O lugar que ninguém quer ocupar: Zelensky tem um problema em mãos que envolve os EUA

14 ago, 09:31
Volodymyr Zelensky
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A dificuldade em preencher a embaixada em Washington está a ser uma dor de cabeça para o presidente ucraniano com vários nomes a recusarem a nomeação

Volodymyr Zelensky está perante uma dificuldade inesperada num dos postos diplomáticos mais importantes para a Ucrânia: encontrar alguém com peso político suficiente e disposto a assumir a representação de Kiev junto da Administração de Donald Trump.

Segundo dois antigos altos responsáveis ucranianos e quatro deputados ouvidos pelo Politico, vários potenciais candidatos têm mostrado reservas em aceitar uma missão particularmente exigente num momento crítico da guerra. A vaga surgiu depois da saída de Olga Stefanishyna, formalmente afastada a 3 de agosto devido a acusações de peculato que se aproximavam.

A escolha de Yulia Svyrydenko, então primeira-ministra cessante, chegou a ser equacionada por Zelensky para o cargo, numa tentativa de avançar simultaneamente com a remodelação do Governo. Mas Svyrydenko recusou a proposta, segundo um antigo alto responsável ucraniano e um especialista republicano em política externa familiarizado com o processo.

O próprio Zelensky admitiu ter contado com a mesma para Washington e afirmou que procurava alguém com qualificações ao nível de vice-primeiro-ministro, ministro ou primeiro-ministro. Desde então, outros nomes terão igualmente recuado perante a dificuldade de lidar com uma Casa Branca marcada pela imprevisibilidade de Trump.

A falta de candidatos com influência suficiente para o cargo surge num momento de crescente pressão política sobre Zelensky. Ivanna Klympush-Tsintsadze, deputada da oposição e antiga vice-primeira-ministra, considera que os nomes com experiência e peso necessários para a função receiam não ter as condições adequadas para desempenhar o trabalho, sobretudo sem acesso direto ao presidente ou sem a sua confiança. 

A dificuldade em preencher a embaixada em Washington surge no contexto de uma remodelação governamental ainda por concluir e que tem contribuído para uma deterioração da popularidade do presidente da Ucrânia.

Segundo um estudo do Socis Center for Social Research, mais de 55% dos ucranianos consideram que o país está a seguir na direção errada. A saída, em julho, do popular ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, provocou protestos e uma reação política negativa, enquanto continuam por resolver vários lugares importantes. O deputado da oposição Mykola Knyazhitskiy questionou também a necessidade da remodelação e recordou que Svyrydenko recebeu aplausos e uma ovação de pé no Parlamento no seu discurso de despedida.

A vaga diplomática torna-se ainda mais sensível tendo em conta a importância de Washington para a capacidade da Ucrânia continuar a guerra. O futuro embaixador terá de lidar com uma Administração que tem alterado repetidamente a sua posição sobre o apoio militar e sobre a forma e o momento para terminar o conflito. Stefanishyna chegou a descrever a experiência no cargo como um verdadeiro “ziguezague diplomático”.

Agora, Kiev tenta convencer Trump a autorizar a produção de sistemas de defesa aérea Patriot na Ucrânia, uma possibilidade que o Presidente norte-americano prometeu em junho antes de recuar em julho. A questão ganha importância perante a aproximação de mais um inverno de ataques russos contra infraestruturas energéticas e civis e perante a dificuldade ucraniana em intercetar os ataques com mísseis balísticos. Zelensky afirma que as entregas de mísseis de defesa aérea dos aliados este ano caíram dois terços face a 2025.

Ao mesmo tempo, existem sinais de que a Casa Branca poderá tentar reanimar as negociações de paz, o que aumentaria a importância de ter em Washington um embaixador com autoridade política, acesso ao presidente ucraniano e capacidade para atuar junto de uma Administração onde as decisões podem mudar rapidamente. A missão incluiria ainda a necessidade de conquistar apoio no Congresso norte-americano.

Manter o cargo por preencher poderá, por isso, deixar a Ucrânia sem uma figura de grande peso precisamente quando estão em causa decisões sobre armamento, defesa aérea, logística, partilha de informações e uma eventual nova iniciativa de paz. Ainda assim, o deputado da oposição Yaroslav Yurchyshyn admite que Zelensky poderá não nomear ninguém antes das eleições intercalares norte-americanas, considerando que só depois será mais claro quem melhor se adapta ao novo cenário político de Washington.

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