"A violência garante o sucesso". Como a Uber utilizou as agressões entre motoristas para crescer no mercado – e contou com a ajuda de Macron

10 jul, 19:55
protestos, taxistas, táxi, paris, uber, tvde. 20 maio 2019. Foto: Samuel Boivin/NurPhoto via Getty Images

Perante manifestações violentas em várias cidades francesas e confrontos entre taxistas e condutores da Uber, antigo CEO da empresa sugeriu que a violência seria benéfica para o negócio. Macron, na altura ministro da Economia, facilitou o posicionamento da Uber no país

No início de 2016, quando mais de 2.100 taxistas franceses avançaram com um protesto maciço contra a Uber em Paris e nos arredores da capital, o aeroporto de Orly foi bloqueado e vários motoristas e clientes de serviços TVDE sofreram ataques violentos, o antigo líder da Uber viu uma oportunidade para lucrar. "A violência garante o sucesso", escreveu Travis Kalanick numa mensagem dirigida aos executivos da empresa e agora revelada numa investigação jornalística a partir de mais de 124.000 documentos da empresa obtidos pelo jornal The Guardian e partilhados com o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, a Uber Files.

Os documentos mostram também como, entre 2014 e 2016, Emmanuel Macron, na altura ministro da economia, movimentou-se para favorecer a Uber na sua missão de desregular o mercado ao mesmo tempo que enfrentava a hostilidade do governo francês.

A hora era negra. A 26 de janeiro, o fumo de pneus queimados invadia a capital francesa já manchada com sangue no asfalto depois de cerca de 25 taxistas terem sido presos por assalto e fogo posto contra motoristas da Uber. A larga manifestação, que teve réplicas semelhantes em Espanha, Bélgica e Itália, estendeu-se a outras regiões francesas. Em Lille, por exemplo, um motorista de TVDE foi agredido logo a seguir a deixar um cliente num hotel. Incidentes violentos relacionados tiveram ainda lugar em Toulouse, Marselha e Aix-en-Provence.

Já depois da meia-noite, um gerente da Uber em França fez um ponto de situação. "Equipa - todos a salvo. Condutores/Clientes - geralmente seguros, embora 53 incidentes até agora, incluindo 35 envolvendo clientes", escreveu, acrescentando que foram relatados "três casos relativamente graves que envolveram violência dos taxistas, incluindo um carro muito danificado e dois condutores espancados". 

Depois, numa série de mensagens no mesmo dia, o então chefe executivo de Uber, Travis Kalanick, montou o plano para um um contraprotesto. Kalanick queria um protesto pacífico ou uma marcha no centro da cidade. "Desobediência civil", "15.000 condutores", "50.000 clientes", escreveu numa série de mensangens que foram interrompidas por um executivo da empresa que levantou procupações sobre o ambiente de “violência dos taxistas” contra os condutores da Uber. Outro executivo respondeu também a Kalanick a sugerir que a empresa poderia "olhar para a desobediência civil efectiva e, ao mesmo tempo, manter as pessoas seguras".

Kalanick disparou de volta, reforçando que se a manifestação fosse suficientemente numerosa, os motoristas da Uber estariam seguros. E, se ocorressem confrontos, o líder da empresa pareceu sugerir que isso poderia beneficiar a empresa que fundou. "Penso que vale a pena", escreveu o CEO. "A violência garante o sucesso".

Travis Kalanick, antigo CEO da Uber

Capitalizar a violência

Após a troca de mensagens com Kalanick, uma equipa da Uber na Europa começou a preparar um plano de ação para a semana seguinte. Os motoristas foram pressionados a assinar cartas organizadas pela Uber e dirigidas ao presidente e primeiro-ministro franceses para salvar os seus empregos. Foi também organizada uma petição em massa de passageiros em defesa das viagens mais baratas.

A partir dessas cartas, foi planeada, uma manifestação supostamente dirigida por uma associação de motoristas independentes - que, na realidade, era comandada pela Uber, revelam os documentos do Consórcio Internacional. Nos bastidores, os executivos da Uber fixaram a hora e o local do protesto e escreveram um manifesto para os meios de comunicação social franceses. No entanto, as notícias veiculadas pelos jornais sugerem que apenas algumas centenas de motoristas apareceram.

No caso da manifestação em Paris, Kalanick e a Uber ajudaram a organizar uma demonstração pública de apoio à empresa, numa altura em que os taxistas já estavam em confronto com a polícia por causa da presença crescente dos TVDE no país. Na noite após o contra-protesto no centro da cidade, a polícia disse que foi obrigada a intervir para evitar ferimentos graves, já que cerca de 50 motoristas entraram em confronto com taxistas na periferia da capital.

Protestos contra a Uber em Paris

Dois antigos executivos da Uber que falaram ao jornal The Guardian, sob a condição de anonimato disseram que os funcionários da empresa viram potencial utilidade nos confrontos violentos e procuraram capitalizar estes incidentes para relações públicas e benefício político. Um disse que a empresa teria sido insensata em não o fazer. "Porque não podemos ser tão ferozes concorrentes como eles, desde que o façamos de uma forma razoavelmente legal?", perguntou. O outro ex-executivo, que tinha conhecimento do impulso de Kalanick para o contraprotesto de Paris, disse que o episódio se enquadrava num padrão. "Foi considerado como benéfico armar desta forma os condutores de Uber para os levar a defender o que queriam – e claro que isso servia os propósitos de Uber", disse.

Uma via aberta por Macron

Nos documentos que vieram a público estão também um conjunto de mensagens trocadas entre Kalanick e Emmanuel Macron, que secretamente terá ajudado a empresa em França quando era ministro da economia, permitindo à Uber um canal de acesso frequente e direto a ele e governo. 

Macron, antes de ter sido eleito presidente francês, terá feito um esforço extraordinário para ajudar a Uber, chegando mesmo a dizer à empresa que tinha mediado um "acordo" secreto com os seus opositores no governo francês. Pouco depois de se tornar ministro, Macron teve uma reunião com Kalanick, segundo mostram os documentos. 

Mark MacGann, um dos principais lobistas europeus da Uber, descreveu Macron como "espectacular". Macron disse aos reguladores para não serem "demasiado conservadores", comprometendo-se essencialmente a interpretar a lei dos táxis de forma mais favorável à Uber, disse MacGann num e-mail que acrescentava que o, na altura ministro da Economia, "acolheu a Uber numa atmosfera extraordinariamente calorosa, amigável e construtiva". "Desejo claro da sua parte de trabalhar em torno da... legislação".

Numa outra troca de mensagens, em Julho de 2015, Kalanick perguntou a Macron se o ministro do Interior Bernard Cazeneuve seria de confiança. Macron respondeu que se tinha encontrado com Cazeneuve e com o então Primeiro-ministro Manuel Valls no dia anterior e que Cazeneuve tinha aceitado um "acordo". Em resposta às perguntas do ICIJ, o gabinete de Macron disse que o sector francês dos serviços estava em convulsão na altura devido à ascensão de plataformas como a Uber, que enfrentava obstáculos administrativos e desafios regulamentares. O escritório não respondeu a perguntas sobre a relação de Macron com a Uber.

"A proibição inverteu"

Depois de evoluir durante meses, a crise gerada pelos protestos contra a Uber em Marselha atingiu o seu ponto de ebulição depois de vários taxistas terem impedido um executivo da Uber de falar numa feira de negócios com empresários. Citando "confrontos e excessos que perturbam a ordem pública", o braço local da polícia nacional suspendeu a UberX - o serviço de Uber mais popular - nos bairros centrais da cidade e em redor do aeroporto e da estação de comboios.

"Consternado", o principal lobista europeu da empresa enviou uma mensagem de texto a Macron no dia seguinte, e o ministro respondeu 11 horas mais tarde: "Irei analisar isto pessoalmente. Deixe-me ter todos os factos e decidiremos até esta noite. Vamos manter a calma nesta altura".

Nessa noite, o chefe da polícia nacional local começou a inverter o rumo, prometendo restabelecer a ordem. Doze dias depois, as autoridades emitiram uma nova ordem a afirmar que a proibição se aplicava aos condutores Uber não licenciados e não regulamentados em toda a jurisdição. As autoridades negaram receber qualquer pressão do ministério de Macron.

Já a Uber proclamou o resultado como uma vitória: "A proibição inverteu", disse a actualização semanal interna da empresa, "após intensa pressão de Uber". Foi uma manobra que, segundo as mensagens de correio electrónico divulgadas, foi repetida em Itália, Bélgica, Espanha, Suíça e nos Países Baixos.

Em resposta ao Consórcio, o porta-voz de Kalanick, forçado a abandonar a Uber pelos investidores em 2017, questionou a autenticidade de alguns documentos, sublinhando que Kalanick "nunca sugeriu que a Uber se aproveitasse da violência à custa da segurança dos condutores" e que qualquer sugestão de que o antigo CEO estivesse envolvido em tal atividade seria "completamente falsa".

Já a posição oficial da Uber foi a de reconhecer os erros do passado no tratamento dos condutores pela empresa. No entanto, a Uber sublinhou que ninguém, incluindo Kalanick, defendia o uso de violência contra os condutores. "Há muitas coisas que o nosso antigo diretor executivo disse há quase uma década que certamente não iríamos tolerar hoje. Mas uma coisa que sabemos e que sempre defendemos é que nunca ninguém na Uber se sentiu feliz com a violência contra um motorista".

Empresa gastou milhões para conquistar motoristas

A investigação mostra ainda como a Uber utilizou milhões de dólares investidos na empresa para aliciar condutores e passageiros para os seus serviços. Embora já se soubesse que a empresa tinha subsidiado algumas viagens, a Uber Files mostra como, de um momento para o outro, a empresa alterou a sua política em várias cidades no estrangeiro.

Em alguns lugares, a Uber começou por pagar quase 90% dos ganhos horários dos motoristas, oferecendo viagens praticamente de graça e fazendo desesperar os taxistas locais, incapazes de fazer frente a esta concorrência.

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