"Não mexam no que funciona": demissão do ministro da Defesa deixa Zelensky debaixo de fogo
Zelensky demite ministro "que reformou" Defesa – e que podia ser a sua "sombra"
"A Ucrânia está numa crise política profunda, que está a romper com o tecido político em Kiev"
Zelensky cometeu um "erro objetivo": demitiu um ministro "popular" e "com resultados"
Zelensky demite ministro-chave: está a tentar ter um "maior controlo sobre o seu corpo governamental num momento tão crítico"
O que aparentava ser apenas uma remodelação num governo muito movimentado de Zelensky, que dias antes demitiu a primeira-ministra Yulia Svyrydenko, tornou-se numa dor de cabeça para o presidente ucraniano
Durou apenas seis meses no cargo, mas foi tempo suficiente para deixar marcas em muitos. Mykhailo Fedorov, até quarta-feira ministro da Defesa da Ucrânia, confirmou a saída do cargo, uma decisão que desencadeou fortes críticas e uma onda de indignação inesperada no país.
Com apenas 34 anos, tornou-se o mais jovem responsável pela pasta da Defesa, lugar de onde se despediu através das redes sociais.
"Foi uma grande honra servir o povo ucraniano como ministro da Defesa", escreveu, acrescentando que a sua equipa conseguiu "desativar o acesso ao Starlink para as forças russas, e assumir o controlo de um Ministério da Defesa sem qualquer orçamento".
"Vou continuar a trabalhar em prol da missão que inicialmente assumi no Ministério da Defesa: derrotar o inimigo através da assimetria, da rapidez da inovação e do poder da organização", fez saber na mesma publicação.
It has been a great honor to serve the Ukrainian people as the Minister of Defense.
Here is what our team managed to achieve:
1. Disabled Starlink access for Russian forces.
2. Took over a Ministry of Defense with zero budget, took a risk, reallocated funds from payroll from… pic.twitter.com/18B5QQaeqL
— Mykhailo Fedorov (@FedorovMykhailo) July 15, 2026
A saída surge numa altura em que decorre uma remodelação governamental, dois dias depois da demissão do presidente da empresa estatal de armamento Ukroboronprom, Herman Smetanin.
Antes de assumir o ministério, Fedorov destacou-se pela criação do programa "Army of Drones", que transformou pequenos projetos voluntários numa produção de cerca de 200 mil drones por mês, além de lançar a plataforma tecnológica Brave1 e garantir o acesso da Ucrânia à rede Starlink nos primeiros dias da invasão russa. Já como ministro, iniciou funções com uma auditoria que identificou cerca de 7,2 mil milhões de dólares em gastos excessivos e submeteu responsáveis do ministério a testes de polígrafo.
Entre as medidas implementadas, promoveu concursos públicos para contratos de armamento, reduzindo em 16% o preço das munições de artilharia de 155 milímetros, e reforçou o investimento em drones, robôs terrestres, sistemas de reconhecimento e armas de longo alcance.
No balanço que divulgou, Fedorov reivindica ainda a criação de um sistema regular de fornecimento de drones às brigadas de combate, a aquisição de milhares de viaturas militares através de concursos públicos e melhorias significativas na defesa aérea.
Segundo o agora antigo ministro, a taxa de interceção de drones aumentou de 83% para 91% e a de mísseis de cruzeiro de 47% para 87%. Também avançou com reformas no serviço militar, incluindo contratos com duração definida, novas regras para o regresso de militares ausentes e programas de incentivo à indústria de defesa.
Fedorov não explicou as razões da saída e, até ao momento da sua despedida, Volodymyr Zelensky ainda não tinha anunciado um sucessor nem um novo cargo para o ex-ministro.
Apesar da mudança, alguns dos projetos lançados durante o seu mandato continuam em curso. No primeiro semestre de 2026, o Ministério da Defesa certificou mil novos sistemas de armamento, com a produção nacional a representar quase 90% desse total, enquanto os robôs terrestres realizaram mais de 16 mil missões logísticas e de evacuação apenas no mês de junho.
Saída deixa Zelensky debaixo de fogo
Mas o que aparentava ser mais uma simples remodelação num governo já muito movimentado de Zelensky, que dias antes demitiu a primeira-ministra Yulia Svyrydenko, no cargo há um ano, tornou-se numa dor de cabeça para o presidente ucraniano.
Centenas de pessoas manifestaram-se na manhã desta quinta-feira em Kiev e noutras cidades da Ucrânia contra a anunciada saída de Mykhailo Fedorov.
Na capital, os manifestantes, maioritariamente jovens e estudantes, concentraram-se junto ao Teatro Ivan Franko com cartazes e palavras de ordem como "Fedorov é o nosso ministro da Defesa", "Não mexam no que funciona", "Tragam Fedorov de volta" e "O poder continua a pertencer ao povo". A iniciativa foi organizada pelo veterano e antigo médico militar Dmytro Koziatynsky, que sublinhou o caráter pacífico da manifestação.
A mobilização estendeu-se também a Ivano-Frankivsk, Vinnytsia, Lutsk, Khmelnytsky, Lviv, Uzhhorod, Dnipro, Ternopil, Odessa e Mykolaiv, onde dezenas ou centenas de pessoas voltaram a pedir a permanência de Fedorov no cargo.
Em Lviv, os participantes criticaram as sucessivas mudanças no governo e defenderam que o ministro foi o responsável pela Defesa "mais eficaz" desde o início da invasão russa em grande escala. Já em Uzhhorod, o protesto começou com um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da guerra.
Mas a revolta foi mais além ao chegar também aos mais altos cargos. Também esta quinta-feira, o vice-comandante da Força Aérea ucraniana, Pavlo Yelizarov, anunciou a demissão, considerando que a saída de Fedorov representa "um grande golpe para as capacidades de defesa do país".
Numa carta que fez questão de tornar pública, o coronel alertou que a interrupção da reforma da defesa aérea poderá aumentar as perdas humanas e a destruição provocadas pelos ataques russos com mísseis e drones.
O responsável lembrou ainda que, durante os seis meses em que esteve à frente do ministério, Fedorov implementou um sistema rigoroso de análise de cada ataque aéreo em grande escala e trabalhou com as administrações militares regionais para reforçar a defesa aérea em todo o território. Apesar de justificar a própria saída com motivos familiares, Yelizarov afirma que não pretende continuar ao serviço das Forças Armadas, nem sequer na reserva.
