opinião
Psicóloga, membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempos de guerra. Os russos, sejam crianças, jovens ou adultos, não são todos "maus" nem genericamente culpados desta guerra

20 mar, 18:25

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

Escutei há dias, de uma jovem, um comentário inquietante: “as crianças russas estão a ser vítimas de bullying na escola”. A somar a este exemplo, há relatos diversos de que cidadãos russos se têm sentido discriminados em função da nacionalidade. Necessariamente não acontecerá com todas as crianças russas nem ocorrerá em todas as escolas. Basta, porém, que esta nova expressão de bullying possa ser uma possibilidade para merecer a nossa atenção. E se lermos mais, ou prestarmos mais atenção às notícias, vamos aperceber-nos de que este facto não diz respeito ao nosso país apenas.

Em Milão, numa universidade de referência – a Milano-Bicocca - pretendeu eliminar-se um curso livre sobre Fiódor Dostoiévski e em Florença a autarquia local recebeu pedidos para que fosse retirada do espaço público uma estátua do famoso romancista.  Dostoiévski é um dos mais geniais e famosos escritores de todos os tempos, um pensador de referência, por muitos considerado também um “psicólogo”. Viveu 60 anos, entre 1821 e 1881, tempo suficiente para deixar, além da obra literária magistral, reflexões sobre a busca da verdade, o sentido da vida, a harmonia social e a dignidade do ser humano. Preocupações de tal modo humanista e de tão profunda atualidade que colocam a nu não apenas a injustiça, mas também o absurdo de se tentar silenciar a história por via de uma leitura desfocada e extemporânea. Estamos também no domínio da “cultura de cancelamento”, tema de debate tão controverso como fundamental e inevitável nos dias que correm.

E este caso, dos russos, não é propriamente isolado. Na mesma linha, exemplos recentes reforçam a pertinência desta preocupação, sejam a repulsa dirigida a muitos muçulmanos após o 11 de setembro ou, mais recentemente, o “olhar de lado” dirigido aos chineses no início da pandemia de covid-19. Esta necessidade de identificar culpados e facilmente generalizar é consequência do sofrimento com que as populações dos mais diversos cantos do mundo se deparam e, em simultâneo e de certa forma, também um mecanismo de defesa. Temos uma guerra em direto, diariamente nas nossas casas e a todo o momento nos nossos telemóveis, que nos confronta com o sofrimento indescritível de tantos seres humanos com os quais facilmente nos identificamos. Assim temos experienciado em poucas semanas, em sequência ou cumulativamente, empatia, compaixão, angústia, revolta, raiva. São os sentimentos que impactam o nosso pensamento e, por consequência, influenciam os nossos comportamentos. Deste modo, é admissível um certo enviesamento do nosso modo de pensar, que pode até regredir nas etapas do desenvolvimento, regressando a um tipo de pensamento concreto e auto-centrado. De repente, há rótulos imediatos de “bons e maus” e generaliza-se sem mais, associando-se características comuns a grupos de pessoas ou populações que podem partilhar uma nacionalidade, mas nem sempre uma identidade. Há poucos dias alguém lembrava num debate televisivo e muito a propósito que “os russos não são o Putin”. Um regime não deve nunca confundir-se com todo um povo, mesmo que a maioria o suporte.

Compete-nos, enquanto profissionais de psicologia, identificar e estimular a extinção destes pensamentos de menos valia e ameaça, tal como os comportamentos de discriminação e rejeição que possam ser dirigidos à população russa. Para tal, devemos utilizar os meios que estão ao nosso alcance no sentido de informar, avaliar e intervir, promovendo em relação a todos a mesma empatia e a compaixão que imediata e muito justamente dedicamos à mártir população ucraniana. Como sempre, a família e a escola, mas muito também os órgãos de comunicação social e todos os protagonistas do espaço público são atores fundamentais para a promoção de valores inalienáveis, a começar no respeito pela dignidade do ser humano, independentemente das suas etnia, religião e nacionalidade.  Sting voltou a cantar “We share the same biology, regardless of ideology” (partilhamos a mesma biologia independentemente da ideologia). É bom que sempre nos lembremos disso.

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