Entre os consumidores identificados pelas autoridades e que compravam estupefacientes ao "batizado" pelas autoridades como "Uber da Droga" encontravam-se médicos, atores, antigos concorrentes de programas de televisão e até um atleta olímpico medalhado
Um homem que aparentava ter uma vida estável e financeiramente confortável foi condenado por liderar uma rede de tráfico de droga que operava em zonas nobres de Lisboa. Residente em Campolide e com rendimentos familiares a rondar os cinco mil euros mensais, Nuno Ricardo dos Santos, de 43 anos, utilizava uma vasta rede de contactos para distribuir estupefacientes a clientes, muitos deles mediáticos.
Aos 17 anos, matou o pai com um tiro durante um episódio de violência doméstica, para proteger a mãe das agressões constantes. O progenitor era toxicodependente e já tinha estado preso. Pelo homicídio do pai, Nuno cumpriu um ano de prisão. Anos mais tarde, regressa a um estabelecimento prisional para cumprir pena por tráfico de droga.
De acordo com o acórdão do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, entre os consumidores identificados pelas autoridades e que compravam estupefacientes ao “batizado” pelas autoridades como “Uber da Droga” encontravam-se médicos, atores, antigos concorrentes de programas de televisão e até um atleta olímpico medalhado.
Nas comunicações intercetadas pela PSP, os clientes recorriam a expressões codificadas como “bitolas”, “2G’s”, “keta” ou “clássico” para encomendar droga. "[O suspeito] Passou a adquirir estupefacientes inicialmente para consumo próprio e, mais tarde, para ceder e depois para vender a terceiros [...] passando a beneficiar de um estatuto privilegiado junto de pares e amigos, alguns figuras mediáticas,” explica o acórdão a que a CNN Portugal teve acesso.
A investigação teve início em agosto de 2023. As autoridades concluíram que Nuno Ricardo contava com a colaboração da mãe, responsável por uma das habitações onde eram armazenadas embalagens de droga. Em julho de 2024, perante o crescimento da atividade criminosa, integrou ainda um sócio no esquema.
A companheira do principal arguido, funcionária da TAP, chegou a ser constituída arguida, mas acabou absolvida por falta de provas. Apesar disso, o Ministério Público sustentou que a mulher fazia parte da rede, apontando o facto de vários clientes serem também trabalhadores da companhia aérea.
As escutas telefónicas realizadas pela PSP revelaram diversas conversas entre o arguido e os clientes, muitas delas marcadas pelo uso de linguagem cifrada para ocultar o verdadeiro propósito dos contactos. “Traz-me coisas”, “de 100 percebes?”, “o que tu queres é aquilo, o normal de sempre, não é?”, foram algumas das conversas intercetadas pelas autoridades.
No acórdão lido no final de maio, o tribunal deu como provado que o líder da rede fornecia regularmente substâncias como MDMA, cocaína e cetamina, entre outros estupefacientes. O documento refere ainda que o próprio arguido admitiu ter iniciado a venda de droga por motivos de “vaidade”.
Nuno Ricardo foi condenado a cinco anos e seis meses de prisão efetiva por um crime de tráfico de estupefacientes. O sócio recebeu uma pena de quatro anos e seis meses de prisão, suspensa na sua execução, enquanto a mãe foi condenada a quatro anos e três meses, igualmente com pena suspensa.
