As exigências da Turquia para deixar que Finlândia e Suécia entrem na NATO

18 mai, 03:48
Recep Tayyip Erdogan e Vladimir Putin em 2021 (Kremlin Pool Photo via AP)

A posição dos dois países nórdicos sobre a questão curda será central nas negociações. Mas Erdogan poderá aproveitar a posição de força para fazer mais exigências à NATO, após muitos anos a cultivar a proximidade com Vladimir Putin

A oposição da Turquia à entrada da Finlândia e da Suécia na NATO caiu como uma bomba, ameaçando travar um processo que já se adivinhava como pacífico, unânime e expedito no seio da Aliança Atlântica. Depois da surpresa inicial, os governos dos dois países nórdicos têm afirmado que as divergências com Ancara serão ultrapassadas pela diplomacia, e dos Estados Unidos tem chegado a mesma convicção. O Presidente finlandês, Sauli Niinisto, que se desloca a Washington, nesta quinta-feira com a primeira-ministra sueca, Magdalena Andersson, mostra-se "otimista" de que a posição da Turquia pode ser "gerida através de negociações". 

Mas o que terá de ser negociado para que Recep Tayyip Erdoğan, o presidente turco, levante a ameaça de veto? A Bloomberg fez essa pergunta a “três altos responsáveis turcos”: o que é que o governo de Ancara pretende alcançar com uma atitude de alto risco que poderá isolar a Turquia dentro da maior aliança do mundo? Os três responsáveis turcos, que responderam sob anonimato, coincidiram na identificação das principais exigências turcas, escreve a Bloomberg. 

No essencial, as exigências têm a ver com a questão curda. Mas podem ir mais além - Erdogan poderá tentar aproveitar a posição de força que tem neste momento (a adesão dos novos países à NATO tem de recolher o apoio unânime dos membros da organização) para tentar resolver alguns focos de tensão que o seu país tem acumulado dentro da Aliança Atlântica, sobretudo por causa da sua excessiva proximidade (do ponto de vista ocidental) com a Rússia de Vladimir Putin.

O ponto essencial, dizem as fontes citadas pela Bloomberg, é que Ancara não quer repetir a atitude que teve no passado - e que hoje considera ter sido um erro - quando se colocou a questão da reentrada da Grécia na NATO. A Turquia e a Grécia aderiram à organização em 1952, três anos depois da sua criação, mas os dois países envolveram-se numa guerra em 1974, por causa de Chipre, altura em que Atenas se retirou da Aliança Atlântica. Foi a confirmação de um afastamento que havia começado uma década antes, por causa das ameaças turcas sobre Chipre. Em 1980, a Grécia pediu a reentrada na organização, o que foi aceite por Ancara. Porém, em várias ocasiões a Grécia e Chipre alinharam-se contra a Turquia, seja na NATO, na União Europeia ou na ONU, e a tensão entre os dois países permanece até hoje - o que leva o governo turco a avaliar a luz verde de 1980 como um erro que não deve ser repetido.

Eis a lista das exigências que a Turquia poderá colocar, de acordo com a Bloomberg:

 

  1. Curdos 

A questão do Curdistão é central nas preocupações de segurança da Turquia, e o país exige que quaisquer candidatos à adesão à NATO reconheçam as suas preocupações acerca das milícias curdas - tanto as que atuam dentro da Turquia, como as suas atividades na Síria e no Iraque.

A questão é delicada mesmo entre os atuais membro da NATO, pois o Partido dos Trabalhadores Curdos, ou PKK, é reconhecido como uma organização terrorista dentro da Turquia, mas muitos membros da NATO têm apoiado e até armado o seu ramo sírio, o YPG, na luta contra o Estado Islâmico. 

O caso da Suécia e da Finlândia é ainda mais problemático para a Turquia, pois estes dois países não só não consideram o PKK como uma organização terrorista como têm albergado militantes desse partido, alguns deles condenados pela justiça turca. Erdogan acusou Helsínquia e Estocolmo de "abrigar terroristas do PKK". "Os países escandinavos, infelizmente, são quase como casas de hóspedes de organizações terroristas", disse o presidente turco.

Porém, para Ancara não basta que a Suécia e a Finlândia denunciem publicamente o PKK e organizações afiliadas: os dois países nórdicos devem reprimir os simpatizantes do PKK que a Turquia diz estarem ativos nesses países.

 

  1. Armas 

Quando a Turquia, na luta contra os combatentes curdos, entrou na Síria, em 2019, foi alvo de sanções de diversos países, incluindo da Suécia e da Finlândia, que impuseram restrições à exportação de armas para as forças armadas turcas. Não foi caso único, e outros países da UE, e da NATO, fizeram o mesmo - mas a posição de força da Turquia, agora, tem a ver com os dois países nórdicos, e Erdogan quer exercer essa vantagem, exigindo o fim desse embargo.

Segundo a Bloomberg, o comércio de armas da Turquia com os dois países é insignificante, e Erdogan não anda à procura de novos grandes parceiros para a compra de equipamentos de Defesa. Mas é uma questão de princípio: a Turquia não aceita que entrem numa aliança militar de que faz parte países que lhe recusam a venda de armas. 

 

  1. Rússia

Há uma terceira ordem de exigências, que não tem diretamente a ver com a Suécia e a Finlândia, mas que a Turquia pode aproveitar para colocar em cima da mesa. Tem a ver com a proximidade com a Rússia que Erdogan tem feito questão de cultivar, sem esconder a amizade e admiração que o liga a Vladimir Putin.

Apesar de, no atual conflito, a Turquia ter condenado a invasão russa à Ucrânia, posicionou-se também como mediador do conflito, devido a essa proximidade com o Kremlin.

A proximidade com Moscovo, de resto, é essencial para a proteção das tropas turcas destacadas na Síria. E ficou particularmente visível quando, apesar de ser um membro da Aliança Atlântica, e com bastante peso na organização, a Turquia comprou sistemas de defesa antimísseis S-400 à Rússia, em 2017. 

Um passo que foi visto como uma deslealdade pela NATO, e que provocou tensões sérias com diversos membros, sobretudo com os Estados Unidos, que retaliaram restringindo a participação turca nalguns programas de ponta e o seu acesso a alguns equipamentos. É o caso dos caças F-35, que a Turquia foi impedida de comprar. 

Também há um pedido pendente aos EUA para adquirir dezenas de caças F-16 e kits para a atualização da frota existente na Força Aérea da Turquia. E houve outras sanções relacionadas com a compra dos mísseis russos, que Ancara quer ver levantadas - irá tentar incluir essa exigência como moeda de troca para dar o sim aos dois países nórdicos?

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