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Como podem civis combater frente a um dos exércitos mais poderosos do Mundo? Notas de Lviv por Ana Sofia Cardoso

21 mar, 13:07

Histórias, relatos e anotações da Enviada Especial da CNN Portugal a Lviv, Ucrânia

Há muito que tentávamos entrar num campo de treino militar para civis, mas no primeiro dia que o conseguimos, ninguém quis falar connosco. E era compreensível. Foi de manhã, depois do ataque aéreo às instalações militares de reparação de aeronaves. Tinham medo que o campo fosse o próximo alvo a ser bombardeado e o nervosismo sentia-se. Ainda têm receio de serem os próximos alvos e, na véspera de visitarmos o campo, quando as sirenes tocaram, o grupo de homens fugia para a floresta. 

A vontade de aprender as capacidades técnicas e tácticas para poderem ir para a guerra tem feito com que, dia após dia, passam algumas horas a treinar. 

Foi nesse campo, nos arredores de Lviv, que encontrámos homens de todas as idades, das mais variadas profissões, concentrados em aprender a combater.

Grande parte não tinha qualquer experiência militar, nenhum conhecimento sobre como pegar numa arma ou como avançar rumo ao inimigo. Nada ou quase nada. 

Falámos com um homem, 35 anos, que vive há 20 nos Estados Unidos. Três dias depois do início da guerra não hesitou em regressar à Ucrânia. 

Diz-nos que o faz pela sua família, pelos amigos, por amor ao país, à pátria. 

Já foi bancário, hoje tem uma empresa de transportes, mas enquanto está na Ucrânia vai vivendo das poupanças e só pensa regressar a casa quando a guerra terminar.

Como podem civis combater frente a um dos exércitos mais poderosos do Mundo? 

As repostas foram unânimes.

A dimensão da coragem é do mesmo tamanho da injustiça que sentem pela Ucrânia ter sido invadida. Estão a ter formação, acreditam que terão as capacidades técnicas e práticas, mas se não tiverem dizem que o coração há-de resolver.

Cada lugar vazio enche-se agora de memórias

Chegou o dia em que as imagens do vazio se tornam tão difíceis de enfrentar, quase como as imagens de uma criança, morta, vítima da guerra.

A cidade de Lviv foi hoje palco de uma homenagem que incomoda, que choca, que nos emociona. 

Numa das praças principais foram colocados 109 carrinhos de bebé, cada um por cada criança que não resistiu ao conflito na Ucrânia, por cada vida que já não existe.   

109 carrinhos, todos juntos, num só espaço, mas sem crianças para sentar, sem crianças para passear, sem crianças para guiar pela vida. 

Cada lugar vazio enche-se agora de memórias, de pensamentos, dos mais doces, até à crueldade de imaginar como é que cada uma daquelas 109 crianças morreu numa guerra que não escolheu viver.

"Os primeiros sorrisos desde que chegámos"

A imagem da virgem Peregrina de Fátima comove sempre, mas hoje emocionou ainda mais.  Para os católicos, a imagem de Fátima tem a capacidade de consolar, de abraçar e de dar colo. Nalgumas circunstâncias parece que a acalmia que proporciona é até maior, quanto maior o sofrimento. 

Hoje, eu e o David Luz, pudemos ver talvez aqueles que são os primeiros sorrisos, desde que chegámos a Lviv, embora tímidos e embora possam esconder o nervosimo pela crise que a Ucrânia atravessa. Vimos também lágrimas de emoção e comoção, rostos de tristeza e preocupação, expressões de ansiedade. 

À Igreja da Natividade da Santíssima Virgem em, Lviv, chegou hoje o prometido pelo Santuário de Fátima: a 13.ª imagem da virgem Peregrina. Era esperada há dias. E foi recebida com a esperança de que, agora que está em solo ucraniano, possa intervir e  ajudar a resolver o conflito entre a Ucrânia e a Rússia. 

Chega um dia depois das notícias de que  Ucrânia e a Rússia podem ter chegado àquele que é visto como o ponto mais próximo, até agora, de um possível entendimento. Os crentes acreditam que a coincidência temporal não é apenas um acaso, mas sim resultado da presença de Fátima. 

Independentemente do desfecho que a guerra possa ter, a imagem da virgem Peregrina vem dar sobretudo esperança, alento, força, energia para os próximos dias. Quanto mais dias há pela frente?! Ninguém sabe. Mas pelo menos os crentes não se sentem tão abandonados.

 

Oleksander não sabe se reencontra a mulher

Foi hoje o dia em que conhecemos Oleksander: um pai, um avô, que se separou da filha e do neto e que não sabe se reencontra a mulher.

O dia foi mais calmo em Lviv. Não ouvimos sirenes. Apenas de madrugada. Mas na cidade vive-se a ansiedade pela incógnita sobre até quando vai durar a sorte de Lviv em ser poupada à invasão russa.  Ninguém sabe e qualquer previsão irá provavelmente falhar.  O perigo está sempre à espreita. 

A cidade está repleta de deslocados. Pessoas que saem de outras cidades e que aqui chegam para fugir da guerra, para qualquer outro país, desde que em paz. 

Foi também isso que fez Oleksander. Viajou de comboio durante 23 horas, de Dnipro até Lviv. Veio trazer a filha e o neto, para daqui, os dois, poderem fugir para França. Confessa que teve medo e um receio ainda maior quando o comboio passou por Kiev e as luzes se apagaram, por precaução. Que tem medo do que possa acontecer à sua família. 

A noite foi passada em Lviv e daqui só sai quando garantir que a fuga da filha e do neto está consomada. Assim que viajarem para fora do país, também ele regressa à localidade onde vive, nas imediações de Dnipro, uma das cidades atacadas pelas forças russas. 

Regressa sozinho a casa. E não sabe o que vai encontrar. Não sabe se a mulher e o filho estarão vivos. Não sabe se ainda tem uma casa para viver.

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