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Londres abraçou um turismo dedicado a Jack, o Estripador. Os locais é que não acham graça nenhuma

CNN , Elizabeth McBride
10 ago 2025, 15:00
Este assassino desconhecido matou brutalmente pelo menos cinco mulheres no século XIX. Hoje, contudo, seguir os seus passos é encarado como algo inofensivo por inúmeros visitantes (Mark Kerrison/In Pictures/Getty Images)

Este assassino desconhecido matou brutalmente pelo menos cinco mulheres no século XIX. Hoje, contudo, seguir os seus passos é encarado como algo inofensivo por inúmeros visitantes

O relógio aproxima-se das 20:00. Três grupos de turistas disputam o espaço na Mitre Square, onde Catherine Eddowes, vítima de homicídio, foi encontrada com o rosto mutilado e um rim removido. “Já vi dois guias a brigarem, à porrada, para terem espaço aqui”, conta Charlotte Everitt, guia da Rebel Tours, com sede em Londres.

Os turistas costumam chegar a Londres com uma lista de locais que querem visitar e/ou fazer. O Palácio de Buckingham, a Tower Bridge, tomar o chá das cinco. E falta, espante-se, um passeio dedicado a Jack, o Estripador. Todas as noites há centenas de turistas que percorrem os supostos passos deste assassino em série, que nunca foi identificado. Matou brutalmente pelo menos cinco mulheres em 1888. E, nos entretantos, tornou-se uma das exportações culturais mais lucrativas do Reino Unido.

Contudo, para alguns locais, esta indústria já foi longe demais. A abertura do “Jack the Ripper Museum”, dedicado a este assassino em série, em 2015, motivou protestos. Em 2020, o organismo oficial de cartografia deste país, o Ordnance Survey, viu-se obrigado a cancelar o passeio intitulado “Guts and Garters in the Ripper’s East End” [Tripas e Ligas no East End do Estripador], depois de um cliente ter alegado preocupações com os “padrões editoriais”. Nesse mesmo ano, um mural dedicado ao assassino foi coberto com o nome de Catherine Eddowes, uma das suas vítimas.

O turismo que se desenvolve a partir do universo criminal não é um exclusivo desta zona de Londres. Uma série recente da Netflix sobre os irmãos Menendez, condenados pelo homicídio dos pais em 1989, atraiu multidões à mansão da família em Beverly Hills. Por seu lado, o local do massacre de Jonestown, na Guiana, iniciou visitas guiadas há pouco tempo. Em Milwaukee, um passeio chamado “Cream City Cannibal Tour” leva os visitantes aos locais ligados ao assassino em série – e também estrela de uma série da Netflix – Jeffrey Dahmer.

“Os nossos mortos podem dar-nos lições de história, por assim dizer. Contudo, o problema está na forma como os recordamos. Trata-se de uma política de memória: quem lembramos e porque motivo”, afirma Philip Stone do Dark Tourism Institute, da University of Central Lancashire, no Reino Unido, que se dedica ao estudo do fenómeno do turismo negro [que assenta na visita a locais associados a crimes ou práticas obscuras]. “É claro que Jack, o Estripador foi lembrado pelas atrocidades que cometeu, mas também foi profundamente romantizado”.

Esbater fronteiras

Segundo Stone, há um “efeito de atração e repulsa” naquilo que diz respeito à popularidade de Jack, o Estripador. “A indústria moderna em torno desta figura sabe vender-se muito, muito bem. Contudo, há um fascínio inerente pela história”.

“O tempo é o melhor remédio, mas é também o tempo que reinventa a história. Existe uma teoria da ‘distância cronológica’. Ou seja, à medida que nos afastamos no tempo de determinado acontecimento ou situação, há algo se funde com a cultura popular”.

“É como se Jack, o Estripador, se tivesse transformado numa personagem de ficção. Foi romantizado, absorvido pela cultural popular, o que acaba por esbater as fronteiras entre o que é real ou não”.

Os passeios são, sem dúvida, populares. As referências aos crimes tornam-se elementos fixos da paisagem de Whitechapel. Há uma barbearia chamada “Jack, the Clipper” [Jack, o Cortador]. Há um restaurante que se chama “Jack, the Chipper” [Jack, o Picador]. A loja de vestuário AllSaint deu um novo nome à sua principal loja naquela área, a “Jack’s Place” [O Lugar de Jack]. E, até há pouco tempo, existia um vendedor de batatas assadas chamado “Jacket the Ripper”.

 

Vários negócios no leste de Londres, incluindo este restaurante de “fish and chips” [filete de peixe frito com batatas fritas, prato típico britânico] estão a tirar partido da notoriedade de Jack, o Estripador (Robert Evans/Alamy)

“O problema não é falar sobre os homicídios de Whitechapel”, diz Everitt. “O problema é o modo como se fala deles”. A Rebel Tours lançou, em 2022, um passeio alternativo. Chama-se “Jack, o Estripador. E as mulheres?”. Num primeiro momento, a empresa ponderou deixar de fora o nome do assassino. Contudo, sem essa referência, tornava-se praticamente impossível gerar interesse.

“As pessoas ouvem falar daquilo que fazemos e reconhecem que é fantástico. Contudo, não vemos essa reação refletir-se no número de excursões. Não estou a dizer que é algo que queremos. Somos uma empresa dedicada a grupos pequenos e gostamos disso. Todavia, é revelador: mostra que as pessoas continuam a preferir outro tipo de passeio”, refere Everitt.

Para a guia, o uso de imagens explícitas, bem como a insistência de que todas as vítimas eram prostitutas, apesar de existirem provas concretas do contrário, estão entre os aspetos mais problemáticos.

“Há guias que mostram imagens do corpo de Mary Jane Kelly. Se não mostraríamos o corpo de uma vítima dos nossos dias, porque é que é aceitável mostrar o dela? Ela era tao real como qualquer outra pessoa”, lamenta.

 “Ofensivo a um nível absurdo”

Há um escritor local, conhecido como “The Gentle Author”, que escreveu mais de cinco mil artigos sobre a história desta área de Londres, conhecida como East End, no seu blogue “Spitalfields Life”. Contudo, nenhum desses artigos é sobre os assassinatos de Whitechapel. “As pessoas que vivem aqui ficam verdadeiramente revoltadas com estes passeios. Todas as noites há centenas de pessoas a deambular por estas ruas. É algo ofensivo a um nível absurdo”.

Este escritor dá o exemplo de vizinhos que mudaram de casa logo depois de terem tido um filho. “Diziam que não conseguiam criar um bebé numa casa onde, todas as noites, um homem se punha à janela a dizer ‘Foi aqui que cortaram alguém do lábio ao umbigo’. É mórbido”.

E não fica por aqui. “Nestes passeios, projetam imagens reais das cenas do crime nas paredes, fazem piadas sobre as mulheres que foram assassinadas. Basta passar perto para ver as pessoas a rirem-se”.

 

Os guias levam os ansiosos turistas a lugares como a Pinchin Street, onde foi encontrado o corpo de uma vítima (Mike Kemp/In Pictures/Getty Images)

Há quatro anos, “The Gentle Author” começou a organizar os seus próprios passeios, que se centram na história operária de East End, na chegada das comunidades imigrantes e na gentrificação recente. O objetivo é “reivindicar as ruas para a comunidade”. Todavia, continua a ser difícil chegar a um publico mais vasto. “A maioria dos nossos clientes é composta por leitores do blogue. Os passeios sobre Jack, o Estripador, monopolizam o mercado”.

“Já vi um guia a correr atrás dos turistas, à volta de uma igreja, com uma faca da talhante na mão. Outro punha a banda sonora do filme ‘Psycho’ em todos os locais onde tinha havido um homicídio”, conta Jessica O’Neil, fundadora da “The Museum Guide” e antiga guia de excursões dedicads a Jack, o Estripador. Como guia, clarifica, sempre foi contra a ideia de mostrar imagens dos crimes. “Há pessoas que dizem que é educativo. Se estiveres a estudar criminologia, talvez seja. Mas estes passeios não são educativos, são entretenimento”.

Jessica O’Neil deixou de fazer estes passeios há cinco anos, depois de ter sido confrontada na rua por uma trabalhadora do sexo. “Ela veio ter comigo, no meio de uma excursão, a gritar. ‘Porque é que não te importas comigo e com as minhas amigas? O que há de errado contigo?’”, recorda. “Voltei mais tarde para tentar encontrá-la. Não sei porquê, talvez para lhe pedir desculpa. Queria dizer-lhe que eu era diferente. Mas não era”.

“Nem todos os passeios são terríveis. Há uns que tentam falar acerca das mulheres que foram vítimas de Jack, o Estripador. Eu tentava trazer alguma compaixão. Ainda assim, é um negócio mórbido”, admite. “Até gosto de coisas mórbidas. O problema é que, nestes passeios, quase sempre, as mulheres acabam por ser transformadas em piada”.

“Contexto histórico”

Em 2015 foi inaugurado o “Jack the Ripper Museum”, museu dedicado a esta figura do imaginário britânico. Era mais um local a fazer negócio à custa do caso, o que acabou por gerar polémica. O museu recebeu autorização para funcionar com base na promessa de que contaria a história das mulheres do East End. Descrevia-se como um espaço que prestaria homenagem à “contribuição histórica, atual e futura das mulheres do East End”.

“Toda a gente ficou muito entusiasmada com a ideia de um museu sobre a história das mulheres do East End de Londres. Só que, depois, viemos a descobrir que se tratava de um museu sobre Jack, o Estripador, com algumas tentativas superficiais de contar a história do bairro. Foi aí que começou a indignação”, conta Catherine Owen, presidente do “East End Women’s Museum”, que surgiu como contrarresposta.

O “The Jack the Ripper Museum” disse à imprensa, em 2015, que “não ia glorificar os assassinatos”. Contudo, há muita gente irritada com o seu âmbito (Shutterstock)

O fundador do museu, Mark Palmer-Edgecumbe, afirmou em 2015 que o nome completo do espaço era “Jack the Ripper and the History of Women in East London” [Museu de Jack, o Estripador, e da História das Mulheres em East London]. Na altura, referia ainda que o letreiro do espaço estava incompleto. E juntava: “Não estamos a glorificar os assassinatos ou a celebrá-los. Estamos a fazer uma análise forense dos crimes, enquadrada no contexto histórico da época”.

Uma década depois, o museu continua a funcionar com o nome curto, sem referência às mulheres. A loja de recordações vende ursos de peluches vestidos como o famoso (mas desconhecido) Estripador. Há ainda t-shirts com a silhueta (imaginada) do assassino. Este museu não respondeu aos pedidos de entrevista da CNN. Optou apenas por destacar as avaliações positivas que recebeu no TripAdvisor.

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