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"A Rússia é como um vizinho bêbedo. Um dia, vem à tua casa e quer queimá-la. Noutro, vem sóbrio e pede perdão"

28 abr 2023, 17:15
Os russos destruíram grande parte da cidade de Bakhmut, da qual 90% da população fugiu. CNN

Estima-se que entre 150 a 200 voluntários chechenos estejam na Ucrânia a combater ao lado dos soldados de Volodymyr Zelensky. Estão divididos em três batalhões e acreditam que, ao lado de Kiev, estão também a lutar pela Chechénia

Primeiro, uma vitória da Ucrânia, depois a libertação da Chechénia: "Depois da Ucrânia, será a Chechénia". As palavras são do comandante de um batalhão de voluntários chechenos que combatem ao lado das tropas de Kiev, na guerra contra a Rússia, ao jornal Politico. Identificado apenas pelo nome de guerra Torto - referência a um castelo localizado perto da sua cidade natal -, este militar de 45 anos, que vive na Ucrânia desde 2016, espera que uma derrota do regime de Vladimir Putin possa dar força aos movimentos chechenos. "Estamos cansados da Rússia", acrescenta.

A Rússia é como um vizinho bêbedo. Um dia vem à tua casa e quer queimá-la. Se o tentares apanhar, foge. Noutro dia, vem sóbrio e pede perdão. E depois volta bêbedo novamente com uma arma e mata a tua mulher e os teus filhos", afirma.

Estima-se que entre 150 a 200 voluntários chechenos estejam na Ucrânia a combater ao lado dos soldados de Volodymyr Zelensky. A maioria são descendentes dos militares que lutaram na Primeira e na Segunda Guerra da Chechénia contra a Rússia. Estão divididos em três batalhões: o batalhão Dzhokhar Dudayev, chamado assim em honra do primeiro presidente pós-soviético da Chechénia independente, o batalhão de Sheikh Mansour, que tem fortes ligações a grupos islamitas e radicais como o Estado Islâmico, e outro batalhão, envolto em algum secretismo, que tem trabalhado de perto com os serviços de informações das tropas ucranianas.

"Esta é a terceira guerra chechena e desta vez vamos ganhar", afirma outro soldado do batalhão Dzhokhar Dudayev ao Politico. Este militar, com cerca de 20 anos, que se identifica pela nome de código Maga, é marido e pai, mas diz que a mulher o apoia na decisão de estar a combater pela Ucrânia.

De resto, Maga e Torto são perentórios: estão na Ucrânia, mas a lutar também pela Chechénia. Acreditam que uma derrota de Moscovo nesta guerra vai ser fundamental para "desmoronar" a Federação Russa e isso permitirá a libertação do território checheno. “Mais cedo ou mais tarde, todos seremos livres”, vinca Torto.

Mas, ao mesmo tempo que estas centenas de voluntários lutam pela Ucrânia, cerca de 12 mil chechenos combatem ao lado dos russos. Esses são conhecidos como os Kadyrovites e foram acusados de violações e pilhagens em Bucha, uma das cidades ucranianas mais devastadas pela barbárie da guerra. O comandante Torto não hesita em chamá-los de “exército TikTok”, por se vangloriarem das atrocidades que cometem nessa rede social. E não tem dúvidas de que Putin os usa para "semear o medo".

É precisamente por causa da fama dos mercenários Kadyrovites que os voluntários que estão ao lado de Kiev não recebem apoios por parte do governo ucraniano. “A Rússia é o nosso maior fornecedor de armas”, revela Torto, entre risos, explicando que ficam com as armas e munições dos russos quando estes se retiram das zonas de combate. Por outro lado, recorrem também a doações e a vendas online para angariarem dinheiro.

Mesmo sem qualquer orçamento de Kiev, o batalhão Dzhokhar Dudayev tem um histórico impressionante: desde o início da invasão da Ucrânia, estes combatentes foram responsáveis por várias ações de sabotagem e reconhecimento no norte de Kiev, quando a Rússia tentava controlar a capital ucraniana, e participaram na libertação da cidade de Izium.

Atualmente, os voluntários chechenos têm uma forte presença em Bakhmut, a cidade que é há meses o epicentro dos mais sangrentos combates da guerra e que já foi considerada a “Verdun do século XXI”, numa alusão à mais longa batalha da Primeira Guerra Mundial. É uma cidade fantasma que se tornou num alvo prioritário para Moscovo e num reduto de resistência para Kiev. "É um inferno puro", sublinha o comandante Torto.

"Os russos têm muita artilharia pesada e o exército ucraniano não tem a suficiente para manter todas as posições. Não há morteiros suficientes para manter os russos afastados. A tática russa é destruir tudo, deixar apenas ruínas até vir a infantaria. É a tática que usaram na Chechénia", acrescenta Maga.

Para estes chechenos, o ocidente tem de acordar e armar adequadamente os ucranianos. "Deem as armas à Ucrânia e eles fazem o resto, resolvem a situação sem a necessidade de vocês derramarem sangue".

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