TRÊS ANOS DE GUERRA || É hoje um dos arquitetos franceses mais destacados. Martin Duplantier abriu um escritório em Lviv após a invasão da Ucrânia. E trabalha na reconstrução de inúmeras cidades e diversas regiões desde então: Kharkiv, Mariupol, Sumy, Mykolaiv, Odessa, Kiev, Borodianka ou Izium. Não tem sido algo fácil de fazer: "Quando apagas uma cidade inteira, quando destróis a maior parte dos edifícios, sabes que estás a despojar as pessoas da sua terra, de uma região, do seu território, de uma geografia. E vai ser mesmo muito difícil reconstruir essas memórias"
Martin Duplantier quis evitar uma tentação, a de “reconstruir rapidamente”. “Acontece sempre que há uma guerra e tende-se a importar soluções em vez de nos adaptarmos à perspetiva local.” O renomado arquiteto diz que o que faz, e fá-lo desde o primeiro dia da invasão da Ucrânia, “é pensar como podia a Ucrânia encontrar a própria identidade, as próprias forças, os próprios recursos”.
Os ucranianos são “corajosos” e são “emancipados” e são “cheios de energia”, mas uma reconstrução é um “processo doloroso” - e é preciso “resistir ao terror” - cujo propósito final é "o de unir as pessoas”. “Queremos reconstruir a Ucrânia porque queremos reconstruir as pessoas. Queremos fazê-las ficar de pé novamente, mesmo que tenham perdido as pernas. Queremos fazê-las olhar em frente, mesmo que tenham perdido os olhos.”
Como começou a sua relação com a Ucrânia? Pelo que li, começou por volta de meados de 2015, quando o Martin é convidado para palestrar em universidades de lá. Que tipo de relação desenvolveu com este país e com o seu povo, tanto a nível pessoal como a nível profissional?
Começou em 2015, sim. Nessa altura, fui convidado a interagir com o município de Kiev, em espaços públicos, e simultaneamente por algumas universidades para dar palestras e workshops. Foi assim que tudo começou. Posteriormente fui convidado para eventos arquitetónicos ou para festivais, e havia uma cena arquitetónica muito vibrante nessa altura, com um grande trabalho de capacitação para apoiar o processo de descentralização que estava a decorrer após o Euromaidan.
E o que me pode dizer sobre a população ucraniana?
Tenho muita admiração por eles porque esta geração que está na linha da frente neste momento é a mesma que já arriscou as suas vidas no Euromaidan para derrubar o governo pró-russo e corrupto da altura. Tenho amigos que estavam na Praça Maidan, a ser alvejados pela polícia e pelas forças armadas do seu próprio país. Portanto, são muito corajosos, sabem o que querem e fazem realmente parte desta história de emancipação do país em relação à Rússia colonialista e imperialista.
E o que realmente me tocou foi talvez a identidade deste país e o facto de ser uma geração que está a tomar nas suas mãos o seu futuro. Eles não são apenas indivíduos; estão unidos para alcançar um futuro comum. E isso é algo muito preciso. Quando olhas para isto do ponto de vista da Europa Ocidental, é muito claro.
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, e dada a sua ligação ao país, teve uma reação muito nobre: como presidente da Associação Francesa de Arquitetura, conseguiu acolher e empregar 300 arquitetos e engenheiros da Ucrânia. Como é que esta sua iniciativa se desenrolou? É um esforço tanto profissional como humanitário...
Fiquei completamente chocado. A minha segundo filha estava quase a nascer no dia da invasão em grande escala e ela é ucraniana. O meu telefone não parava de tocar, com os meus amigos a dizerem que iam para a linha da frente ou estavam a ser mobilizados pelo exército ou, no caso de outros amigos, a tentar fugir e a procurar os papéis necessários para poderem descansar e encontrar uma solução noutro país europeu. Foi muito caótico. Foi algo que não queríamos ver. Mas alguns dos meus amigos já se estavam a preparar para a guerra.
Foi uma grande confusão e, ao mesmo tempo, um enorme processo de solidariedade. Na verdade, uma ONG disse que nos primeiros meses da guerra que nunca tinha visto um país em guerra em grande escala tão bem organizado e a cuidar tão bem do seu próprio povo.
Olhando para tantas pessoas a fugir, pensei que, se estivesse na sua posição, ficaria feliz por continuar a fazer o meu trabalho e a trabalhar em algo para o qual fui educado, pensando que, após a guerra, precisaríamos todos de arquitetos e engenheiros para reconstruir o país. Assim, sendo presidente da Associação de Arquitetura de França e também parte dos órgãos de outras associações, reuni toda a gente e pedi-lhes que abrissem os seus estúdios, as suas empresas de engenharia para os profissionais ucranianos. Criámos 300 posições e recebemos muitos telefonemas de pessoas de todos os tipos dispostas a ajudar a Ucrânia, oferecendo alojamento, emprestando ou alugando os seus próprios apartamentos. Foi muito comovente ver essa solidariedade.
A maioria destes profissionais ucranianos que chegaram a Paris integrou-se muito bem e alguns deles ainda estão a trabalhar aqui. Outros voltaram para a Ucrânia porque sentiram que seriam mais úteis lá. Portanto, sim, ainda é uma história em curso.
Também decidiu abrir um novo escritório em Lviv. Por que tomou essa decisão? Quando é que o fez? E que tipo de trabalho desenvolvem lá? Segundo percebo, não se trata apenas de restauro de e arquitetura - envolve também paisagismo e planeamento urbano. Uma abordagem mais ampla, global e social, à escala dos edifícios, cidades e até de bairros inteiros.
Abri o escritório depois da invasão em grande escala, porque antes da invasão em grande escala eu não queria estar profissionalmente envolvido com a Ucrânia. Fora da área académica, não queria estar tão envolvido em negócios ucranianos, por assim dizer. Mas, devido à invasão em grande escala, começámos a olhar para o património, e o património arquitetónico, como um dos alvos da invasão russa - porque eles tentaram apagar a cultura local. E, claro, a arquitetura faz parte dessa cultura.
Com um grupo de jovens profissionais e contactos que tinha de antes da guerra, fizemos um trabalho enorme em cinco cidades e regiões, mapeando e recolhendo toda a informação sobre perdas de património em Mariupol, Kharkiv, Sumi, Odessa, entre outras cidades. O objetivo era sensibilizar a Europa, mas também sensibilizar a UNESCO, e tentar reunir forças e pessoas para salvar o que ainda fosse possível salvar do património arquitetónico ucraniano.
O objetivo inicial do estúdio foi começar esta missão de mapear e documentar o património arquitetónico, e ver quanto património foi perdido. Estamos a falar de 800 edifícios de património listado que foram destruídos, mas contamos muitos mais, pois a lista de património arquitetónico na Ucrânia era muito restrita. Portanto, para nós, é muito mais do que esses 800 edifícios. O património não é só o concreto, é também o património imaterial.
Uma das principais missões confiadas ao seu escritório foi, como bem disse, mapear e documentar - também com a participação da UNESCO - o património arquitetónico destruído ou ameaçado pela invasão russa. O que perde um país quando os seus lugares, arquitetura e memória são destruídos?
Quando apagas uma cidade inteira, quando destróis a maior parte dos edifícios da cidade, sabes que estás a despojar as pessoas da sua terra, de uma região, do seu território, de uma geografia. E vai ser muito difícil reconstruir isso, reconstruir essas memórias. O que estou a dizer é que essa destruição massiva não diz respeito apenas aos edifícios, mas principalmente às pessoas e à sua ligação a esses lugares.
O que um país perde é uma parte essencial da sua identidade. A perda de património arquitetónico não é apenas uma perda física de edifícios, é uma perda das histórias que esses edifícios carregam. Eles representam o passado, a cultura e as raízes de uma nação. Quando esses lugares são destruídos, perde-se não só a história material, mas também a ligação emocional das pessoas com a sua terra. Essa destruição tem um impacto profundo na memória coletiva de um país.
Vamos já falar das cidades e dos locais onde interveio ou deseja intervir. Mas antes eu gostaria de falar da questão da educação e da saúde. Estes são dois dos principais objetivos do trabalho do Martin atualmente. Porquê? Sei que, especialmente no caso da educação, colaborou até com engenheiros de Israel. O que está a ser construído ou reconstruído na Ucrânia hoje deve já ser pensado tendo em conta futuros conflitos e invasões? Estou a referir-me especificamente à necessidade de abrigos nas escolas, por exemplo.
O que me interessa realmente não é a arquitetura em si, mas sim o que um edifício faz pelas pessoas, o que um edifício faz pelo ambiente em que está inserido. E vejo a arquitetura, desde essa destruição massiva, como uma proteção para os corpos, mas também como uma proteção para a alma, para as mentes, para a integridade interior e mental das pessoas.
As primeiras vítimas de todas as guerras são as nossas crianças. 99,9% das crianças ucranianas que vivem na Ucrânia estão traumatizadas pela guerra. E elas são o futuro do país. Para mim, isso é a maior prioridade: garantir que elas possam voltar à escola, que ainda possam brincar, aprender, interagir, e que tenham abrigos. A necessidade de ter abrigos, mesmo que a guerra termine, é uma necessidade para o futuro, por exemplo. Os abrigos são a nova norma para qualquer escola no país.
Mas quanto mais próximo se está da linha da frente, maior deve ser o abrigo, porque, na verdade, quando se está a menos de 40 quilómetros da linha da frente, a taxa de alerta é tão rápida que não há tempo sequer para descer para o abrigo. Portanto, é preciso construir escolas totalmente subterrâneas, escolas que sejam totalmente antirradiação e abrigos antiaéreos.
Estamos a construir, em Zaporizhia, com o governador Fedorov, uma série de escolas totalmente subterrâneas, ligadas a escolas existentes em superfície. Mas a escola em superfície está vazia hoje, e tudo acontece em baixo, no porão. Isso é incrível, porque quando falamos disso a europeus ocidentais, eles dizem: "Oh meu Deus, é tão terrível, as crianças têm de estudar no porão, sem luz natural”. Mas, na verdade, quando falamos com as crianças, a maioria delas não esteve na escola nos últimos três, quatro ou até cinco anos, porque a covid foi antes da invasão. Portanto, estão tão felizes por já não estarem em casa e por poderem brincar e estudar juntos. E isso é uma grande alegria, ver isso. Não temos luz natural e estamos subterrâneos, mas pelo menos estão juntos, e isso faz sentido.
Kharkiv, Mariupol, Sumy, Mykolaiv, Odessa, Kiev, Borodianka ou Izium. Diferentes lugares, diferentes projetos. O que me pode contar sobre o trabalho desenvolvido em algumas dessas cidades?
Estamos a desenvolver muitos projetos diferentes, em várias escalas e com diferentes temporalidades. E o que gosto de dizer, como uma história de guerra, é que tudo o que fazemos não é temporário. Tudo o que fazemos e construímos é pensado a longo prazo.
Então, quando reconstruímos em Borodianka, com a fundação de Elena Zelenska, quando reconstruímos o centro desportivo e cultural, pensámos nele como um projeto piloto, um projeto que desafia as regulamentações de construção, um edifício que reflete o território e a identidade ucraniana. Uma infraestrutura social, não apenas para as crianças, mas também para toda a aldeia de Borodianka.
Quando trabalhamos em Izium, na reconstrução de toda a cidade, que fica a cerca de 80 quilómetros, talvez 60 quilómetros, da linha da frente, é uma cidade que foi palco de uma grande batalha na primeira contraofensiva de 2022, no final de 2022. E também foi o local de massacres em massa por parte dos russos. Portanto, é um tema muito pesado e um lugar de horror. Olhamos para ele de novo a curto, médio e longo prazo. E como é que isso pode evoluir a curto prazo para cuidar dos 40% da população que ainda lá está? Como podemos tornar a cidade atraente novamente para que as pessoas possam voltar? Enquanto isso, a transformação da cidade e a reconstrução são mais sobre transformação do que apenas construção de edifícios. Como transformamos as cidades? Como transformamos as regulamentações? Como transformamos também as mentalidades para que a Ucrânia de amanhã não seja a Ucrânia de ontem? E seja melhor, mais resiliente e provavelmente pós-soviética e não soviética. Existem tantas dimensões que os ucranianos estão a enfrentar enquanto mudança.
Estou realmente impressionado pelo facto de estarem a mudar profundamente a maneira como as suas instituições funcionam, a maneira como as regras e as leis são definidas. É uma transformação enorme que está a acontecer.
Enquanto arquiteto, é conhecido por defender o que se chama design urbano socialmente sustentável. Como é que é possível fazer isso nesta Ucrânia em tempos de guerra?
Com design social, quero dizer que ele tem de ser social porque estamos a fazer as coisas para as pessoas e com as pessoas. E isso é a única coisa que faz sentido nestes tempos. Podermos envolver as comunidades de várias maneiras: localmente para as pessoas que ainda lá estão, mas também de forma digital ou remota para as pessoas que fugiram e que querem voltar.
Fizemos isso com os cidadãos de Izium. Contactámos todos os que pudemos porque, novamente, 40% da população ainda está na cidade e o resto está no estrangeiro ou espalhado pelo país. Conseguimos envolver estas pessoas e comprometerem-se, não no sentido de obrigação, mas realmente envolver-se neste processo de repensar a sua própria cidade. A sustentabilidade é sobre as pessoas, é também sobre as dinâmicas económicas que queremos trazer.
E sei que a tentação de reconstruir rapidamente, de uma maneira de emergência, acontece sempre que há uma guerra, e tende-se a importar soluções em vez de as adaptar à perspetiva local. Mas o que fazemos, e é por isso que começámos logo no primeiro dia da invasão em grande escala, é pensar como a Ucrânia pode encontrar a sua própria identidade, as suas próprias forças, os seus próprios recursos locais. Recursos humanos, mas também materiais, para reconstruir, porque isso é um grande alavancamento para o futuro.
E não queremos cometer os mesmos erros que se cometeram nos Balcãs, por exemplo, ou na reconstrução de “folha em branco” que os soviéticos fizeram em 1945, onde simplesmente copiaram soluções pré-feitas. Queremos que cada cidade, cada região encontre a sua relevância local. E é superinteressante porque essas questões também são enfrentadas na Europa Ocidental e no resto do mundo: como não ser genérico, como ser especificamente de um lugar - porque sabemos que a resiliência, económica, climática, está em encontrar a resposta certa para o lugar certo.
A paisagem ucraniana mudou, claro, particularmente devido à destruição. Mas o que me interessa igualmente no trabalho do Martin é, por exemplo, o que fez em Izium e Mykolaiv, onde os residentes - tanto os que ainda lá vivem como os que se deslocaram - são consultados. Eles não planeiam diretamente a reconstrução, mas são "vozes ativas". Como é que essa dinâmica funciona?
Esta sociedade cívica na Ucrânia é muito dinâmica. Uma coisa que aprendi realmente nestes últimos três anos é que todos têm algo a dizer, sabe? Estão nas redes sociais ou na vida real, expressam-se e a liberdade de expressão é algo que eles conquistaram e merecem. E, por isso, eles são bastante faladores sobre os projetos urbanos ou arquitetónicos que estamos a desenvolver.
É muito interessante, na verdade, interagir sobre esses tópicos e envolvê-los durante o processo. O que tentamos fazer é, em primeiro lugar, compreender as necessidades locais. Pedimos-lhes para participar nestas reuniões, que podem ser online ou presenciais. Existem várias maneiras de envolver as pessoas, mas sempre que comparo com o que vi na Europa Ocidental, vejo isso de forma muito mais viva e cheia de energia.
Mesmo o tema de realizar um projeto pode ser discutido. “Porque devemos gastar um euro em espaço público em vez de dar esse um euro à linha da frente?” Essas questões surgem constantemente: qual é o propósito destes projetos se a nossa existência está em risco? E isso é completamente pertinente.
Portanto, Mykolaiv, como outras cidades, recebeu e tentou impulsionar diferentes projetos sobre espaço público, infraestrutura social e uma visão urbana mais longa para as suas cidades. Todos eles são muito relevantes. E quero dizer novamente que a lei de descentralização na Ucrânia tem 10 anos agora. Portanto, cada cidade, cada comunidade, desenvolveu a sua própria capacidade de realizar projetos, de envolver as pessoas e de tentar fazer isso da melhor forma possível, mas ainda está em progresso, e a governança está a ser, digamos, melhorada. E precisamos de ajudar nesse processo, porque, mais uma vez, tem apenas 10 anos, e é uma grande mudança quando estamos habituados a ter tudo centralizado. Era o mesmo na época soviética.
Agora, eles podem e devem construir os seus próprios projetos. E isso não é apenas sobre arquitetura ou design urbano. Trata-se realmente de planeamento. Trata-se dos recursos humanos na cidade. E como muitas pessoas estão na linha da frente ou muitas se mudaram para fora do país, é um grande desafio, e precisamos dessas pessoas de volta para o futuro do país.
Trabalhou em diferentes países, incluindo em África e no Sudeste Asiático - regiões que descreveria como muito pobres. Certamente viu muitas coisas por lá. A situação na Ucrânia é de alguma maneira comparável ao que observou noutros lugares? E outra questão ainda: será mais desafiante intervir num contexto de guerra do que num contexto de pobreza ou de desastre natural?
Os desafios são muito diferentes. Não diria que é mais desafiante ou menos desafiante, é apenas muito diferente.
Na Ucrânia, temos pessoas muito bem-educadas. Temos um país que está sob ataque constante. Portanto, temos os desafios logísticos, os desafios de recursos, porque as pessoas estão ocupadas a fazer outras coisas. Mas, por outro lado, podemos falar com elas, podemos interagir com elas de uma maneira muito fácil, porque há um quadro cultural mais amplo que facilita muito.
E como estive envolvido no país durante 10 anos, para mim é bastante fácil. Ao contrário de ir, sei lá, a Madagascar ou ao Camboja, onde o número de pessoas com quem interagirás nesse nível eleitoral será um pouco menor. Não porque sejam menos inteligentes, mas porque eu estou um pouco afastado do seu mundo e da maneira de pensar deles, e isso é outro desafio para entender as necessidades e perceber onde posso ser útil para eles, ou se a arquitetura tem algum significado para eles ou não, ou se esse tipo de projeto funcionaria para eles ou não.
Noutros países, lembro-me de ter trabalhado no Nepal, numa zona muito pobre, e eles não falavam inglês. E isso foi um grande desafio para nós. Estávamos a trabalhar com as mãos na lama, a fazer os espaços públicos desta aldeia. Claro que precisei de encontrar um tradutor, alguém que fosse o intermediário, e sem essa pessoa, qualquer projeto teria sido impossível. Então, estamos a falar de diferentes níveis de desafios.
Vamos falar sobre financiamento. Sei que recebeu apoio financeiro do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento em Mykolaiv, da Expertise France em outro caso, e do Banco Europeu de Investimento em mais um caso. É difícil conseguir financiamento? Alguns projetos permanecem só “no papel” por falta de dinheiro? Uma parte significativa do financiamento, naturalmente, ainda está a ser direcionado para a linha da frente da guerra.
É muito difícil conseguir financiamento. É, de facto, uma outra parte do trabalho. Porque, como estou baseado em Paris e como estamos em contacto com os doadores, tentamos impulsionar os projetos, tentamos ajudar as cidades com as suas necessidades e conseguir o financiamento. Mas, claro, estamos longe de ter tudo o que precisaríamos. Por isso, estamos a lutar. Temos de fazer cortes no orçamento dos projetos e as cidades que mais sucesso têm são as que investiram nos seus recursos humanos dedicados à busca de doadores e financiamento.
É importante entender que todas estas grandes instituições, como o Banco Mundial, têm processos de conformidade e grandes processos burocráticos. Portanto, não é fácil entrar. Não é realmente fácil ganhar - vamos pôr assim. Este é um processo necessário, mas também é um processo doloroso.
Certamente conhece o “Plano Marshall”. Na altura, para reconstruir a Europa pós Segunda Guerra Mundial foi feito um investimento de 168 mil milhões de dólares. Hoje, e apenas para a Ucrânia, o governo ucraniano, o Banco Mundial, a Comissão Europeia e as Nações Unidas estimam que será necessário um investimento de 486 mil milhões de euros. Este parece-lhe um valor realista? Ou insuficiente?
Quando falamos sobre a reconstrução na Europa, lembramo-nos do Plano Marshall na altura, sim, da reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Eu não sou um especialista em macroeconomia. Mas quando vejo a enorme destruição e as necessidades de todas as infraestruturas, infraestruturas energéticas, de água, a poluição massiva do rio Dnipro causada pela guerra, a poluição massiva dos campos agrícolas causada pelos bombardeamentos, o número de edifícios destruídos, os milhões e milhões de metros quadrados de vidros e janelas destruídas… [pausa] Não sei.
Ouvi falar desses 486 mil milhões de euros de necessidades. Até já ouvi falar de mil milhões. Aqui estão a falar de metade disso. O que sei é que a área da invasão em grande escala é extremamente vasta. O país é muito grande e as consequências desta invasão são multidimensionais. Portanto, não me surpreende que estejamos a falar de um segundo “Plano Marshall” para a Ucrânia.
"Não queremos repetir os erros que vimos nos Balcãs." Disse-me ainda agora. Quais foram esses erros arquitetónicos, de reconstrução, cometidos?
As cidades são como ecossistemas. O problema é que a maioria das agências geralmente trabalha de forma compartimentada. Uma cuida da habitação, a outra da infraestrutura, a terceira da governação. Cada agência ou grande instituição apenas trata daquilo que está dentro da sua agenda e do que lhe compete fazer. O problema é que a cidade e o lugar, e as pessoas, não são apenas aquelas que vivem nas casas. Elas também trabalham, usam infraestruturas. Por isso, precisamos de uma visão global das necessidades de um território, de uma região, de uma cidade.
E é aqui que estamos a falhar, faltando essa visão global. O que aconteceu nos Balcãs foi que reconstruíram tudo o que podiam para ajudar as pessoas a reconstruir as suas casas, mas esqueceram-se do lado económico. Porque se tu queres voltar à tua cidade, tudo bem, mas se não tiveres trabalho, isso é um problema. E aquela pessoa fica seis meses e depois sai de novo.
O que digo a cada governador na Ucrânia é que devemos garantir que a parte económica e de negócios da reconstrução esteja no topo das prioridades. Caso contrário, não conseguiremos manter as pessoas nessas cidades e elas irão embora. E depois será muito difícil trazê-las de volta.
Por isso, quero que esta camada local e esta prioridade local para a reconstrução estejam na agenda. Se importarmos tudo, perdemos a oportunidade de aproveitar o ecossistema económico local. E é por isso que lançamos uma iniciativa nacional sobre recursos locais e economia circular. Como podemos reutilizar todos esses escombros? Como podemos reutilizar todas essas enormes consequências de destruição, danos nos edifícios? Eles devem ser o primeiro material para a reconstrução. E se fizermos isso, criamos empregos locais. Criamos empresas locais e também criamos saberes locais. Isso é tudo o que deve ser aproveitado.
Permita-me uma pergunta mais pessoal: qual é o propósito da arquitetura - o tipo de arquitetura que pratica - num contexto como o da Ucrânia?
O propósito da arquitetura é unir as pessoas. O processo em si é unir as pessoas para olhar na mesma direção, para o mesmo objetivo, para um objetivo comum. O objetivo da arquitetura também é fornecer. Fornecer novamente essa imagem de abrigo. Essa proteção de uma comunidade, de uma família, não apenas pela proteção física, mas também pela proteção mental. Porque traz calma, traz paz às suas mentes. Traz realmente essa primeira camada de proteção mental, e isso é muito importante, e isso é cultura. É dar forma a estas necessidades em algo físico, um espaço concreto. Como tratamos a luz, o espaço, os exteriores e interiores.
Isso é a primeira plataforma cultural que partilhamos, e é muito importante, mesmo em tempos de guerra. Para encontrar essa capacidade de criar cultura na arte. Isso é extremamente importante porque coloca as pessoas em ação. E a olhar para a frente. Isso é extremamente positivo e é uma maneira de resistir ao terror de que estamos a sofrer.
Última pergunta, Martin, e que foi o que me levou a entrar em contacto consigo: como se reconstrói um país?
Acima de tudo, a reconstrução não é sobre materiais. É sobre a mentalidade, é sobre as pessoas. Queremos reconstruir o país porque queremos reconstruir as pessoas. Queremos fazê-las ficar de pé novamente, mesmo que tenham perdido as pernas. Queremos fazê-las olhar para a frente, mesmo que tenham perdido os olhos.
Por isso, estamos todos aqui para ficar de pé e trabalhar juntos e, novamente, olhar para o mesmo objetivo comum. E é isso que estou a tentar fazer. E é por isso que, sempre que volto da Ucrânia, estou cheio de energia, mesmo que seja difícil. Mesmo que as notícias do dia não sejam fáceis de ouvir. E estamos, ainda assim, a pensar positivamente no futuro, porque estamos a fazer as coisas juntos.
