Da Polónia à Ericeira, Tiago é padre e foi buscar 101 refugiados ucranianos — mas a história não é sobre Tiago

22 fev 2025, 17:00
Da Polónia à Ericeira, Tiago é padre e foi buscar 101 refugiados ucranianos — mas a história não é sobre Tiago

TRÊS ANOS DE GUERRA || Esta história (que podia nunca ter acontecido e onde nem tudo foi “divinal”) tem já três anos. E o padre Tiago conta-a ainda no presente. “Porquê? Porque nós vivemos uma experiência de liberdade”

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto

Ruy Belo
“Teoria da Presença de Deus”


Na infância viu o pai, militar da Marinha, embarcar para patrulhar o Adriático. “Mas graças a Deus não tive uma experiência de verdadeira guerra muito próxima.” Na manhã de 24 de fevereiro, em 2022, teve-a mais próxima, ainda que pela televisão. Era o dia da invasão da Ucrânia, faz agora três anos. “Lembro-me que diziam ‘isto é lá longe’. Não, não é lá longe. Fiquei impressionado quando começou a invasão e, ainda por cima, na Ericeira a comunidade ucraniana é grande. Naquele dia rezámos, juntou-se muita gente, e a comunidade ucraniana veio.”

É Fonseca de apelido, mas na Ericeira é só “o padre Tiago”, pároco aqui desde 2021. Ainda jovem, trato fácil. Tem agora 39 anos.

E a história de como este jovem padre consegue transportar mais de uma centena de ucranianos, refugiados, da Polónia até Portugal, e até à Ericeira, começa na Quaresma, na quarta-feira de cinzas. “Nós somos convidados ao jejum, não é? E também à oração. Perguntei-me o que Deus queria que fizesse por esta gente, ‘o que é que Tu queres que eu faça?’, e a resposta veio no dia seguinte.”

Um amigo do tempo do Seminário liga-lhe e diz “que vai à Polónia, à Roménia, àquelas fronteiras”, para trazer quem precisasse de abandonar a Ucrânia. “Claro que eu pensei ‘eu gostava de ajudar’, ou melhor, eu gostava de também ir com ele, ‘mas eu sou padre, não posso ir’. Passa um dia e a Olena, uma paroquiana ucraniana, vem procurar-me: ‘Senhor padre, os meus sogros estão em Lviv, preciso de os trazer, pode-me ajudar?’ E a partir daqui não sei bem explicar o que me aconteceu. Espalhou-se na Internet, em grupos de Facebook, ou de WhatsApp, que um padre na Ericeira ia organizar um grupo para trazer refugiados ucranianos. Isto foi assim.”

E assim o telefone não parou de tocar. Começou na sexta-feira e continuou no sábado e continuou no domingo. “Era impossível atender a tantas chamadas. No domingo ao final do dia junto na sacristia um grupo de paroquianos e abri um Excel. Ficaram lá os números e fizemos uma espécie de call center. Ligámos um a um, a devolver.” Ao todo, já mais de meia centena de chamadas. “Atendiam-nos ucranianos, os familiares cá, a pedir ajuda.” O padre Tiago não podia dizer a ninguém que conseguia trazer alguém. “Não, porque não tínhamos nada, só alguma boa-vontade. E a folha de Excel. E a comunidade, que logo se voluntariou para ir numa missão, talvez à Polónia. Talvez. Eu precisava de gerir as expectativas, as deles e as minhas.”

Mas Tiago já falava com Teresa, a irmã.

“Se nós conseguíssemos uma pequena carrinha, uma de nove lugares, íamos buscar pelo menos os sogros da Olena.” Mesmo para ir naquela carrinha, pequena, “precisamos de nos organizar”. Era preciso uma pessoa que percebesse de mecânica, outra que falasse polaco, ou ucraniano, e precisava de mulheres, “porque íamos tentar que viessem também mulheres e crianças”. E Tiago não tinha nada, ou quase nada. Nem uma carrinha. Era domingo.

Pensou que o melhor era ir dormir. “E na segunda de manhã logo decido o que é que posso fazer.” Na segunda de manhã haveria um encontro de padres. “Eu não sou de pedir sinais, mas pedi nesse dia. ‘Olha, Deus, se tu pretendes que vá à Polónia, faz com que o padre que nos der a meditação esta segunda-feira nos fale da Polónia’. E não é que o padre falou do Papa João Paulo II, que é da Polónia?” Estava decidido, devia seguir. E mais decidido fica ao almoço. “Ao almoço contei aos outros [padres] e começaram-se a rir, todos muito divertidos. ‘Ai estão-se a rir? Agora é que eu vou mesmo!’ E depois pensei, ‘mas ainda nem carrinha eu consegui’. Ir era só uma intenção.”

Na noite de segunda a intenção do padre Tiago ganha forma. “Eu tenho um cunhado, o Manel, marido da Teresa, que me liga e me diz ‘a Teresa falou comigo e vou apoiar-te com 1500 euros!’ E ouço a Teresa dizer lá atrás: ‘É isso que eu valho para ti, 1500 euros? Eu para ti valho 1500 euros?’. Subiram a parada e ainda me disseram que vinham.” O valor não seria suficiente para alugar uma carrinha. Mas a carrinha ia vir. “De Mafra. Da câmara de Mafra. E de uma empresa, a Mafrense. A Mafrense ofereceu gratuitamente duas, não uma, mas duas carrinhas, as tais de nove lugares. E a câmara consegue um autocarro de 50 lugares, dos bombeiros.”

Resolvido um problema, logo outro virá. “É que eu ainda só tinha comigo três pessoas, eu, a Teresa e o Manel, e com as duas carrinhas precisava de 12 pessoas, 12 voluntários.” Tiago repete: “E precisava de alguma escola, algum ginásio, não sei, onde poder ficar lá na Polónia. E o mecânico. E o tradutor. E mulheres na comitiva, para que isso garantisse segurança àqueles [refugiados] que quisessem vir connosco. E correntes para o gelo, porque é inverno na Polónia. E um sistema de rádio, para falarmos na viagem. ‘Precisamos ainda de muito’, pensei eu.”

E precisava de autorização do Cardeal Patriarca de Lisboa. “Liguei na altura a D. Manuel Clemente e ele foi compreensivo, disse-me só que ‘se Deus te chamou nesta missão, vai, dou-te a minha bênção’. Estava autorizado.”

Esta história começa numa sexta-feira e, quando damos por ela, já é terça. Vão reunir-se voluntários nos bombeiros. A ida à Polónia não ia parar, mas Tiago continuava secretamente a pensar “como tudo isto é só uma perfeita loucura”. Nos bombeiros decidiram que partiriam a 10 de março. Mas daquela reunião saem somente nove voluntários, 10 com o padre. Havia mulheres entre os voluntários, sim, mas nenhum mecânico e nenhum tradutor de polaco e de ucraniano. Voltariam a reunir-se na manhã seguinte. “O comandante dos bombeiros sugere-nos levar um chefe, chefe de missão, e sugeriu o Carlos, que é da Proteção Civil. Éramos já 11. Mas nem mecânico, nem tradutor. A meio da reunião aparece alguém, um homem que soubera da iniciativa, e disse ele: ‘Olá, eu sou o Manuel, sou aqui de Mafra, de Igreja Nova, percebo de mecânica, falo polaco e falo ucraniano’. Estava fechada a equipa. Três carrinhas de nove lugares, entretanto surgira mais uma levada pelo MEY cunhado, 12 voluntários, um autocarro para 50 pessoas, mantimentos e o resto do que faltava.”

Até que chegou o dia 10, da partida. De véspera, de madrugada, toca o telefone de Tiago. É um dos voluntários: tem febre, talvez covid, não vai. Fica a faltar uma pessoa. No quartel, já prontos a partir, com menos um, alguém ouve que falta um lugar. O marido de uma voluntária, que fora apenas deixá-la, chega-se à frente: “Mas eu posso ir, até estou de folgas.” E mais: era condutor de autocarros. Tiago ri-se ao lembrar-se. “Eu só pensava, ‘como é que isto é possível?’. Já não era o primeiro sinal, esse foi na missa. Já não era o segundo sinal, esse foi antes, no quartel. O mecânico-tradutor já era o terceiro.” E partem em direção à Polónia, a Cracóvia.

babuska pianista, o namorado dos "inimigos" e os adolescentes que sonhavam ir combater

A viagem não se fez em descanso. “Não, nada. Passámos a viagem ao telefone, a encontrar um contacto ali na Polónia que nos pudesse acolher. Era preciso pernoitar. E telefonámos àqueles refugiados todos, porque era preciso tentar confirmar quem vinha, quem não vinha, onde estavam, onde podiam ser recolhidos. Uns já estavam em Cracóvia, outros na fronteira. Aquela folha de Excel foi atualizada durante a viagem toda.” Ainda de viagem, parados em Frankfurt “só para dormir um pouco” ao fim de dois dias a conduzir, Tiago recebe nova chamada. O autocarro dos bombeiros avariara algures em França. “Um problema mecânico. E ficou lá parado. Não podia vir.”

Não iam conseguir trazer aqueles 50 refugiados previstos. Ou conseguiriam? “Em Frankfurt, lembrei-me do Arlindo. O Arlindo era outro amigo do Seminário, que agora era condutor de autocarros. E liguei-lhe, ‘estou, Arlindo?, tens de me ajudar!’, e qual não foi a minha surpresa: ele responde ‘sim, consigo’. Tinha um autocarro em Paris, tinha de pedir ao patrão autorização, mas ligava-me logo que soubesse. Ligou-me um pouco depois. Problema resolvido. Ah, e nós entretanto já conseguimos uma escola na Polónia, numa localidade nos arredores de Cracóvia, que nos receberia, nos acolheria.”

Chegaram à localidade no sábado à noite e partiram logo em carrinhas para recolher refugiados. O autocarro vindo de Paris chegaria no domingo. Partiriam de volta a Portugal na segunda. O tempo não era muito.

O processo estava voluntarioso, mas atabalhoado. “E o Carlos, o que era da Proteção Civil e era experiente em operações de resgate e tudo mais, decidiu: ‘Precisamos de um espaço onde ninguém entre. Vai ser aqui este balneário, é a task force, ninguém entra aqui’. Colou um mapa da Polónia na parede, marcava a amarelo os sítios de recolha e começou a dirigir as equipas, ‘tu podes ir aqui, tu podes ir ali’. E nós não parámos, porque muitos refugiados estavam a dormir nas ruas, era inverno na Polónia, estava tudo uma confusão, crianças carregadas com malas. Nós não podíamos parar agora.”

Não pararam de recolher. Até que perceberam que não tinham consigo 50 refugiados. Tinham uma centena. “Cento e um!” Era preciso novo autocarro, e o que tinham dos bombeiros continuava avariado algures em França. “Só que nós entretanto tínhamos recebido donativos, por MBWay e assim, tínhamos quase 20 mil euros. Então, fretámos um autocarro na Polónia.”

O padre resolveu celebrar missa. E quando Tiago naquele domingo celebrou missa, improvisada, no ginásio, o ginásio estava repleto. “Sim, era um ambiente pesado. Os refugiados estavam preocupados com os que deixaram para trás. Mas, sabes, ao mesmo tempo era quase um ambiente familiar, as crianças a jogarem à bola. E as pessoas sentiam-se acolhidas. Quando elas entravam na carrinha, até porque se ouviriam histórias de tráfico de seres humanos, sentiam como que medo. A viagem era feita em silêncio, mas sentiam-se depois acolhidas. Foi uma missa muito emotiva. Não nos importava se eram católicos, se eram ortodoxos, se eram crentes, se não eram crentes. Mas naquele momento sentiriam a falta de Deus. E foram.”

Aquelas pessoas não eram só refugiados. Nem um número, cento e um. Eram isso: pessoas e histórias de pessoas. “Lembro-me de uma avó, uma babuska, vinha só ela com a neta e com um cãozinho. A filha disse-lhe ‘vai, salva a nossa pequenina’, e partiram sozinhas. Caíam bombas perto da sua casa. A avó era uma pianista ucraniana. Lembro-me de uma outra jovem, que estava num dilema, moral, porque o seu namorado era russo e tinha medo de ser vista como traidora. E lembro-me desta mãe também, com os seus filhos, três ao todo, adolescentes: o marido foi combater e estes filhos estavam numa dúvida, se deviam vir ou ficar e combater. A mãe não os queria lá deixar ficar, claro.”

A mão de Deus e um milagre chamado Benfica

O autocarro de Arlindo enfim chega. E o polaco, fretado, também. O dia era já segunda-feira. A viagem de volta haveria de começar. Partiriam ao fim do dia. O autocarro português partiria primeiro. Tiago não parte logo. “Ainda tentámos ir buscar mais alguém. Havia ainda muita, muita gente nas ruas de Cracóvia. Queríamos trazer mais alguém. Mas tive que dizer que não conseguíamos, e isso é duro, mesmo muito duro, mas não podíamos, ‘temos de ir agora, temos de ir’, era um sentimento de impotência ter que lhes dizer isto, mas sabia que já tínhamos respondido às orações de muita gente e que a resposta de Deus continuaria noutros voluntários.”

Partiram. E a partida, e a viagem, fez-se silenciosa. “Mas sem nenhuma revolta, sem ira. E sem a crítica aos russos, sem lamentações. Só tristeza, profunda tristeza. E preocupação dos familiares com os que ficaram ou estavam a combater, os homens, os maridos, os pais.” A viagem fez-se também atribulada.

“Era terça-feira de manhã. Tivemos logo dois grandes sustos.” Um primeiro foi o autocarro que se fretou ser mandado parar pela polícia na Alemanha. “Estava com algum problema hidráulico e a polícia disse que não havia condições de segurança para fazer esta viagem, precisava de ser reparado.” E ficaram 50 pessoas, com crianças, com idosos, paradas numa estação de serviço.

O outro susto foi “mesmo, mesmo à minha frente”. Numa carrinha, às tantas o condutor, de tão cansado que estava, fechou os olhos por uns instantes e começa a mudar a direção, a mudar a trajetória, a ir mais para a sua direita, a falhar a via, e embateu num camião. “Foi assustador!” Subitamente, acordou ao ouvir um grito, consegue dar uma guinada e encosta à berma. A lateral estava totalmente amolgada. “Foi a mão de Deus que fez com que não morressem naquele momento.”

Sobreviveram. E seguiram seguros até à estação de serviço, na Alemanha. O autocarro português seguira. O polaco continuava parado, a aguardar a reparação. Entre dois sustos, o padre Tiago ainda assim graceja: “Nessa noite lembro-me de estar muito cansado e de assistir a um outro grande milagre, que foi o Benfica ganhar o jogo contra o Ajax na Champions e passarmos a eliminatória”.

E voltamos à estação de serviço. Haveriam de conseguir partir de manhã, de rumar a França. “E lá a comunidade portuguesa deu-nos refeição e presentes às crianças e acolheu.” Não ficaram. “Não podíamos. E nem a missa eu pude dar.” Seguiram para Espanha, “porque lá a Proteção Civil [espanhola] estava à espera na fronteira”. Chegaram às duas da manhã a Espanha. Não estava lá ninguém. “Houve uma falha de comunicação.”

O local era quase ermo, não tinha nada. “Nada, era uma espécie de parque de estacionamento. E chovia muito. Estava escuro. Não havia nada para comer.” Frustrado, “zangado mesmo”, o padre Tiago resolve que deverão todos descansar e partir mais tarde. “Sabes? Naquela noite sentimo-nos, todos nós, refugiados.” Tiago a todos sugeriu descansar, mas não descansou.

“Acordei, reparei que uma das nossas mulheres refugiadas estava lá fora, à chuva, de capuz, e com um rosto triste. Eu ainda nem tinha celebrado missa naquele dia, era já de madrugada, nós, padres, temos que celebrar missa diariamente, e resolvi celebrá-la ali, naquela madrugada, num jardim dum parque de estacionamento, à chuva, éramos cinco, seis pessoas. E foi a missa mais especial que celebrei alguma vez, alguma dia.” Mais especial se tornaria. “Acabámos de celebrar a nossa missa e encontrámos um pequeno bar aberto, ali perto até, a uns 100 metros, contámos a história, que tínhamos andado a fazer esta missão, e o dono do bar fica comovido e diz: ‘Eu quero oferecer-vos o pequeno-almoço, a todos vocês’. E comemos finalmente.”

Não me chamem herói 

Esta viagem agora só pára na Ericeira. Ou quase. Em Espanha, o autocarro dos bombeiros, o que avariou logo no começo, é reparado finalmente. “E trocámos os refugiados do autocarro polaco fretado para esse português dos bombeiros.” Estamos no dia 18. É já o fim desta viagem longa que começou no dia 10. Mas ainda não é o fim dos trabalhos com refugiados do padre Tiago.

“O sentimento à chegada à Ericeira? Alívio, grande alívio. Quando nós chegámos ao quartel, celebrei logo uma missa e fomos dormir todos, porque era preciso fazer testes covid e só na sexta-feira poderiam ir [refugiados] para as famílias. Os que tinham as suas famílias em Portugal, claro. A outra parte da missão à Polónia foi encontrar cá famílias de acolhimento para os restantes. E conseguimos, aqui na Ericeira, na Carvoeira, em Mafra, até longe, na Trofa.”

Muitos voluntários queriam tornar a partir, voltar à Polónia, trazer mais gente, mais e mais e mais. “Respondi que não, que não partiria. Já não podia. E não me senti mal. Senti-me, isso sim, consolado. Porque outros grupos continuariam os trabalhos.”

Passados três anos, ainda há refugiados que permanecem na terra, na Ericeira, “poucos”, os que ali têm os familiares sobretudo. “Muitos já regressaram à Ucrânia, outros estão noutros países.” Tiago ainda tem contacto, “o possível”. “Uma das raparigas que veio está agora no Algarve. Conheceu lá um rapaz, ucraniano também, falamos, diz-me que está feliz aqui, apaixonaram-se. Mas para mim o contacto ir-se perdendo é normal. Importa-me o que fizemos. Isso não se perde. Só o amor é digno de fé. Se a nossa fé não se manifesta nestas obras, em obras de amor, em obras de misericórdia, a nossa fé não convence ninguém.”

Tiago, o homem, espera o fim da guerra, “imediatamente, um cessar-fogo imediato”, e espera que haja uma consciência, “a confidência de que devemos ser instrumentos de paz e não permanecer na indiferença”. A guerra leva já três longos anos. Tiago, o padre, recordou aquela viagem de há três anos sempre como se esta tivesse ocorrido “ainda agora”. “Tenho essa noção, sim. Porque foi muito marcante, para todos nós. Nós sentimo-nos levados ao colo na missão. Sentimos que naquilo que estávamos a fazer na missão, estávamos a ser de certa forma ‘marionetas’, havia Alguém que pegava em nós e nos dizia o que fazer, por onde ir. Nós vivemos uma experiência de liberdade.”

— O padre fala sempre em “nós”. Não sente que é o “herói” desta história?

— Não. Não, não…

— Porquê?

— A resposta é muito fácil. Porque realmente não sou protagonista, não sou herói. O herói é Aquele que para isto me capacitou. Os heróis são todos os refugiados, corajosos que deixaram o país, a casa, e entraram nas carrinhas de perfeitos desconhecidos — e confiaram em nós. Os heróis são todos os voluntários. O Carlos, que foi um líder. A Elisa, mãe de seis filhos, que disse logo que ia, 'eu tenho de ir, eu quero ir, eu tenho de ir, eu quero ir'. O Manuel, que é um génio. Ele conta por graça que um dia quando era pequeno apanhou um choque — um choque elétrico. Então ficou assim, 'genial'. E o Manuel falava polaco, falava ucraniano, de coração generoso, a querer sempre voltar atrás para trazer mais gente. E o marido da Maia, que também se chama Manuel, e que foi o que apareceu no quartel dos bombeiros, não era para ir, mas apareceu no quartel e foi. Um campeão nacional de atletismo, o Manuel...

— Eu cá acho que foi um pouco herói.

— [Risos] Não me sinto um herói. Sinto que fiz, que nós fizemos, aquilo que era preciso. Que somos servos. Servos.

 

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