Como os mísseis balísticos russos estão a explorar as falhas das defesas aéreas da Ucrânia

CNN , Nathan Hodge
7 ago, 08:11
Esta fotografia mostra o fogo e o fumo a subir de um armazém destruído durante os ataques maciços com mísseis balísticos e drones russos nos arredores de Kiev, na madrugada de 5 de agosto de 2026, no contexto da invasão russa da Ucrânia. Roman Pilipey/AFP/Getty Images
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Os ataques aéreos russos de grande escala contra a Ucrânia são complexos: um ataque concentrado nas regiões de Kiev e Lviv, na noite de 30 de junho, levou a Rússia a lançar quatro mísseis antinavio, nove mísseis balísticos, 61 mísseis de cruzeiro, mas não só

A maior ameaça às cidades ucranianas pode atingir com pouco ou nenhum aviso.

Nos últimos meses, a Ucrânia conseguiu colocar a Rússia sob pressão com ataques que atingiram a capacidade de refinação de petróleo russa, provocaram longas filas em postos de combustível e incendiaram centros logísticos comerciais. No entanto, a Rússia explorou uma vulnerabilidade crucial da Ucrânia — a escassez de interceptores de mísseis balísticos — para lançar ataques de mísseis de alta velocidade contra cidades ucranianas, combinados com outros ataques de longo alcance que já provocaram centenas de mortes entre civis.

Numa única noite desta semana, uma barragem de mais de duas dezenas de mísseis balísticos e antinavio atingiu a região da capital ucraniana. Todos os mísseis ultrapassaram as defesas ucranianas, matando pelo menos 17 pessoas e ferindo dezenas de outras.

Os ataques aéreos russos de grande escala contra a Ucrânia são complexos: um ataque concentrado nas regiões de Kiev e Lviv, na noite de 30 de junho, levou a Rússia a lançar quatro mísseis antinavio, nove mísseis balísticos, 61 mísseis de cruzeiro e perto de 300 drones de ataque contra alvos em todo o país, segundo a Força Aérea da Ucrânia.

No entanto, os mísseis balísticos russos parecem ser a ameaça que mais preocupa a liderança ucraniana. As ofensivas russas com mísseis balísticos surgem numa altura em que Kiev procura desesperadamente reabastecer as reservas de interceptores Patriot, de fabrico norte-americano, um dos poucos sistemas capazes de destruir um míssil balístico.

Há quanto tempo são utilizados os mísseis balísticos?

Os mísseis balísticos não são uma novidade na guerra: a Alemanha nazi estreou o foguetão V-2 durante a Segunda Guerra Mundial e a chamada “guerra das cidades”, durante o conflito entre o Irão e o Iraque nos anos 80, ficou marcada por sucessivas vagas de mísseis Scud — descendentes do V-2 — que causaram destruição em populações civis. No entanto, a tecnologia para intercetar mísseis balísticos evoluiu significativamente desde a Guerra Fria. O interceptor PAC-3 do sistema Patriot dirige-se diretamente ao alvo, destruindo-o através da sua energia cinética, em vez de utilizar uma ogiva explosiva — resumidamente, uma bala a atingir outra bala.

Num comunicado divulgado na quarta-feira, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, apelou ao envio de mais interceptores.

“Os interceptores de mísseis balísticos poderiam ter salvado a vida das pessoas que morreram hoje”, afirmou. “É muito importante que os nossos parceiros compreendam que atrasos no fornecimento destes sistemas, ou a falta de vontade em disponibilizar sistemas antibalísticos, conduzem diretamente a um número tão elevado de vítimas e destruição. Os parceiros que ainda não estão preparados para desempenhar um papel mais ativo no fornecimento de interceptores podem ajudar através da imposição de novas sanções. Uma parte significativa da produção de mísseis balísticos da Rússia continua sem estar sujeita a sanções.”

Um polícia está ao lado de corpos dentro de sacos de plástico, de pessoas mortas durante ataques russos com mísseis balísticos e drones, numa estação ferroviária na região de Kiev, a 5 de agosto de 2026, no contexto da invasão russa da Ucrânia. Mykola Tymchenko/AFP/Getty Images

Quais são as principais ameaças às cidades da Ucrânia?

A ameaça às cidades ucranianas pode ser dividida, em grande medida, em três categorias: mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones, normalmente lançados a partir de território russo ou de zonas ocupadas da Ucrânia. Mais perto da linha da frente, os russos têm recorrido a drones de ataque de menores dimensões para aterrorizar áreas civis, atingindo postos de combustível e veículos. Ainda esta semana, um vendedor ambulante de comida, na região sul de Kherson, escapou por pouco a um ataque de um drone FPV, num episódio frequentemente descrito como um “safari de drones”.

A Ucrânia já demonstrou a sua capacidade e criatividade para contrariar os drones russos. Estes aparelhos são relativamente baratos e abundantes: a Rússia produz em massa o Geran-2, uma versão do drone Shahed, de origem iraniana, tendo ainda introduzido melhorias, como motores a jato e drones de engano, para aumentar a eficácia dos ataques. Ainda assim, a Ucrânia dispõe de um sistema de defesa em várias camadas contra estes aparelhos relativamente lentos, e a sua experiência no combate a drones tornou-se particularmente valorizada após a guerra entre os Estados Unidos e o Irão.

Os mísseis de cruzeiro transportam, normalmente, uma carga explosiva muito superior à de um drone. Movidos por motores a jato, conseguem voar muito perto do solo para evitar serem detetados. Segundo a Missile Defense Advocacy Alliance, o Kalibr — um míssil de cruzeiro lançado a partir de navios e submarinos russos — pode voar a cerca de 20 metros sobre o mar ou a aproximadamente 50 metros de altitude sobre terra.

Um míssil balístico, por outro lado, segue uma trajetória e velocidades muito diferentes. Impulsionado por motores-foguete, descreve uma trajetória elevada antes de descer em direção ao alvo. O alcance varia, mas a velocidade é extrema: o míssil balístico russo de curto alcance Iskander voa entre seis e sete vezes acima da velocidade do som e pode transportar até 700 quilogramas de explosivos. Já um míssil balístico intercontinental de longo alcance — originalmente concebido para transportar ogivas nucleares para fora da atmosfera antes da reentrada — consegue percorrer a distância entre uma base de lançamento nos Estados Unidos, passando pelo Círculo Polar Ártico, até um alvo na Rússia em cerca de 30 minutos ou menos, praticamente o mesmo tempo necessário para entregar uma pizza. Nos ataques mais recentes contra Kiev , as sirenes de alerta aéreo soaram praticamente ao mesmo tempo que os impactos.

A Rússia disparou o míssil Oreshnik, uma arma hipersónica de alcance intermédio, em apenas algumas ocasiões contra a Ucrânia, em ataques vistos como um sinal da disposição de Moscovo para escalar o conflito. Ainda assim, sistemas de curto alcance como o Iskander continuam a ser o principal instrumento das forças russas. As autoridades ucranianas afirmam ainda que a Rússia adaptou mísseis de defesa antiaérea S-400 para funcionarem como mísseis balísticos destinados a atacar alvos ucranianos.

Uma moradora de um edifício residencial de vários andares danificado segura a filha na sequência de um ataque com mísseis russos contra a capital ucraniana, Kiev, a 6 de julho de 2026, no contexto da invasão russa da Ucrânia. Genya Savilov/AFP/Getty Images

Que diferença faria a produção de mísseis Patriot para a Ucrânia?

Perante a escassez de interceptores e o agravamento dos ataques às cidades, Kiev tem pressionado Washington para coproduzir o sistema Patriot. À margem da cimeira da NATO, realizada no mês passado em Ancara, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu sinais de que poderia aceitar licenciar a coprodução ucraniana do Patriot. No entanto, na semana passada, pareceu afastar essa possibilidade ao afirmar: “Estamos a falar sobre isso, mas é muito difícil disponibilizar esse tipo de tecnologia.”

Ao mesmo tempo, responsáveis ucranianos afirmam que a Rússia está a reforçar o seu arsenal com mísseis balísticos fornecidos pela Coreia do Norte, aumentando ainda mais a ameaça.

Vladyslav Vlasyuk, enviado presidencial ucraniano para as sanções, afirmou que a Ucrânia identificou um míssil norte-coreano KN-23 — equivalente ao Iskander russo — que recentemente destruiu uma casa em Radushne, na zona rural da região de Dnipropetrovsk, matando seis pessoas, entre elas três crianças, enquanto outras cinco permaneciam desaparecidas após o ataque.

“O KN-23 é praticamente uma réplica exata do Iskander russo. Partilham inclusivamente componentes idênticos, incluindo peças de fabrico ocidental. Este é mais um exemplo da dependência da Rússia da ajuda militar da Coreia do Norte. Os mísseis norte-coreanos matam civis ucranianos da mesma forma que os russos”, afirmou.

E a falha da Ucrânia na defesa contra mísseis poderá agravar-se devido à guerra entre os Estados Unidos e o Irão. Como a CNN noticiou esta semana, as forças armadas norte-americanas já consumiram quase quatro quintos do stock de outro sistema de defesa antimíssil, o Terminal High-Altitude Area Defense (THAAD), segundo várias fontes familiarizadas com o assunto. Ao mesmo tempo, o inventário de interceptores Patriot diminuiu cerca de metade desde o início da guerra, segundo duas fontes conhecedoras do relatório mais recente sobre as reservas.

“A defesa contra mísseis balísticos continua a ser um problema muito difícil”, afirmou a analista militar Dara Massicot, numa publicação na rede social X, após uma recente visita de investigação à Ucrânia. “Os problemas relacionados com os interceptores Patriot são conhecidos. A Ucrânia sabe o que tem de fazer e, na minha opinião, chegou o momento de ponderar um Plano B e um Plano C para reduzir a capacidade de lançamento da Rússia.”

Enquanto Kiev pondera esses Planos B e C, o tempo continua a correr contra as cidades ucranianas, numa altura em que a Rússia prossegue a expansão da sua campanha de ataques com mísseis.

Svitlana Vlasova, da CNN, contribuiu para este artigo.

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