opinião
Psicóloga, Vogal da Direção da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra Na incerteza: entropia psicológica versus utopia da estabilidade

29 mar, 11:00

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

Lembro-me dos conselhos que fui ouvindo ao longo da vida, os quais nem sempre segui, mas que foram integrando a minha representação mental da realidade: “Casar…melhor depois de ter casa”; “ter filhos…melhor depois de ter emprego estável”; “férias? Atenção se já tens conta poupança”. Construímos a nossa biografia com base num ideal de bem-estar e segurança individual e familiar, orientados para alcançar a maior estabilidade possível, frequentemente perseguidos pelo medo de falhar.

Desenvolvemos a nossa perceção de segurança e estabilidade sustentada nos nossos hábitos, crenças e valores, por vezes tão centrados na nossa pequena realidade e pouco despertos para o mundo global do qual fazemos parte.

Quem, com mais de 30 anos, não conhece testemunhos de famílias que foram afetadas pela guerra colonial? Ao longo dos anos fomos ouvindo, dentro do “pequeno ecrã”, que há grupos extremistas, atentados, que existe um conflito na palestina, que um vulcão entrou em erupção nas Ilhas Canárias. Seria tudo assim tão longínquo da nossa realidade e com tão pouco impacto na nossa estabilidade?

Sabemos que nada é completamente previsível e o imprevisível chegou-nos, pela natureza através de uma pandemia que se mantém entre nós e pela mão humana alicerçada em interesses e disputas. Estava longe das nossas fantasias que uma pandemia vinda da China chegasse até nós ou que nos deparássemos com uma guerra que estremeceu com a nossa segurança e que nos trouxe um contacto assustador com a indiferença perante o valor da vida humana. O imprevisível confrontou-nos com a globalização.

Quando o mundo ao nosso redor muda e se torna tão incerto o nosso equilíbrio mental, sustentado pela nossa perceção de segurança, dá lugar ao que se chama entropia psicológica. Conceito que a psicologia adotou da termodinâmica e que simboliza metaforicamente a reação mental ao caos, enquanto desordem mental provocada pelo imprevisto e pela incerteza.

Perante o “cenário” que vivemos é normal sentirmo-nos angustiados, ansiosos e desorientados. Além do tremendo impacto psicológico resultante do que vemos acontecer “lá fora”, a incerteza agudiza-se cada vez que ouvimos que ninguém ficará imune a esta guerra e que elevadas consequências económicas chegarão, com repercussões imprevisíveis, assolando ainda mais o nosso ideal de estabilidade.

Neste momento, estamos a passar por um profundo estado de entropia psicológica e temos duas opções: mergulhar na entropia ou ressurgir com um novo equilíbrio.

A boa notícia é que, perante a entropia, o nosso cérebro tende a colocar em prática mecanismos que nos protegem e restabelecem um novo equilíbrio. Os seres humanos enquanto sistemas singulares e autorregulados, integrados em sistemas maiores e diversificados, têm a sua estabilidade permanentemente ameaçada e esta é uma realidade que importa aceitar.

A entropia não é nossa inimiga, deve ser transitória e integra o caminho da resposta ao que nos rodeia, entre o equilíbrio e o caos, entre a estabilidade e a instabilidade, no qual importa a nossa abertura para a mudança. Para um novo equilíbrio, a estabilidade utópica que almejávamos tem que se transformar.

Na desordem está também o potencial evolutivo do ser humano!

 

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