TRÊS ANOS DE GUERRA || Um historiador especializado em Segunda Guerra Mundial diz que há semelhanças (três, para ser concreto) entre aquele conflito e a invasão da Ucrânia. A primeira é económica. E pode ser a chave de tudo e do fim. “O número de obuses, aviões ou tanques vai determinar a vitória”
— A História pode iluminar o presente ou cegar-nos.
Uma frase lapidar de Olivier Wieviorka. Wieviorka é historiador, francês, professor na École Paris-Saclay, e dedicou estudo e longa obra à Segunda Guerra Mundial - é dele o livro premiado “História Total da Segunda Guerra Mundial”, publicado recentemente em Portugal. Entrevistado pela CNN Portugal, o historiador defende que os leitores estão mais “interessados” na temática da Segunda Guerra Mundial por causa da invasão da Ucrânia, mas segundo ele “não devemos comparar” os conflitos - e mesmo quando se comparam, “comparar não é justificar” -, havendo, no entanto, “semelhanças”.
Desde logo porque os europeus não anteciparam um conflito no continente, desinvestiram demasiado na Defesa e, tal como "não compreenderam verdadeiramente” Hitler, não compreenderam verdadeiramente Putin - achando, europeus, que meramente pela diplomacia poderiam “apaziguar” este tipo de líderes. Não poderiam. “Creio que não aprendemos o suficiente com a Segunda Guerra Mundial. Os ocidentais deixaram Vladimir Putin atuar livremente em 2014 na Crimeia, tal como tinham permitido que Hitler agisse nos Sudetas [ver nota]”, considera Wieviorka. E prossegue: “Os países na Europa [em 1939] não apresentaram uma frente unida contra a Alemanha nazi, assim como a União Europeia se divide atualmente. As democracias [na Europa] não se rearmaram o suficiente e hoje encontram-se desprotegidas”.
O historiador francês lamenta que “muitas lições que podiam ser tiradas, não o foram”. Porque os líderes, os atuais, “continuam a pensar apenas no curto prazo” e, exemplificando com líderes do passado, “não são um [chanceler alemão] Willy Brandt, um [Presidente francês] François Mitterrand”. “Já não têm a cultura histórica dos seus predecessores.”
A invasão da Ucrânia não pode ser comparada, mesmo que sendo europeia, à guerra civil ocorrida na ex-Jugoslávia, tal como não pode ser comparada a invasão à Segunda Guerra Mundial. No primeiro exemplo, porque não foi sequer um caso de invasão, mas conflitos étnicos e conflitos independentistas. No segundo exemplo, a invasão é, apesar de tudo, uma guerra de cariz regional ou, se tanto, continental - o apoio, direto ou indireto, da China (ou do Irão, ou da Bielorrússia, ou da Hungria) à Rússia e da NATO ao lado ucraniano, a presença de norte-coreanos (residual, uma divisão só, mas presença) a combater ou de armamento ocidental nas mãos de Kiev não fazem do conflito uma Terceira Guerra Mundial. A garantia é de Wieviorka.
Ainda que nos diga: “É impossível prever uma guerra mundial”. “Mas creio, e a título pessoal – e sem que a minha opinião tenha mais valor que outra qualquer outra –, que não estamos à beira disso”, assegura.
Terceira Guerra Mundial? Só com o Artigo 5
Não estamos à “beira disso” porque “as potências têm procurado manter o caráter limitado da guerra”. “A Rússia, apesar dos seus crimes, não envolveu a Bielorrússia ou a Moldávia. E do outro lado, os ocidentais têm evitado ultrapassar certas linhas. Não vejo, portanto, uma ‘escalada aos extremos’ - para usar a expressão de [Carl von] Clausewitz -, tanto mais que, apesar das suas proclamações bélicas, Putin não utilizou armas nucleares táticas.”
E com a ascensão de Trump à presidência nos EUA, mais afastado fica um “grande conflito generalizado”. “Eu acredito também que nem o América nem a Rússia desejem isso. Além disso, por exemplo em 1914, na Grande Guerra, a guerra tornou-se mundial devido à automaticidade das alianças - o que não se verifica hoje.” Mas pode até verificar. “Bom, para isso seria necessário que um país da NATO fosse atacado, para que o Artigo 5 [que consagra o princípio da defesa mútua] fosse ativado. Mas não creio que Putin cometa esse erro.”
Voltando à comparação, possível, entre conflitos, a invasão ucraniana e Segunda Guerra, o historiador Olivier Wieviorka quando escreve sobre a guerra de 39-45 não fala meramente de guerra, da dimensão militar. Fala de geopolítica. Das forças sociais e morais. Fala de economia. “A economia desempenha, em ambos os casos, um papel essencial: percebemos que o campo de batalha é importante, mas que a capacidade dos beligerantes de forjar um instrumento militar eficaz também o é. O número de obuses, aviões ou tanques vai determinar a vitória.”
Além da dimensão da economia, “há outras duas semelhanças entre Segunda Guerra Mundial e Guerra na Ucrânia”. Olivier Wieviorka enumera: “Primeiro, a logística - a capacidade de transportar armas, munições e abastecimento para a frente de combate é um elemento crucial. Por fim, naturalmente, o moral das tropas e da população representa um fator determinante. Uma tropa motivada combate melhor do que uma que não acredita nem nos objetivos da guerra nem tão pouco na vitória”.
Putin não é Estaline - "mas legitima-se nele"
O discurso, no caso de Putin, parece remeter também à Segunda Guerra Mundial. Wieviorka acredita que os seus antecessores, como Mikhail Gorbatchov ou Boris Ieltsin, “não iriam fazer” discursos apelando à “desnazificação ucraniana”, à “grande guerra patriótica” - porque grande é também a “grande pátria russa”.
Um discurso que remete a Estaline.
Putin identifica-se com Estaline? Legitima-se através da memória de Estaline, Putin? O historiador responde curto, mas certo. “Se Putin não tem qualquer afinidade com Lenine, por exemplo, vê certamente Estaline como um grande homem. Estaline é um meio para se legitimar e um meio de restabelecer um passado que este líder do Kremlin lamenta: o de uma União Soviética poderosa, que inspirava medo e dominava a ‘vizinhança', ter acabado.”
Não comparável na escala, mas semelhante no “escombro”, na visão que nos fica, é a destruição que observámos em 1945 e que observamos em 2025. O famoso Plano Marshall, lançado em 1947, desempenhou papel importante na reconstrução da Europa Ocidental. Um investimento de 168 mil milhões de dólares - falemos aqui em dólares, porque não existia, claro, a moeda única. No entanto, na Ucrânia, o governo, o Banco Mundial, a Comissão Europeia e as Nações Unidas já estimaram para reconstrução um investimento superior a 486 mil milhões - outras previsões apontam para valores até acima.
“De facto, o Plano [Marshall] forneceu créditos aos beneficiários. E também um método, uma vez que estes também se basearam na experiência americana para melhorar a sua produtividade. Mas este plano também é alvo de idealizações: os europeus tiveram de abrir os seus mercados aos Estados Unidos, comprar produtos ao Tio Sam. Em suma, não devemos ver este Plano Marshall como uma ação filantrópica”, recorda Olivier Wieviorka. Ainda assim, para este historiador, “planos deste tipo seriam perfeitamente viáveis na Ucrânia - porque fazem sentido e dinheiro não faltará”.
Olivier Wieviorka trabalha num livro novo, que não é sobre a Segunda Guerra Mundial, recua para lá dela e avança mais além dela. É sobre os grandes líderes, “os estrategas”, que pensaram as guerras. Incluirá Putin, ou Zelensky, na obra? Wieviorka responde com sentido de humor. "Não, só analisamos os pensadores, não os praticantes. Assim, Napoleão também não consta da nossa lista, porque não escreveu sobre a arte da guerra. Mas [Carl von] Clausewitz, Mao ou [Ferdinand] Foch ocupam um lugar de destaque.”
NOTA - Em 1938, a Alemanha nazi anexa esta região da Checoslováquia, incorporando-a no III Reich • voltar ao início