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"As leis daqui são as melhores da Europa para criminosos": toda a história de "Twinkle", o maior pedófilo português

6 mai, 12:34

Com apenas 25 anos era uma das pessoas mais procuradas no mundo inteiro, mas ninguém sequer sonhava que o ia encontrar numa casa perto de Águeda. Nesse dia, numa operação que até o FBI envolveu, "Twinkle" estava com duas crianças na cama

“O ‘Twinkle’, em 2017, era a pessoa mais procurada no mundo relativamente a este crime de pornografia de menores”. Quem o garante é Ricardo Vieira, inspetor da Polícia Judiciária (PJ), que se refere àquele que ficou conhecido como o maior pedófilo português.

Era o Deus todo-poderoso na internet, administrador de uma das maiores páginas de pedofilia do mundo. “E com conteúdos, com filmes e com fotografias, com uma grande severidade sobre os abusos que eram cometidos sobre os menores”, diz Ricardo Vieira à CNN Portugal.

Mas o “Twinkle” era uma sombra, não tinha nome, não tinha rosto, não tinha nacionalidade. “Ao que se sabia, podia ser americano, alemão, italiano, francês, porque ele falava todas estas línguas, escrevia”, acrescenta João Santos, também ele inspetor da PJ. “Era um indivíduo que todos os países queriam identificar, deter, retirar de circulação”, reforça Ricardo Vieira.

Atrás dele estavam Europol, Interpol e até a polícia australiana. O pedófilo geria a página Babyheart, dedicada a abusos sexuais de bebés e crianças dos zero aos cinco anos. Criou-a em novembro de 2015.

“Este foi um sonho para mim, mas agora tornou-se real para nós”, escreveu Nuno Melo, o verdadeiro nome de “Twinkle”. “Crianças a serem abusadas, de todas as formas sexuais que pode imaginar e daquelas que muitas vezes as pessoas nem sequer imaginam”, descreve Ricardo Vieira. “O Nuno [Melo] dizia que gostava destas idades, precisamente porque elas não se iam lembrar lá à frente. Como eram tão pequeninas, estas memórias iam-se perder”, aponta João Santos.

Veja abaixo toda a reportagem com imagens do dia em que "Twinkle" foi apanhado

“Twinkle” era controlador, implacável com as regras. “Era daqueles indivíduos que estava a dar duas voltas à rotunda, controlava os carros que vinham, passava sinais vermelhos para ver se também passava quem vinha atrás dele, tomava nota de matrículas. Super, super, super controlador”, explica João Santos.

Conhecia bem a lei portuguesa e gabava-se disso: “As leis daqui são as melhores da Europa para criminosos. Por isso é que a máfia italiana e os pedófilos da Europa escolhem o sul de Portugal para morar”, escreveu a certa altura.

“Uma das maneiras que ele tinha de se proteger no mundo proibido era tapar a cara das crianças com emojis. Se algum dia algum daquele conteúdo extravasasse, ou as polícias recolhessem, podiam chegar à identificação das vítimas, logo as vítimas chegavam à identificação dele”, refere João Santos.

E “Twinkle” não se ficava apenas pelos seus crimes, já que também incentivava outros a fazerem o mesmo e até lhes dava dicas. “Ele próprio ensinava aos outros abusadores como é que se podem proteger para não serem apanhados neste tipo de situação”, diz Ricardo Vieira.

“E se ele achava que alguém podia estar a cometer algum erro com ele, corria logo com ele”, reitera João Santos.

Mas com as crianças não era um lobo mau. “Não havia violência, ele não gostava de violência, ela era contra a violência”, indica João Santos. E Ricardo Vieira reforça: “Estamos a falar de alguém que consegue cativar os mais jovens, levando-os a praticar aqueles atos como se eles fossem normais. É pelo aliciamento, o quase enamoramento entre estas crianças. Estamos a falar de crianças, não estamos a falar de jovens, estamos a falar abaixo dos seis anos de idade. E essa facilidade que ele tinha era também uma característica da personalidade dele”.

Um doce aqui, um carinho ali, e com o nascimento dos sobrinhos passou a ter livre acesso às vítimas.

“Eu tenho várias crianças na família, filhas de amigos e de vizinhos. Só que abusar é fácil, produzir nem tanto. Só acontece quando levo ao parque, regresso um pouco mais cedo e tem algum tempinho para abusar enquanto eles não chegam”, escrevia “Twinkle”.

“Dois bebés, os miúdos quando foram salvos tinham quatro anos, estes dois, mais a outra miúda que era a filha da irmã dele, a sobrinha, e mais o sobrinho também, porque eram filhos de duas primas”, explica João Santos.

“O ‘Twinkle’ tinha essa característica de cuidar, de dar atenção, de dar amor, de dar carinho a estas crianças. Estamos a falar de coisas básicas, de uma refeição de fast food, estamos a falar de doces e aproveitava-se desta situação para conseguir manter ali tudo em segredo”, acrescenta Ricardo Vieira.

“Twinkle” fazia o que queria com as crianças, eram negligenciadas pela própria família. “As mães também, são famílias desestruturadas, ficavam contentes se ele tomava conta, porque os miúdos gostavam de estar com ele, divertiam-se”, aponta João Santos.

E essa desatenção das famílias também ajudou a esconder todos os crimes praticados, mesmo quando eles eram fisicamente visíveis. “As marcas físicas que possam existir de reiterados abusos sexuais, que deixam marcas visíveis em algumas situações - porque estamos a falar de abusos severos -, se ninguém olhar, se ninguém cuida daquela criança, estas marcas acabam por passar despercebidas. Esta negligência que existia sobre estas crianças levou a que também os abusos pudessem perpetuar por mais tempo”, diz Ricardo Vieira.

A PJ entrou neste dominó em abril de 2017, curiosamente a partir do outro lado do Atlântico. Ricardo Vieira explica que foi “numa investigação que corria ao mesmo tempo, que estava a ser desenvolvida no Brasil, foi detido um indivíduo que fazia também parte deste site”.

“É um trabalho excelente feito pela Interpol, mais uma vez, em que eles começam a comparar as fotografias que apreendidas no âmbito proibido e todas aquelas fotografias que conseguiam apanhar à superfície normal. Pedaços de roupa, padrão de uma colcha, vão juntando estes pedacinhos todos, metem ao lado os dedos dele… Porque os dedos dele, além de serem compridos, a pigmentação era diferente, aqui era mais clara”, recorda João Santos.

As peças começam a encaixar-se e depois tudo se liga. Ricardo Vieira lembra que a investigação começou a afunilar e a apontar para um perfil de Facebook de um cidadão português. Curiosamente, de todas as línguas que falava, foi o português que o atraiçoou.

“Uma das mensagens diz que ele já foi preso no passado e que lhe levaram um computador com dois discos muito importantes e que um deles lhe custou os olhos da cara a recuperar. Ora, ‘custou-me os olhos da cara’ a recuperar é uma expressão idiomática que não é atribuível normalmente aos outros países que falam português”, sublinha João Santos, falando aqui de uma das chaves para o avanço da investigação e para chegar a um nome real.

“Twinkle” tinha, afinal, um nome, Nuno Melo, um rosto, uma identidade. Aos 25 anos vivia numa casa numa aldeia nos arredores de Águeda (que pode ser vista na reportagem da TVI associada a este artigo) com os pais. Quase 10 anos depois, na aldeia de Cheira, talvez pouco ou nada tenha mudado.

Por lá, toda a gente conhece Nuno Melo e por isso ninguém se quer meter no assunto. Os pais ainda vivem no número 560. Foi aqui que, a 20 de junho de 2017, foi detido o maior pedófilo português.

“Era uma casa que dá a ideia que foi sendo construída, foi evoluindo o espaço lá dentro. Depois de entrarmos, era um espaço muito confuso, com a acumulação de diferentes coisas, como se fosse quase uma sucata”, explica Ricardo Vieira.

“Aquilo é um espaço… é um portão, são 10 metros a parte da frente e depois são 50 metros. São 500 metros quadrados para fazer buscas. É uma coisa enorme. E lá dentro é só lixo”, recorda João Santos.

No dia decisivo os nervos estavam em franja, até porque a polícia não podia falhar. “Só conseguimos os mandados de busca na sexta-feira antes. Portanto, dia 20 era uma terça-feira e na sexta-feira, com uma pressão tremenda, a ver se conseguimos aquilo de uma vez por todas, e estava a demorar demasiado tempo, finalmente, sexta-feira, estão cá os mandados, podem vir buscar. Fomos buscar, contactámos os colegas, Interpol, Europol, Estados Unidos. ‘É em cima do momento, lamentamos, mas conseguem vir?’ Claro que vamos”, acrescenta João Santos, revivendo todas as horas que antecederam a operação.

Às 07:00, a PJ e o FBI irromperam pela casa adentro, encontraram “Twinkle” ainda na cama. “Estavam deitadas na cama com ele duas crianças que tinham estado toda a noite com ele”, recorda Ricardo Vieira.

Mas havia mais provas dessa noite, nomeadamente vestígios biológicos de Nuno Melo. “Ele tinha levado as crianças a passear no dia anterior, tinha-as levado a comer um Happy Meal, brincaram e depois foram dormir lá a casa”, lembra João Santos.

Nuno Melo primeiro negou, depois entregou tudo. “Não teve qualquer hipótese de resistir, não teve hipótese de fuga. Foi ele que nos entregou este disco, por sua livre e espontânea vontade. Estava escondido fora da própria casa”, explica Ricardo Vieira.

“Embrenhou-se 300 metros na floresta, floresta de eucaliptos, impossível de saber… Eu se fosse lá e fui lá, não conseguia lá ir outra vez sozinho, mas ele foi lá, chegou e disse: ‘Aí debaixo desse tronco está um buraco, escavam e está lá tudo’. Estava lá um saco, selado, com um telemóvel, dois discos regidos…”, continua João Santos.

O Deus todo-poderoso caiu. “O ‘Twinkle’ era efetivamente, fisicamente, um indivíduo franzino. Era um indivíduo que passaria despercebido à maior parte da população, que tem uma postura sempre, eu diria quase submissa, é alguém que é afável no trato diário, mas essa é uma das características deste tipo de predador”, explica Ricardo Vieira.

“‘Como é que queres ser tratado, por Nuno ou por ‘Twinkle’?”, perguntaram os inspetores. E foi aí que o criminoso percebeu o que estava verdadeiramente a acontecer. “Aquele mundo em que ele estava, de que ‘eu sou o maior, eu sou muito importante neste mundo, todos querem falar comigo, todos me respeitam’, ele percebeu que esse mundo tinha acabado. Ele voltava a ser aquilo que ele era, que era um indivíduo, que tinha uma vidinha para olhar o futuro e que ia deixar de ser alguém importante”, descreve João Santos.

De “Twinkle”, o pedófilo mais procurado, a Nuno Melo, um mero vigilante. Foi neste dia que nasceu a Operação Dominó, cujo nome Ricardo Vieira ajuda a explicar: “Porque eram peças de dominó que iam caindo e iam arrastando as outras. O dia da detenção do ‘Twinkle’, na realidade, traduziu-se em duas detenções. Existia um outro indivíduo, também é um procurado por todas as autoridades a nível mundial, que não sabíamos qual era a sua nacionalidade, e viemos a descobrir que este indivíduo era um indivíduo português”.

“[O ‘Twinkle’] diz mesmo ‘olha, mas eu ia-me encontrar hoje com o da The Forgotten, se quiserem, eu levo-vos a ele’”, recorda João Santos.

“Tinham um encontro, eram uns dias que iam passar juntos numa casa com piscina, em que o ‘Twinkle’ levaria duas crianças e este outro indivíduo levaria também duas crianças, que eram a própria filha e o enteado”, explica Ricardo Vieira.

“‘E vamos partilhar crianças, vamos fazer uma orgia’”, combinaram. Só que as autoridades conseguiram evitar mais estes crimes, numa detenção que acabou com ‘Twinkle’ acusado de mais de 72 mil crimes de pornografia de menores, num caso que o levou a ser condenado a 170 anos de prisão, tendo-lhe sido aplicada a pena máxima de 25 anos em cúmulo jurídico, numa sentença que continua a cumprir na Carregueira, em Sintra.

Com a prisão de “Twinkle”, caíram mais peças deste dominó: “Ele deu vários indivíduos à morte, efetivamente. Foram presos indivíduos no Canadá, na Austrália, no Brasil, em vários outros paíse… na Eslovénia, em vários outros países, foi ele que deu”, garante João Santos.

Mas neste mundo sórdido, a polícia não joga apenas um jogo de tabuleiro, joga vários. O trabalho não pára, pelo menos até haver xeque-mate. E esse xeque-mate foi feito a “Twinkle”, mas quantas mais peças continuam de pé?

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