Há pessoas que estão a trocar casas com estranhos em vez de ficarem em hotéis ou alojamentos locais

CNN , Joe Minihane
8 mar 2025, 15:00
Lauren Shaw trocou a sua casa de Nova Iorque por umas férias a praticar esqui (Cortesia Kindred)
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Lauren Shaw trocou a sua casa de Nova Iorque por umas férias a praticar esqui. E não é caso único

Lauren Shaw adora viajar. Mas colocar a sua própria casa a arrendar? De maneira nenhuma.

“Nunca me senti confortável em colocar o nosso apartamento numa plataforma de arrendamento”, diz. “Tive amigos que tiveram experiências horríveis com hóspedes e praticamente não receberam ajuda das equipas de apoio da plataforma de reservas a que recorreram”.

Também há a questão do custo. Shaw, que é de Nova Iorque, adora esquiar. Trata-se de uma atividade evidentemente cara, mas cujos custos de alojamento dispararam com o crescimento dos arrendamentos de cura duração na última década.

“De uma forma geral, o alojamento para quem vai praticar esqui é caro e proibitivo”, diz.

Em alternativa, Shaw e o companheiro recorreram à troca de casas para transformarem os seus sonhos de viagem numa realidade.

“Adoramos viajar. E isto deu-nos a possibilidade de o fazer com mais frequência, uma vez que o alojamento, na maioria dos casos, é a parte mais cara de uma viagem”, descreve. “Como também temos de deixar outras pessoas ficar na nossa casa para ficarmos na casa de alguém, há mais responsabilidade, trata-se o espaço das outras pessoas como gostaríamos que tratassem o nosso”.

Uma nova forma de fazer negócio

Uma propriedade em Snohomish, Washington, que está disponível para uma troca de casas (Brittany McCloskey/Cortesia Kindred)

Shaw aderiu à Kindred, uma das várias plataformas de troca de casas que permitem aos utilizadores viajar pelo mundo gastando menos dinheiro.

Além de ajudarem a reduzir os custos, estes serviços também são uma forma de aliviar as preocupações crescentes sobre o excesso de turismo e sobre o elevado número de alojamentos locais, que acabam por forçar os locais a saírem das suas comunidades de origem.

“Mais de 90% das nossas casas são a principal habitação do anfitrião, onde vivem a maior parte do ano”, explica Justine Palefsky, cofundadora da Kindred.

“Os membros da Kindred trocam noites, não dólares, por isso não há forma de comprar ou vender noites na nossa plataforma utilizando dinheiro”.

A Kindred, lançada em 2022, tem agora 75 mil membros em 150 cidades dos Estados Unidos da América, Canadá e México, mas também na Europa Ocidental.

A inscrição na Kindred é gratuita, não havendo qualquer taxa de adesão.

“Os anfitriões não ganham dinheiro ao hospedar outro membro, só ganham a possibilidade de ficarem na casa de outra pessoa noutro momento”.

Os utilizadores têm de pagar apenas uma taxa entre os 15 e os 35 dólares [algo entre os 15 e o 35 euros] à empresa quando ficam na casa de outra pessoa, além de cobrirem os custos de limpeza no final da estada. Palefsky concretiza que tal representa praticamente um décimo do que custaria reservar um alojamento local.

O impacto dos alojamentos locais nas comunidades locais, diz, é algo de que está perfeitamente consciente.

“O que era realmente importante era desenhar um sistema que tivesse um impacto mais consciente nas nossas cidades. Cresci em São Francisco, uma cidade com um custo de vida muito elevada. Olhava à volta e pensava: ‘Uau, como é que vou conseguir pagar o mesmo estilo de vida que os meus pais tinham?’”.

Uma propriedade para a troca de casas na desértica cidade de Palm Springs, na Califórnia (Daniel Morando/Cortesia Kindred)

Esta é uma preocupação que está a ser sentida em cidades de todo o mundo. A Airbnb, em particular, tem estado debaixo de crescentes críticas e pressões regulatórias, à medida que autarcas e governos tomam medidas para lidar com a subida no valor das rendas, pressionados pelo facto de existirem apartamentos que estão a ser direcionados para os turistas e não para a população local.

Além disso, há alterações na dinâmica de um bairro ou de uma comunidade provocadas pela presença dos alojamentos locais, que acabam por afastar muitos pequenos negócios, já que os turistas não sentem necessidade de os utilizar.

Desde novembro de 2023, a lei de Nova Iorque proíbe que os membros da Airbnb aluguem os seus apartamentos inteiros. Os utilizadores deste serviço podem apenas arrendar espaços das suas casas, como quartos, enquanto vivem na propriedade. Têm de estar devidamente registados. Quem não o fizer, arrisca-se a coimas de milhares de euros.

No entretanto, Barcelona está a ponderar proibir completamente os alojamentos locais até 2028, na sequência de protestos nas ruas sobre o excesso de turistas, dando um sinal para aqueles que utilizam este tipo de plataformas e serviços para arrendamentos de curta duração.

“Tudo pode ser partilhado”

Além da questão do dinheiro poupado e de trazer uma perspetiva diferente sobre a economia do turismo, a troca de casas também integra em si uma noção mais apurada sobre o que verdadeiramente significa viajar.

“A premissa inicial do Airbnb era de que tudo podia ser arrendado ou alugado, até o nosso bem mais precioso”, diz Emmanuel Arnaud, presidente executivo da HomeExchange. A HomeExchange existe há mais de 30 anos, inicialmente como um negócio feito através de catálogos, passando depois para o mundo digital. Hoje tem mais de 200 mil membros em 150 países. Nos últimos três anos tem registado crescimentos anuais acima dos 50%. Em 2024, foi responsável por mais de 460 mil trocas de casa. É possível que já tenha ouvido falar desta plataforma à custa do filme “The Holiday” [“O Amor Não Tira Férias”, em português], onde Cameron Diaz e Kate Winslet trocam de casas e de vidas, encontrando o amor durante esse processo.

“A nossa premissa é a inversa: tudo pode ser partilhado. Há um outro mundo possível, onde as coisas não têm de ser necessariamente convertidas em dinheiro, em ganhos. Até o seu bem financeiro mais importante, mais íntimo, pode ser partilhado. Se todos partilharmos, podemos desbloquear possibilidades incríveis de viagens”.

A HomeExchange tem um modelo de funcionamento ligeiramente diferente da Kindred. Os utilizadores pagam uma taxa fixa de 220 dólares por ano, podendo fazer as trocas que quiserem. No entanto, o princípio é muito semelhante: a viagem pode tornar-se mais acessível, permitindo ainda criar ligações mais fortes se olharmos para lá da mera ideia de fazer dinheiro com as nossas casas.

“Ao eliminarmos essa troca de dinheiro, o facto de uma parte pagar à outra, a relação entre as duas partes torna-se realmente diferente. Transforma-se numa relação de pares, onde ambos contribuíram com algo, onde houve uma conexão antes da própria estadia, uma vez que dois seres humanos decidiram confiar um no outro”, argumenta Palefsky.

“Estive grande parte da minha carreira no setor da tecnologia e saí de lá com um desejo de conseguir um pouco mais de substância, de conseguir usar a tecnologia para conectar as pessoas com o mundo, para ajudá-las a se conectarem umas com as outras, criando relações humanas mais valiosas”, acrescenta.

 “Passei grande parte da minha carreira na área da tecnologia e saí com um desejo de um pouco mais de substância e de usar a tecnologia para realmente conectar as pessoas com o mundo, para as ajudar a conectar umas com as outras e ajudar a criar relações humanas mais ricas,” acrescenta ela.

Uma resposta para o excesso de turismo?

O humorista Esmond Fountain trocou a sua casa em Nova Iorque por uma outra em Londres (Cortesia Kindred)

É claro que, na troca de casas, os utilizadores têm de ter muito mais trabalho, incluindo conectar-se com os potenciais ‘trocadores’ por videochamada e garantir que são as pessoas certas para que a outra parte lhes confie a casa. Contudo, o benefício é claro: uma experiência mais profunda e valiosa para todos.

“Conhecer pessoas que querem, de uma forma genuína, partilhar os seus espaços, fazendo os outros sentirem-se bem-vindos, é revigorante. Esse espírito de generosidade e conexão mexe comigo”, diz o humorista Esmond Fountain, que vive em Nova Iorque.

Fountain explica que participou num encontro de utilizadores da Kindred e que acabou por utilizar o serviço quando fez a sua primeira viagem fora do Estados Unidos da América. O destino era Londres. Ficou na casa de um amigo que fez durante aquele encontro.

“Não tem a ver só com o facto de a viagem ficar mais barata. Há um sentido de comunidade que fez uma grande diferença na minha vida”, conta.

Barbara, uma utilizadora da HomeExchange, que preferiu não partilhar o apelido por uma questão de privacidade, replica as palavras de Fountain.

“Esta experiência de troca de casas acabou por enriquecer muito a minha vida. Tenho amigos espalhados por todo o mundo. Visitei lugares que nunca achei ser possível. Aprendei como as pessoas reais vivem nesses sítios”.

Estas histórias sugerem que há um nicho crescente entre aqueles que desejam criar ligações humanas. Já para aqueles que desenham políticas públicas, o maior atrativo da troca de casas está no seu potencial de mudar o turismo para melhor.

“Se todas as pessoas que estão agora dedicadas ao alojamento local estivessem, em alternativa, a fazer trocas de casas, não haveria excesso de turismo, porque o número de alojamentos disponíveis seria o número de pessoas que lá vivem”, diz Arnaud. “Por isso, não estaríamos a adicionar novas pessoas, não estaríamos a aumentar a população total”.

Para cidades como Barcelona ou Nova Iorque, tal mudança poderia significar uma forma de resolver o que há muito tempo parece um problema sem solução.

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