Vladimir Putin não vai parar e o objetivo não mudou um único centímetro, o que está a gastar a paciência de Donald Trump, que se começa a alhear da guerra. Pelo meio aparece a Europa a cheirar uma oportunidade
Lá bem longe de se imaginar uma rebelião que acabaria numa morte misteriosa, Yevgeny Prigozhin decidiu fundar um grupo militar privado para ajudar o amigo Vladimir Putin num objetivo muito concreto. Era preciso conquistar o Donbass, a junção das regiões de Lugansk e Donetsk.
Uma decisão tomada em 2014, quando militares pró-russos, e não a Rússia de facto, entraram pela Ucrânia adentro para autoproclamarem duas repúblicas populares que queriam a independência de Kiev e passar a responder à Rússia.
Mais de 10 anos depois, Vladimir Putin consegue, mesmo que a muito custo, apresentar uma dessas conquistas. Lugansk, uma das maiores regiões da Ucrânia, é agora totalmente russa, de acordo com o governador apontado por Moscovo para o território.
Falando sobre o que se passa no terreno, o major-general Agostinho Costa aponta uma “vantagem inequivocamente russa”, mesmo que isso vá custando centenas de vidas todos os dias.
O militar acredita que a Rússia vai procurar “esgotar até aos limites” a sua ofensiva no Donbass, sendo crucial a conquista total de Donetsk. Mas para por aí?
Agostinho Costa acredita que não, defendendo que Vladimir Putin vai avançar para conseguir também o controlo total de Zaporizhzhia e Kherson. “É uma proposta de difícil aceitação por parte da Ucrânia, a não ser que Donald Trump surja neste processo como surgiu no conflito iraniano e se imponha à Ucrânia”, reforça.
Tudo isto numa lógica russa de atrasar qualquer processo de paz. Segundo Sónia Sénica, investigadora integrada do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (IPRI), é isso que Vladimir Putin continua a fazer, iludindo o Ocidente, sobretudo Donald Trump, quanto ao verdadeiro desejo de chegar a uma solução.
“Essa estratégia dual por parte de Moscovo não mudou. Essa perceção de que manter a dimensão estratégico-militar poderá trazer mais projeção negocial no âmbito da negociação político-diplomática mantém-se”, aponta.
E é algo que vem ainda antes do tempo de Donald Trump na Casa Branca, ainda que o novo presidente dos Estados Unidos tenha assumido como prioridade o fim imediato da guerra. Já sabemos que prometeu 24 horas, depois 100 dias, mas a situação continua praticamente inalterada.
Sónia Sénica lembra que a Rússia continua a dizer o mesmo: as causas fundamentais que justificam a invasão mantêm-se, nomeadamente a ameaça da NATO e de uma eventual adesão da Ucrânia à Aliança Atlântica.
Macron coloca Europa na discussão
Alheada das relações entre Donald Trump e Vladimir Putin, a Europa vai tentando reentrar no cenário da guerra. No cenário diplomático, bem entendido.
Sónia Sénica vê a chamada entre os presidentes da Rússia e de França como algo “significativo para voltar a reabrir o canal de diálogo com Moscovo”.
“É a Europa a ter um lugar importante, não só no futuro da Ucrânia, mas também do que será a nova arquitetura de segurança do continente europeu”, reitera, falando sobre um telefonema que durou cerca de duas horas, e no qual Emmanuel Macron voltou a fazer saber a Vladimir Putin a posição francesa.
Agostinho Costa concorda com a relevância desta chamada, que não acontecia há quase três anos, sendo que Emmanuel Macron foi sempre a voz de partida da Europa na relação com Vladimir Putin desde a invasão da Ucrânia.
“Na situação em que o conflito está e ao tempo que se arrasta, com os riscos de escalada de passar de um conflito local para regional… as partes podem não jantar umas com as outras, nem ser amigos, mas articulam-se no mínimo. É uma boa notícia que tenham falado”, aponta.
Olhando para os Estados Unidos, o major-general vê um afastamento da parte de Donald Trump, até mesmo com algum desaparecimento da agenda ucraniana da reunião da cimeira da NATO que decorreu na semana passada em Haia, Países Baixos.
Perante o aparente aborrecimento do presidente norte-americano com a questão - e com o afastar de prioridade perante o aparecimento do conflito entre Israel e Irão -, Sónia Sénica avisa que é preciso perceber “quem será responsável” pelo apoio às negociações entre ambas as partes.
“Já percebemos que [a paz] não foi alcançada sob mediação norte-americana”, sublinha, para admitir que existe uma dúvida sobre se será a Europa a conseguir fazê-lo.
Desde logo porque são diferentes países, mesmo que seja mais ou menos consensual que é preciso apoiar a Ucrânia. “Neste momento temos uma competição entre a Alemanha e a França para ocupar essa espécie de liderança europeia”, acrescenta a investigadora do IPRI, que vê em Friedrich Merz um chanceler com prioridade em resolver a guerra.
“Emmanuel Macron terá sido impelido por não querer ficar atrás da posição alemã”, completa Sónia Sénica, falando na “Troika europeia”, com o Reino Unido a juntar-se aos dois parceiros do continente na liderança da visão externa.