opinião
Psicólogo, Presidente da Delegação Regional Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. A Guerra e o Medo

2 mar 2022, 10:27

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

A guerra e o medo ou o medo da guerra?

O medo decorrente de antecipação ou vivência real de determinada ameaça é uma das emoções do ser humano.

Esta guerra atual, vivida por uns e presenciada por outros, implica naturalmente emoções diferentes.

O medo concreto e real já não de uma ameaça, mas sim de uma realidade vivida a cada minuto, a cada hora e a cada dia, provoca reações mais intensas e mais sofrimento a quem o experiencia. Medo que vai muito mais além do que perdas materiais e/ou relacionais. Medo objetivamente da perda da própria vida. É o confronto do ser humano desprotegido com a sua vulnerabilidade, fragilidade, impotência e, sobretudo, existência. Contudo, se no presente a sobrevivência é um anseio legítimo para cada pessoa envolvida diretamente nesta guerra, o futuro é seguramente também uma preocupação. É a experiência do aqui e do agora, mas impregnada do amanhã. Esta é a situação em que efetivamente a guerra provoca medo, onde um porquê e um para quê pode mitigar essa emoção. É o que assistimos do povo ucraniano, quando homens deixam as suas mulheres e filhos, encontrando um dever maior na proteção do seu território. É o que assistimos às mulheres e crianças que vêm os seus maridos e pais a enfrentarem as tropas invasoras. É o que assistimos a pais que vêm os seus filhos a lutarem até à morte para defenderem o seu território. Este é o medo da morte quando se luta pela vida.

O medo da guerra, vivido por quem à distância visiona imagens trágicas e horrendas, é sempre um medo deferido, quer por medo relacionado com a presença de familiares ou amigos no território em guerra quer pelo medo de perdas futuras. Ainda na passada quinta-feira, me contava um professor do ensino secundário que tinha alterado o programa da aula desse dia, em virtude dos alunos terem solicitado que fosse abordada a atual situação de guerra e quanto isso poderia ter implicações nas suas vidas futuras. Aqui, as preocupações com as perdas que poderão decorrer de uma guerra geograficamente distante, mas solidariamente perto, terão sido das questões mais colocadas por estes alunos. Esta é a diferença nuclear que a nível psicológico também deve ser entendida. Existe um perto e um distante e cada condição psicológica e emocional deverá ser vivida partindo desse pressuposto. Daí decorrerão medos e receios diferentes, entre o estar ou não na guerra.   

Todos os que vivenciam esta guerra de forma deferida, o medo da guerra deve convocar para atitudes solidárias e humanas. Naturalmente, numa projeção de futuro, também existirão medos e receios lícitos. Será importante um olhar realista sobre a vida de cada um e a sua situação concreta e real no presente.

Em ambas as condições, viver a tragédia da guerra na primeira pessoa ou viver a tragédia da guerra de forma deferida, a esperança pode e deve ser a alavanca que possibilite minorar o sofrimento de cada um de nós. Infelizmente, per se, a esperança não será suficiente para o equilíbrio psicológico, mas contribui de forma significativa para que o mesmo possa ser atingido.

É relevante que também as atitudes e comportamentos individuais sejam acompanhados ao nível dos Estados. Será com uma comunicação assertiva, genuína e verdadeira, que pode e deverá ser potenciada pela ciência psicológica, que o confronto com acontecimentos trágicos como a guerra venha a ter a medida exata do sofrimento a cada tempo e contexto.  

Relacionados

Colunistas

Mais Colunistas

Mais Lidas

Patrocinados