêm, na sua maioria, de cidades pequenas e de zonas rurais.

Admitindo que os números serão bem mais devastadores, este projeto dá uma noção mínima de como a guerra está a impactar a Rússia, mostrando também que os danos são mais visíveis quanto mais afastada estiver a elite.

Só isso explica que as longíquas regiões do Bascortostão ou do Tartaristão estejam no topo das que contabilizam mais mortos.

Europa

Mais Europa