O que mudou para a Rússia invocar o "sério risco" de uma Terceira Guerra Mundial?

26 abr, 22:00
Cidade de Mariupol durante a invasão russa

Discurso do ministro dos Negócios Estrangeiros russo acontece num momento em que há vários "enquadramentos novos" na guerra que assume uma nova fase "muito perigosa e instável", segundo os especialistas consultados pela CNN Portugal.

Desde o início da invasão da Ucrânia que a Rússia tem habitualmente procurado condicionar a opinião pública através da divulgação de mensagens que procuram “semear o medo e condicionar o apoio” contra o Kremlin. Mas depois do aviso de Sergei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, de que há “o sério risco” de ser desencadeada uma Terceira Guerra Mundial, esta estratégia parece estar a atingir uma nova fase, “muito perigosa e instável”, segundo os especialistas consultados pela CNN Portugal.

Esta nova fase, explica o Major-General Arnaut Moreira, surge num momento em que há “enquadramentos novos na leitura da guerra”, especialmente depois de Putin ter acusado Kiev de ataques em solo russo, incluindo um bombardeamento de um depósito de petróleo em Belgorod, uma cidade perto da fronteira com a Ucrânia. Para além disto, aponta Arnaut Moreira, o discurso de Lavrov “pode ser entendido como uma resposta ao Ministério da Defesa do Reino Unido que, recentemente, sublinhou que seria absolutamente justificável que a Ucrânia executasse ações de combate em território russo.

O "sério risco" de uma Terceira Guerra Mundial invocado por Lavrov pode também ter sido influenciado por um novo fator: a “verdadeira cimeira ocidental na base aérea norte-americana de Ramstein na Alemanha, em que se procura articular uma resposta mais organizada na defesa da Ucrânia”, disse o Major-General, apontando para a conferência desta terça-feira que contou com a participação de 40 países e onde a Alemanha garantiu que vai entregar tanques à Ucrânia.

Já Teresa Almeida Cravo, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, sublinha que o aviso do “risco real” de uma Terceira Guerra Mundial pode ter surgido como consequência da tomada de posição do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, que disse querer ver a Rússia “enfraquecida ao ponto de não conseguir fazer coisas como invadir a Ucrânia”. Para Teresa Almeida Cravo, esta vontade dos EUA significa “retirar à Rússia a total capacidade de causar uma guerra e pode ser entendida como uma vontade de mudança de regime”. Isto, acrescentou, “levou a várias respostas em catadupa”, tendo uma delas sido o discurso do ministro de Putin.

Mas porquê esta referência agora à Terceira Guerra Mundial? A investigadora Teresa entende que a entrevista de Lavrov, dada exclusivamente aos órgãos de comunicação social russos, tem um timing que é intencional, já que acontece na noite anterior à reunião do ministro dos Negócios Estrangeiros com António Guterres, secretário-geral da ONU. “É uma tomada de posição de força, para que [Lavrov] possa chegar à mesa de negociações em posição de força.”

“Nas últimas semanas, até Guterres tomar uma atitude mais assertiva, só temos ouvido falar em corrida ao armamento. Do ponto de vista estratégico, estamos a falar de uma fase da guerra em que há muito em jogo e que é muito perigosa e instável”, descreve a especialista em Política e Estudos Internacionais, acrescentando que da parte dos líderes mundiais tem-se assistido a “discursos cada vez mais empolgados, cada vez mais explosivos”.

Já o Major-General Arnaut Moreira considera que este discurso de Lavrov não está apenas virado para a opinião pública internacional, mas também tem uma componente interna muito forte. “É necessário explicar internamente, à sociedade russa, a lentidão exasperante desta operação militar” e o porquê de, do ponto de vista político, ser para o Kremlin tão diffícil atingir os objetivos a que se propôs. Por isso, explica Arnaut Moreira, “é importante para a direção política justificar este atraso pelo facto de a Rússia não só estar a lutar contra a Ucrânia, mas com o Ocidente em conjunto". 

A expressão “guerra mundial” traduz ainda um panorama novo no conflito, na análise de Arnault Moreira. “Poderíamos entender as declarações anteriores como a possibilidade de que a Rússia pudesse desencadear uma operação nuclear contra a Ucrânia, agora, com o uso desta expressão, significa que passa a haver um conjunto de alinhamentos de um lado e do outro”, refere.

Contudo, destaca a investigadora Teresa Almeida Cravo, “há obviamente uma diferença entre aquilo que se passa na retórica e a realidade no terreno”. O problema, insiste, é quando o apelo às armas se torna irremediável - “Há aqui uma tendência preocupante e nós vamos olhar para trás e vamos ver como estes discursos tornaram a guerra uma inevitabilidade, num momento em que a prioridade é cada vez mais o ganho territorial e não a diplomacia.”

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