“O problema, porém, não é apenas a suspeita em si. É o momento. É a interseção entre o desgaste psicológico da guerra, o cansaço político interno e a perceção externa de que Zelensky pode estar a perder o controlo do ecossistema que o tornou credível aos olhos da Europa.”
Vasily Grossman, escritor soviético nascido na Ucrânia, lembrava que “em tempos de guerra, o carácter dos homens e dos Estados revela-se como metal ao fogo: o que é frágil quebra, o que resiste transforma-se.” É difícil imaginar metáfora mais justa para Volodymyr Zelensky, que ocupa a presidência da Ucrânia desde maio de 2019 e que há mais de três anos atravessa o fogo de uma guerra.
Entre a resistência heroica e o desgaste político, entre a liderança inspiradora e as suspeitas de corrupção que hoje pairam sobre o seu círculo, Zelensky enfrenta o teste supremo: tentar não quebrar e, ao mesmo tempo, transformar o país que representa no seu caminho para a Europa.
A política raramente concede tréguas a quem governa em tempo de guerra. Volodymyr Zelensky tornou-se, desde fevereiro de 2022, o rosto de uma resistência quase épica, um símbolo de coragem nacional e de esperança europeia. Mas símbolos não são eternos, e a política não é terreno para santos. A revelação recente e perturbadora, de um escândalo de corrupção ao mais alto nível do Estado, investigado pela NABU e pela procuradoria especializada - SAPO, veio expor a zona cinzenta onde se cruzam poder, lealdades antigas e a fadiga de uma guerra prolongada.
Segundo a investigação do The Spectator, trata-se de um esquema de cerca de 100 milhões de dólares envolvendo contratos no sector energético e figuras ligadas ao círculo histórico de negócios de Zelensky. A isto soma-se uma tentativa, há apenas quatro meses, de o Presidente procurar controlo direto sobre as estruturas independentes de combate à corrupção a NABU e a SAPO, gesto que alarmou os parceiros europeus, principalmente a França e a Alemanha, sempre sensíveis a tentativas de captura institucional num país onde a luta anticorrupção é condição de sobrevivência externa.
O problema, porém, não é apenas a suspeita em si. É o momento. É a interseção entre o desgaste psicológico da guerra, o cansaço político interno e a perceção externa de que Zelensky pode estar a perder o controlo do ecossistema que o tornou credível aos olhos da Europa. É aqui que nasce a pergunta incômoda, mas inevitável: será Zelensky ainda uma mais-valia para a Ucrânia, ou começa ele próprio a tornar-se um risco estratégico?
A questão não deve ser confundida com ingratidão. A Ucrânia existe hoje como Estado funcional, e resiste como nação, graças à determinação que Zelensky soube encarnar quando tudo parecia perdido. Mas a política externa europeia e a arquitetura de segurança da UE não podem viver apenas de gratidão retroativa. Têm de olhar para o cenário futuro: eleições ucranianas adiadas pela guerra, fadiga do eleitorado, crescente pressão oligárquica, e sobretudo a possibilidade real de uma interferência russa direta num processo eleitoral realizado em plena vulnerabilidade.
A queda abrupta de Zelensky, num ambiente politicamente envenenado e com escândalos por esclarecer, poderia abrir espaço a líderes mais ambíguos ou mais permeáveis à influência de Moscovo. Esse cenário seria, para a Europa, um desastre estratégico e de segurança de que levaríamos uma geração a recuperar.
A reflexão que hoje se impõe exige maturidade política do Ocidente e frieza analítica dos decisores europeus. Não basta defender a Ucrânia no campo de batalha; é preciso defender a sua trajetória europeia, que é simultaneamente a sua barreira geopolítica contra a Rússia. A entrada da Ucrânia na União Europeia ainda que longa, técnica e institucionalmente exigente é o verdadeiro seguro de vida estratégico do continente. A corrupção é um obstáculo real, e deve ser enfrentado; mas a demora de integração da Ucrânia, ou um afastamento brusco de Zelensky sem estrutura de substituição democrática sólida, pode ser ainda pior.
É aqui que o escândalo assume toda a sua gravidade. O Spectator descreve uma teia incómoda que envolve empresários influentes, contratos públicos e figuras próximas do círculo profissional do Presidente, incluindo antigos parceiros na produtora Kvartal-95. A investigação cita “sanitas de ouro”, malas de notas, gravações autorizadas, e uma dezena de buscas em empresas ligadas ao sector energético, o tipo de narrativa que desperta, dentro e fora da Ucrânia, a memória amarga do país que existia antes de 2022, vulnerável a redes informais de poder, oligarcas predatórios e corrupção estrutural.
A tentativa de Zelensky, meses antes, de reforçar o controlo do Executivo sobre a NABU e a SAPO tornou o quadro mais preocupante. Para os parceiros europeus, o sinal foi claro: o Presidente estava a tentar aproximar-se demasiado das instituições que deveriam investigar precisamente este tipo de casos. Mesmo que não haja dolo, a percepção é devastadora. E a política internacional vive tanto de percepções como de factos.
Mas seria um erro, um erro europeu, transformar este episódio num argumento para enfraquecer a Ucrânia ou para deslegitimar Zelensky de forma precipitada. O verdadeiro debate não é moral, é estratégico. O que está em causa é o equilíbrio delicado entre manter um aliado funcional e garantir a regeneração institucional de um país que aspira entrar no maior bloco democrático do mundo. O que está em causa é impedir que a fadiga, as suspeitas ou os escândalos internos criem a tempestade perfeita para Moscovo recapturar politicamente aquilo que não conseguiu conquistar militarmente.
A Europa tem aqui duas tarefas simultâneas. A primeira é apoiar de forma inequívoca a continuidade institucional da Ucrânia, garantindo que Zelensky não cai num vácuo que seria imediatamente explorado pela Rússia. A segunda é ajudar, discretamente, mas firmemente, a preparar uma transição política ordenada, o quando antes, que permita ao país evoluir para um modelo mais transparente, mais estável e mais europeu.
Transição não significa afastar Zelensky à força, nem substituir escolhas democráticas. Significa garantir que, quando a Ucrânia decidir, o fará com instituições mais fortes do que qualquer indivíduo, e com uma sociedade protegida da manipulação externa.
A pior coisa que a Europa poderia fazer seria deixar que este escândalo se transforme numa crise existencial. A melhor é compreender que Zelensky continua a ser, hoje, o rosto mais legitimado para representar a Ucrânia perante o Ocidente, mas que isso não o torna intocável. O equilíbrio entre apoio e exigência é a única forma de preservar a integridade do país e evitar que uma derrota política inesperada abra as portas a uma viragem pró-Moscovo no pior momento possível.
A Ucrânia lutou, sangrou e resistiu para fazer parte da Europa. A Europa não pode agora permitir que esse caminho se quebre por desgaste político ou por escândalos que, embora graves, são solucionáveis com maturidade institucional.
A defesa da Ucrânia faz-se no campo de batalha, mas também se faz nas urnas, nos tribunais, nas reformas e na credibilidade do Estado. Zelensky, com virtudes e erros, ainda pode ser uma ponte entre a Ucrânia de guerra e a Ucrânia europeia do futuro. Mas cabe à Europa assegurar que a travessia dessa ponte não se faz às escuras.