"Atingimos o limite". Este paraíso italiano está a impor limites aos turistas

CNN , Julia Buckley
22 abr 2023, 17:00
Trentino-Alto Adige é conhecida pelas suas paisagens deslumbrantes das Dolomitas. Martin Braito/imageBROKER/Shutterstock

Enquanto a Europa fica superlotada e multidões de turistas chegam a Itália para uma temporada de verão, uma região limitou o número de visitantes na tentativa de evitar o excesso de turismo. 

A região autónoma de Alto Adige, também conhecida como Bolzano-Tirol do Sul, no norte do país, introduziu um limite de visitantes e proibindo a abertura de novos alojamentos - a menos que outros encerrem.

A região, que faz fronteira com a Áustria, é uma das mais conhecidas portas de entrada para as montanhas Dolomitas, com visitantes a chegar para ver os espetaculares picos escarpados que brilham de rosa ao pôr-do-sol, lagos glaciais de sonho e belas cidades tirolesas, onde se deliciam com bolinhos, bebem cerveja local e praticam o alemão - já que a província é bilingue.

A capital Bolzano também abriga um residente mundialmente famoso: “Ötzi", o corpo mumificado de um homem local que morreu há cerca de 5.200 anos. O seu corpo – junto com as suas roupas quase perfeitamente preservadas – está num museu na cidade.

Arnold Schuler, responsável pelo turismo na província e que propôs a nova lei, disse à CNN que a região "atingiu o limite" do que poderia suportar.

"Atingimos o limite dos nossos recursos, tivemos problemas de trânsito e os moradores tinham dificuldade em encontrar locais para viver”, disse, acrescentando que querem “garantir a qualidade [de vida] dos locais e dos turistas”, que se agravou na última década. 

"Tornou-se demasiado" 

O prado alpino Alpe di Siusi é uma das grandes atrações de Alto Adige. Bento Fotography/Moment RF/Getty Images

Alto Adige é conhecido como um paraíso ao ar livre, mas, segundo Schuler, a sua reputação de longa data começou a ser colocada em risco pelo grande número de pessoas que visitam a zona.

"Os turistas vêm aqui para caminhar e ver lugares bonitos, não para encontrar engarrafamentos", afirmou. 

Em 2022, a região teve 34 milhões de dormidas. "Nalgumas épocas do ano e em certas zonas, tornou-se demasiado." 

"O turismo é muito importante para nós, para o emprego e para a economia, mas tínhamos atingido o limite, por isso tomámos estas medidas para garantir uma melhor gestão do fluxo de pessoas e para garantir o alojamento aos turistas."

A lei, que foi promulgada em setembro de 2022, impede qualquer pessoa de abrir um novo alojamento (incluindo um Airbnb) ou de acrescentar mais quartos sem pedir autorização à autoridade local.

A estrada para Alpe di Siusi está encerrada entre as 09:00 e as 17:00 para evitar a superlotação. Richard Baker/Corbis News/Pictures Ltd./Getty Images

O número de camas oficialmente registadas em 2019 foi fixado em pouco menos de 230.000. Os empresários têm agora até 30 de junho para informar as autoridades sobre o número de hóspedes que efetivamente alojaram em 2019 - adicionando essencialmente sofás-cama à contagem, que não eram contabilizados anteriormente em números oficiais. O número final marcará o limite, que não poderá ser ultrapassado no futuro. Cada empresa terá o seu número de quartos fixo, e cada comuna terá também um número definido – e todos os negócios sob a sua autoridade.

A fim de apoiar as pequenas empresas, haverá mais 7.000 camas atribuídas entre as autoridades locais do Alto Adige para distribuir como entenderem pelas pequenas empresas com capacidade para menos de 40 hóspedes. Outras 1.000 camas serão atribuídas em circunstâncias excecionais se, no futuro, alguém quiser abrir um negócio numa cidade com níveis de turismo muito baixos.

Limites aos “day-trippers”

Lago di Braies é um impressionante lago glacial no Alto Adige. Roberta Corradin/REDA&CO/Universal Images Group/Getty Images

Os “day-trippers” ("Viajantes de um dia" na tradução literal) - vistos como o flagelo do turismo excessivo de Veneza - também não passarão incólumes.

Desde 2021, o acesso de carros na época alta ao Lago di Braies (ou Pragser Wildsee) - um lago glacial perfeito nas montanhas, e uma imagem obrigatória no Instagram – só é possível com reserva. Schuler explicou que a região tomou esta medida - que ele chama de "projeto-piloto" - porque a situação estava a tornar-se insustentável.

"É necessário registar-se para ir para o lago, mas desta forma o acesso é garantido e não estarão lá muitas pessoas. Todos poderão ver o lago."

O acesso ao Alpe di Siusi, ou Seiser Alm em alemão - um vasto prado alpino à sombra das montanhas - também foi restringido. A estrada até ao planalto está encerrada entre as 09:00 e as 17:00 a veículos particulares - qualquer pessoa que queira passar terá de utilizar os transportes públicos. Os residentes e turistas com reservas de hotel no planalto estão isentos.

E espera que estes sejam os primeiros passos de um sistema de reservas mais amplo para zonas populares, já que Schuler acredita que "o farão noutras zonas da região". "Limitar o acesso aos locais mais populares beneficia todos", defendeu, comparando-o a museus e galerias que vendem um número fixo de bilhetes por dia. "Não são só os habitantes locais que estão contentes, mas também os turistas que têm menos problemas de acesso, estacionamento e podem facilmente encontrar um lugar para comer."

Não há casas para os residentes

Schuler referiu que a enxurrada de turistas também estava a prejudicar a vida dos habitantes locais, que tinham muitas dificuldades em encontrar alojamento.

"Era cada vez mais difícil encontrar habitação porque muitos [alojamentos] foram transformados em alojamento turístico", disse, acrescentando que, como resultado, os custos do arrendamento aumentaram. 

A região tem uma população de cerca de 532.000 habitantes, que ultrapassa o número de camas em alojamentos turísticos - cerca de dois para um - mas essa média deve-se a algumas áreas que recebem pouco turismo. "Temos zonas onde o número de camas turísticas supera em muito o número de habitantes", garantiu Schuler.

O número de Airbnbs na região aumentou 400% nos últimos cinco anos, indicou igualmente. 

"Sempre dissemos que queríamos ser uma região para turistas, mas também um lugar onde a população local viva bem", sublinhou.

Qualidade e não quantidade

O acesso ao lago foi restrito após a fama no Instagram e o excesso de turismo. Mairo Cinquetti/NurPhoto/Getty Images

Qualquer pessoa que queira abrir um hotel, B&B ou arrendar uma casa de férias terá dificuldades, mas não será necessariamente impossível.

Se um negócio encerrar, a atribuição de camas voltará para a sua comuna. Podem então doar esses pontos a novas aberturas ou a alguém que queira ampliar a sua propriedade. "Desta forma, garantimos que o número de vagas permanecerá inalterado no futuro", explicou Schuler.

A medida faz parte de um documento de 100 páginas chamado "Programma provincial per lo sviluppo del turismo 2030+". O documento descreve os anos de investigação que foram dedicados ao programa e explica como pretende desenvolver a região de forma sustentável. Outra medida é a introdução de um sistema de classificação "estrela verde" para recompensar hotéis que trabalham de forma sustentável.

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