"Há um sismo e vamos todos morrer, mas pelo menos vamos morrer juntos". Como turcos e sírios acordaram com um sismo de 7,8 e estão agora numa "área de desastre"

Maria João Caetano , - notícia atualizada com novos números de vítimas
6 fev, 12:00

O número de mortos nos dois países já é superior a 2.500 e os feridos serão mais de nove mil. Segundo os especialistas, a tragédia vai prolongar-se pelos próximos tempos, com população desalojada, campos agrícolas destruídos e estradas intrasitáveis

 

O sismo durou perto de um minuto, mas a Erdem pareceu-lhe interminável. "Nunca tinha sentido nada parecido nos 40 anos que já vivi", disse ele à Reuters por telefone. Erdem, que mora na cidade turca de Gaziantep, descreveu a sensação de sentir-se embalado "como um bebé no berço". Assim que o abalo parou, as pessoas saíram para a rua. "Toda a gente está sentada nos carros ou a tentar dirigir-se para espaços abertos, longe dos prédios. Imagino que nenhuma pessoa em Gaziantep esteja em casa agora."

"Nunca tinha sentido nada assim na minha vida. O abalo durou quase um minuto", contou à BBC também Nilüfer Aslan, que vive com a sua família num 5º andar na cidade de Adana, no sul da Turquia. Assim que sentiu a casa a abanar, Nilüfer chamou a família para a sala:  "[Eu disse] 'Há um sismo e vamos todos morrer, mas pelo menos vamos morrer juntos, no mesmo lugar'... Foi a única coisa que me passou pela cabeça." Quando o terramoto parou, Aslan levou a família para fora de casa. "Não trouxe nada comigo, estou na rua de chinelos". Só então descobriu que quatro prédios ao lado do seu tinham desabado. Mas a sua família tinha sobrevivido, suspirou, aliviado.

O sismo que atingiu a magnitude de 7,8 na escala de Richter aconteceu pouco depois das 4:00 da manhã (hora local, cerca da 1:00 em Lisboa), desta segunda-feira, apanhando a maioria das pessoas na Turquia e na Síria na cama. Teve o epicentro a 23 quilómetros a leste de Nurdagi, na província turca de Gaziantep, a uma profundidade de 24,1 quilómetros, informou o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). 

Fortes tremores secundários foram sentidos, a seguir, no sul e no centro da Turquia. Cerca de 11 minutos após o sismo principal, um sismo secundário, de magnitude 6,7, foi registado a cerca de 32 quilómetros a noroeste primeiro. Outro sismo secundário intenso com magnitude de 5,6 ocorreu 19 minutos após o terramoto principal. 

De acordo com os relatos, os tremores fizeram sentir-se nos países vizinhos, como Líbano, Israel, Grécia e Iraque.

Já durante a manhã, outro terramoto de 4,6 na escala Richter também abalou o Chipre: o sismo secundário, cujo epicentro foi a 75 km a sudeste de Famagusta, ocorreu às 11:23, horário local, segundo o Centro Sismológico Europeu do Mediterrâneo.

E depois das 13:00 locais, o mesmo Centro Sismológico detetou um novo sismo de magnitude 7,5, com epicentro na cidade turca de Kahramanmaras, que já tinha sido afetada pelo abalo da madrugada.

Mais de 2.500 mortos e 9 mil feridos, infraestruturas destruídas: "Precisamos de ajuda"

As primeiras fotos, divulgadas quando o sol nasceu na Turquia, mostravam a dimensão dos estragos. Prédios inteiros foram destruídos, com pedras e hastes de metal espalhadas pelas ruas, outros apresentavam rachas nas paredes e vidros partidos. Só na Turquia, 2.818 prédios terão ficado destruídos, segundo o presidente, além dos que ficaram com as estruturas abaladas e estão em perigo de ruir. Estradas abriram fendas profundas. Veículos ficaram soterrados.

Desde a madrugada, escavadoras trabalham para limpar os escombros. As equipas de resgate não pararam de trabalhar durante toda a manhã para encontrar sobreviventes presos sob os escombros de ambos os lados da fronteira, na Turquia e na Síria, num momento em que o número de mortos já ultrapassou os 2.500 - cerca de 1500 na Turquia e mais de 800 na Síria. 

Mais de nove mil pessoas ficaram feridas nos dois países, mas os números continuam a ser atualizados a todo o momento.

Mais de 2.400 pessoas foram já resgatadas mas há ainda um número desconhecido de desaparecidos - centenas de pessoas estarão presas sob os escombros, segundo os “Capacetes Brancos”, grupo oficialmente conhecido como Defesa Civil da Síria. Grande parte do noroeste da Síria, que faz fronteira com a Turquia, é controlada por forças antigovernamentais que prosseguem uma sangrenta guerra civil que começou em 2011. O facto de a região ter sido afetada por inúmeros bombardeamentos e vários anos de guerra contribuiu para o mau estado das habitações, muitas delas já demasiado fragilizadas para poderem resistir aos abalos. Do outro lado da fronteira, a situação não é melhor. Na região turca afetada pelo sismo situam-se os campos de refugiados que abrigam, em condições miseráveis, cerca de 3,6 milhões de sírios, que fugiram da guerra.

À BBC, Ismail Al Abdullah, dos Capacetes Brancos, deixou o apelo: "Muitos edifícios em diferentes cidades e aldeias no noroeste da Síria desabaram, destruídos por este sismo. As nossas equipas responderam mas muitas famílias ainda estão sob os escombros. Estamos a tentar salvá-los, mas é uma tarefa muito difícil para nós. Precisamos de ajuda. Precisamos que a comunidade internacional faça algo, nos ajude, nos apoie. O noroeste da Síria é agora uma área de desastre. Precisamos da ajuda de todos para salvar nosso povo".

Até agora, a NATO, a União Europeia e mais de 45 países já ofereceram a sua ajuda, incluindo os EUA e a Rússia. 

"Acordei apavorado" - os relatos de quem sentiu a terra a tremer

Os moradores destas regiões descreveram o medo e a confusão sentidos com o forte sismo ocorrido às primeiras horas da manhã. "Os quadros caíram das paredes da casa", disse Samer, morador da capital síria, Damasco, à Reuters. "Acordei apavorado. Agora estamos todos vestidos e parados à porta."

Outro homem em Pazarcık disse que a família acordou com fortes abalos. "Há prédios destruídos ao meu redor, há casas em chamas. Há prédios que estão a rachar. Um prédio desabou a apenas 200 metros de onde estou agora", disse Nihat Altundağ, ao The Guardian. “As pessoas estão todas na rua, todas com medo.”

"Estava a escrever e, de repente, todo o prédio começou a tremer", contou à BBC Mohamad El Chamaa, estudante na capital libanesa, Beirute. "Estava mesmo ao lado da janela, então fiquei com medo de que os vidros se partissem. Durou quatro ou cinco minutos e foi horrível. Foi alucinante", disse.

O jornalista Eyad Kourdi, que mora em Gaziantep e estava com os seus pais quando o sismo ocorreu, contou à CNN Internacional que “parecia que nunca iria acabar”. Quando o tremor parou, Kourdi e os pais saíram de casa ainda de pijama. Com vários centímetros de neve no chão, esperaram na rua, à chuva, durante cerca de meia-hora, antes de voltar a casa para apanhar casacos e botas, para ter a certeza que não iriam ocorrer mais sismos. Kourdi confirmou que sentiu até oito tremores secundários “muito fortes”, menos de um minuto após o sismo inical, fazendo com que os objetos em sua casa caíssem no chão. 

“Pazarcık está em ruínas”, contou Hüseyin Sati. “O prédio onde moro não é muito alto e foi construído de acordo com as normas antiterramotos, por isso não desabou. Mas tem rachas nas paredes.”

"Havia gritos em todo o lado", contou um homem de 30 anos, residente em Diyarbakir. "Comecei a tirar pedras com as mãos. Começámos a retirar os feridos debaixo das pedras, mas os gritos não paravam. Então as equipas [de resgate] chegaram."

Neste momento, as operações envolvem mais de 9 mil elementos da proteção civil e voluntários, e concentram-se no resgate de sobreviventes e na assistência aos feridos, mas as autoridades preveem que os próximos tempos não serão fáceis. À tempestade de inverno que assola a região, juntam-se agora a destruição de habitações e infraestraturas com números ainda desconhecidos de desalojados. A destruição de campos agrícolas, infraestruturas energéticas e estradas irá colocar sérios problemas de abastecimento de bens essenciais nas regiões mais afetadas pelos abalos. 

“As consequências serão amplas e afetarão a região por semanas ou mesmo meses”, afirmou um analista citado pela CNN Internacional. 

O sismo mais destruidor na Turquia desde 1939

A Turquia fica numa das zonas sísmicas mais ativas do mundo. A maior parte do país está localizada na placa tectónica da Anatólia, que fica entre duas placas principais - a euro-asiática e a africana - e outra menor, a árabe. À medida que as duas grandes placas se deslocam, a Turquia é como que espremida, dizem os especialistas.

Isto significa que os sismos são bastante comuns. A Autoridade de Gestão de Emergências e Acidentes do país (AFAD) registou mais de 22 mil sismos em 2022. E muitos são mortais - um dos piores já registados foi um sismo de magnitude 7,6 que atingiu Izmit, no noroeste do país em 1999, matando mais de 17 mil pessoas.

No entanto, acredita-se que o terramoto desta segunda-feira seja o mais forte a atingir a Turquia desde 1939, quando um terramoto da mesma magnitude matou 30 mil pessoas, afirma Stephen Hicks, sismólogo da University College London. Mais recentemente, em janeiro de 2020, um terramoto de magnitude 6,7 atingiu a região ao redor de Elazığ, uma cidade a leste da Turquia. Matou 41 pessoas e feriu mais de 1.600.

Raed Ahmed, chefe do Centro Nacional de Sismos da Síria, disse a uma estação de rádio estatal que este é o "maior terramoto já registado na história do centro" - que foi fundado em 1995.

Sismos desta magnitude são raros - ocorrem em média menos de cinco por ano, em algum lugar do mundo. No entanto, sete sismos com magnitude 7,0 ou superiores atingiram a Turquia nos últimos 25 anos. 

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