Não precisamos de Meloni nem de Merz ao leme. Precisamos de uma Comissão Europeia sem receio de aplicar os Tratados, um Conselho capaz de isolar os aliados do Kremlin e um Parlamento que represente o interesse comum europeu
Recordam-se de dezembro, quando se aplaudiu o empréstimo de 90 mil milhões à Ucrânia, aprovado no Conselho Europeu à vigésima-quinta hora, como se fosse um marco na integração europeia? Quando se proclamou um “novo momento hamiltoniano”, faltando a coragem para antepor o recurso aos ativos soberanos russos ao quadro financeiro plurianual?
Após mais dois vetos de Viktor Orbán, quatro anos depois do início da guerra, fala-se agora em traição. Na instrumentalização da Ucrânia e do princípio de cooperação leal. Como se algo disto fosse novo ou o autocrata húngaro não tivesse eleições marcadas para o dia 12 de abril. Persistimos na ilusão de que avançamos na direção certa e à velocidade possível. Mas a crise europeia não é apenas institucional nem primariamente funcional. É política. Reflete a erosão da vontade coletiva de agir como sujeito político de pleno direito, mais do que a escassez de instrumentos ou o excesso de burocracia como fonte de todos os males europeus.
As ordens políticas não colapsam apenas por falta de recursos. Esgotam-se quando a convicção de partilhar um destino comum se perde. A Europa anterior a 1914 estava integrada no comércio, nas finanças e na cultura. Ainda assim, fragmentou-se quando os interesses nacionais se sobrepuseram a qualquer solidariedade ou afinidade. A integração económica sem instituições funcionais não elimina rivalidades: adia-as enquanto houver um propósito comum.
As divergências sobre autonomia estratégica, alargamento, migração e integração fiscal pululam no Conselho, enquanto clivagens Norte-Sul e Este-Oeste continuam a moldar prioridades, da Ucrânia ao Ártico, de Gaza à Venezuela. A dependência tecnológica externa limita a soberania e, talvez mais grave, não há consenso sobre o papel da Europa num sistema internacional que deixou de ser eminentemente “ocidental”.
Ainda assim, alguns acreditam que o Plano de Ação ítalo-germânico – assinado na Villa Doria Pamphilj, em Roma – possa sinalizar um renascimento europeu. A tentação de ver Berlim-Roma como centro de gravidade é grande. Mas é preciso não perder de vista que a liderança italiana está nas mãos de uma política de extrema-direita, determinada a reduzir a UE ao mínimo denominador comum. Trata-se de um governo que ativamente mina o Estado de direito através de alterações judiciais e da restrição da liberdade de imprensa.
Há quem insista em ver em Meloni e Merz o futuro da Europa. A realidade é que uma União a várias velocidades, sob estas lideranças, nunca será independente. Se houver defesa comum, continuará dependente dos Estados Unidos. O projeto de integração europeia, da emissão permanente de dívida conjunta à autonomia estratégica, seguirá sempre em contramão.
O futuro, porém, existe para além de líderes conservadores apoiados em coligações instáveis ou políticas de extrema-direita dependentes de figuras ainda mais radicais. Começa por mapear vulnerabilidades. A dependência militar e tecnológica dos EUA contrasta com o peso económico do continente. Os conflitos comerciais mostram que a ação económica pode funcionar como dissuasão – como ilustrou o fundo de pensões dinamarquês ao anunciar a venda de milhões de dólares em dívida americana ou as ameaças da UE de recorrer ao mecanismo de anticoerção económica – mas a supremacia dos EUA continua a ser tabu. Preparar respostas, testar cenários, e reforçar o poder de dissuasão é uma condição de sobrevivência, não uma provocação.
Fortalecer a Europa internamente exige consolidar a sua força económica, evitando dispersão burocrática e definindo prioridades claras de curto e médio prazo. Reduzir dependências externas, acelerar a introdução do euro digital, desenvolver uma infraestrutura digital independente e uma cloud soberana requer conjugação entre opinião pública e autoridade política para ultrapassar interesses. Sem isso, qualquer impulso reformista esgota-se no papel.
Nesta linha, os acordos comerciais podem e devem ser instrumentos geopolíticos, do Mercosul à Índia, do Vietname ao México, ampliando a margem de manobra do continente. Permitem construir coligações de potências médias capazes de responder aos Estados Unidos e à China. Mas a janela de oportunidade é estreita, e a coragem de dizer sim ou não, assumindo os respetivos custos políticos internos, será decisiva. Compete aos nossos líderes moldar os factos em tempo real e impedir que outros escrevam a nossa história por nós.
Apesar da fragilidade de Macron e da polarização em França, onde se antecipa uma vitória iliberal em 2027, o eixo franco-alemão ainda não caducou. Já a agenda de Merz e Meloni é antiquada: omnibus legislativos, simplificação normativa e flexibilização das regras de auxílios de Estado traduzem velhas reivindicações. Por baixo do verniz de dinamismo instala-se uma lógica de flexibilidade nacional à custa das regras comuns. Será a competitividade algo que beneficie todos os europeus ou apenas alguns? Todos os países da NATO, ou apenas os EUA?
O padrão repete-se noutras esferas: o duo Merzoni pressionou Ursula von der Leyen a aceitar acordos assimétricos prejudiciais à UE – como o célebre Acordo de Turnberry nos campos de golfe da Escócia, hoje em suspenso – e opôs-se à ativação do mecanismo de anticoerção económica perante a chantagem de Donald Trump na Gronelândia. Será este o futuro da Europa?
A UE continua a ser uma potência regulatória e económica de primeira ordem. Já a relevância geopolítica exige coerência para usar instrumentos ao seu dispor, do Artigo 7.º do Tratado da União Europeia às sanções. Financiar a ordem internacional não equivale a moldar o mundo. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, quatro anos depois, continua a expor essa assimetria: um cessar-fogo irrefletido pode cristalizar conflitos que a Europa sustente financeiramente sem controlar politicamente – à mercê de Vladimir Putin, Donald Trump e dos vetos de Viktor Orbán.
O alegado novo “motor” da UE não aproxima a autonomia: afasta-a. Ao privilegiar flexibilidade nacional e desregulação sobre integração, reduz a capacidade de proteger interesses e impor reciprocidade. Cada fragmento adicional de soberania devolvido às capitais reduz a influência da União. Não está em causa qualquer tipo de federalismo – alguém avistou algum Altiero Spinelli nos últimos anos? – mas passar de financiador a ator exige coesão política e instrumentos partilhados. Também não está em causa a necessidade, esporádica, de uma Europa a várias velocidades, nem de um minilateralismo de vontades, mas a existência de interesses comuns e valores inegociáveis, do Estado de Direito à independência judicial.
O apoio de Meloni a Viktor Orbán, num vídeo em que o autocrata húngaro recebe o endosso de Salvini, Le Pen, Weidel, Kickl, Babiš, Milei e Netanyahu, revela o paradoxo desta “nova fase” que nos querem vender. É difícil imaginar como estes companheiros de viagem criarão espaço para que a União Europeia escolha livremente o seu destino. Pelo contrário, evidencia a propensão para agendas populistas, mais interessadas em moldar a União à sua imagem, tal como o Presidente dos Estados Unidos e seus discípulos têm vindo a apregoar.
Um centro de gravidade europeu constrói-se através de uma visão partilhada e coragem para assumir custos políticos internos em nome de ganhos estratégicos externos. Esse sempre foi e dificilmente deixará de ser o caminho da UE. Uma estrada estreita, mas que poucos analistas colocarão em causa que tem valido a pena. Sem determinação, qualquer eixo, sobretudo um que inclua Meloni, não acelerará a independência: no melhor dos casos, suspendê-la-á.
Num mundo marcado pela competição, a suspensão prolongada aproxima-se perigosamente de dependência. Vivemos num equilíbrio tenso entre riscos e oportunidades que exigem ação imediata. É necessária uma estratégia clara, além de consciência histórica. Conhecer o passado, avaliar o presente e projetar o futuro é uma condição para que a Europa deixe de ser apenas financiadora de segurança numa ordem internacional que não influencia.
Não precisamos nem de Meloni nem de Merz ao leme. Precisamos de uma Comissão Europeia sem receio de aplicar os Tratados, um Conselho capaz de isolar os idiotas úteis do Kremlin e um Parlamento que represente o interesse comum europeu. Simplesmente, de líderes à altura. Não se trata de formar uma coligação de Estados. Trata-se de recordar que os povos da Europa só têm futuro unidos – sem atalhos, sem desculpas e sem subserviência.