FIO DE JOGO || Não é preciso ser experiente para se chegar longe
Quando os portugueses pensam em Mundiais desastrosos, um dos que nos vem à cabeça é o de 2002. As derrotas frente a EUA e Coreia do Sul deixaram o país boquiaberto. Era suposto ser uma geração de ouro.
Do outro lado do continente europeu, o sentimento foi totalmente diferente. A Turquia também era inexperiente em Mundiais. A única participação havia acontecido em 1954 e a forma como conseguiram a qualificação no playoff frente a Espanha – após um empate a dois no tempo regulamentar, um rapaz de 14 anos, vendado, tirou de um saco um papel com o nome do país – foi, no mínimo, surreal. Em 2002 já não foi assim; o mérito foi unicamente turco, que derrotou a Áustria no playoff após ficar em segundo no seu grupo, atrás da Suécia.
O futebol turco vivia uma era de grande euforia. A seleção qualificou-se pela primeira vez para uma fase a eliminar de uma grande competição no Euro 2000, tendo sido eliminada por Portugal nos quartos de final. Nesse mesmo ano, o Galatasaray venceu a Taça UEFA e a Supertaça Europeia, esta última contra o Real Madrid. Como se não bastasse, o sorteio para a fase de grupos do Mundial foi muito simpático e colocou a Turquia frente a China, estreante, Costa Rica, também no seu segundo Mundial, e Brasil.
Treinados por Senol Gunes, os jogadores turcos aterraram na Ásia com a moral em alta. "Aquela equipa era verdadeiramente notável. Quase metade dos colegas de equipa jogávamos juntos desde os 17 e 18 anos. A maioria de nós tinha sido colega de equipa no Galatasaray, por isso conhecíamo-nos muito bem. Tínhamos uma química perfeita e uma equipa fantástica”, recordou Hakan Sukur, avançado, em 2023.
A estreia frente ao Brasil seria também a partida teoricamente mais complicada da fase de grupos, mas até nem começou mal. Hasan Sas adiantou os turcos com um vólei antes do intervalo. O Brasil, porém, conseguiu dar a volta. O segundo golo, de Ronaldo, aconteceu já perto dos 90. A Turquia bateu-se bem, mas foi insuficiente.
Mais do que o jogo em si, a partida é lembrada pela sofrível atuação de Rivaldo enquanto queimava tempo no final. Hakan Unsal deu uma bicada na bola, que foi contra a coxa do astro brasileiro. Rivaldo caiu ao chão, mas em vez de se agarrar à perna, levou as mãos à cara. Um comportamento vergonhoso que parece não ter incomodado o próprio. "Não, a bola não me acertou na cara, mas o jogador turco não devia ter feito aquilo, para começar. A bola tocou-me na perna e não na cabeça, mas mesmo assim o outro jogador estava em falta. Pedi-lhe desculpa, mas estas coisas acontecem no futebol”, afirmou. Unsal foi expulso.
Os dois jogos seguintes eram para carregar, mas o primeiro, frente à Costa Rica, terminou empatado a um golo. Os turcos deixaram tudo para a última jornada, em que bateram a China por 3-0, numa partida em que já ganhavam por dois golos aos nove minutos.
A explorar terras nunca por eles visitadas, os turcos marcaram encontro com um dos anfitriões, o Japão, nos oitavos de final. Aos 12 minutos, completamente solto de marcação, Umit Davala correspondeu da melhor forma a um canto e cabeceou para o fundo das redes. Até ao final, o resultado não se alterou. Nos quartos de final, iriam defrontar-se as duas surpresas da competição. O Senegal, a competir pela primeira vez num Mundial, tinha chocado o mundo ao bater a França no jogo inaugural da competição. Na ronda anterior foram os carrascos da Suécia.
O jogo foi complicado e foi apenas resolvido com um golo de ouro de Mansiz aos 94 minutos. "Sabíamos que íamos ganhar o jogo contra o Senegal porque sabíamos que éramos a melhor equipa. Devíamos ter decidido o jogo antes do fim dos 90 minutos", recorda Sukur.
A aventura terminou nas meias-finais com nova derrota frente ao futuro campeão, o Brasil. No entanto, ainda havia história a fazer. No jogo do terceiro e quarto lugares frente à Coreia do Sul, muito ajudada pelos árbitros ao longo do torneio, Hakan Sukur marcou o golo mais rápido da história dos Mundiais, necessitando apenas de 10,8 segundos para abrir o marcador. "Lembro-me como se fosse ontem. Até àquele golo, ainda não tinha marcado no Mundial. Mas Deus deu-me uma dádiva", diz Sukur. A imagem dos jogadores turcos e coreanos abraçados após o apito final também se tornou célebre.
Os anos seguintes foram uma desilusão. A Turquia falhou a qualificação para o Euro 2004 perante, imagine-se, a Letónia, e não conseguiu apurar-se para o Mundial de 2006. Porém, veio a repetir uma meia-final de uma grande competição no Euro 2008. Aí esteve mais perto de chegar ao jogo decisivo, mas um golo de Philip Lahm já no fim do jogo estragou os sonhos turcos. O Mundial de 2026 marca o regresso, embora com pouco sucesso, da seleção turca aos Mundiais.
