A pequena Masha perdeu a irmã gémea e o avô num bombardeamento em Mariupol. Reportagem exclusiva no hospital de Donetsk com crianças feridas na guerra

Bruno Amaral de Carvalho em Donetsk para a CNN Portugal
6 abr, 22:01

O jornalista português Bruno Amaral de Carvalho, que está a acompanhar as tropas russas na Ucrânia, visitou a ala pediátrica de uma unidade de traumatologia e registou testemunhos duros

Muitas das crianças ucranianas feridas pelos combates em Mariupol estão a ser tratadas no hospital regional de Traumatologia de Donetsk, na região separatista do Donbass. A principal capital separatista tem recebido milhares de refugiados e os feridos estão a ser tratados em centros hospitalares da região mas também na Rússia.

O jornalista português Bruno Amaral de Carvalho, que está a acompanhar o lado russo da guerra na Ucrânia, visitou a ala pediátrica onde dezenas de crianças recuperam das feridas e registou testemunhos duros, como o de uma menina que perdeu os pais e o de um homem que viu morrer uma filha.

"Temos aqui cerca de 50 crianças, com traumas diversos. São traumas relacionados com explosões, maioritariamente nos membros, com fraturas internas ou expostas", explica o médico Evgeny Zhilitsyn.

Uma delas, Masha, de oito anos, perdeu a irmã gémea, Lena, e os avós num dos muitos bombardeamentos de Mariupol. O pai, Sergey, recordou em palavras o dia que não deixa os seus pensamentos.

"Comecei a ouvir o rugido dos motores e disse logo às minhas filhas: 'no chão'. E elas deitaram-se rapidamente. Dois segundos depois ouvimos um estrondo muito grande e ficámos paralisados debaixo dos escombros. Tentámos gritar mas estava a sufocar com o pó e comecei a sentir o cheiro de algo a arder. Percebi que o mais assustador era que podíamos morrer queimados vivos. Retirámos a Lena e eu tentei fazer respiração boca a boca para conseguir reanimá-la. Mas ela já estava roxa quando a tirámos dos escombros", contou.

Além da filha, Sergey viu ainda morrer o pai e a avó da mulher. E teve de enterrar os três corpos na rua.

Chegaram a Donetsk apenas com a roupa que traziam vestida, sem documentos e sem esperança. Nos braços levava Masha, que sobreviveu ao ataque apesar de ter sofrido ferimentos graves, como uma fratura exposta na mão.

"Quando retirei a Masha dos escombros tinha a mão pendurada", contou, já sem o aperto de ver a filha em sofrimento.

De braço ao peito, a pequena Masha já desenha e pinta, à espera de melhores dias.

Estão em Donetsk desde 24 de março, mas a vida ficou algures no passado em Mariupol.

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