“É preocupante a componente do custo de vida”. Portugal vira-se para os EUA para tentar contrariar os danos da inflação no turismo: entrevista a Luís Araújo

2 nov, 07:00
Luís Araújo, Turismo de Portugal (Getty Images)

Com a guerra e a inflação a pressionarem os orçamentos europeus, Portugal virou-se ainda mais para um mercado onde o retorno é notório: o americano. “A valorização do dólar também tem impacto”, admite Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal. O custo da energia noutros países, admite, tem ajudado a estadias mais longas em Portugal, de turistas em teletrabalho, admite o responsável. Há preocupação com a incerteza no setor, mas os números continuam a dar ânimo. A recuperação plena pós-pandemia acontecerá um ano mais cedo do que o previsto

Com a alteração do contexto económico europeu, à custa da guerra e da inflação, houve uma alteração da estratégia de promoção turística, com foco no mercado norte-americano?

A alteração de estratégia dá-se todos os dias. Há algum tempo que vimos a trabalhar o mercado dos Estados Unidos da América (EUA) na área da promoção. Nos últimos cinco ou seis anos, implementámos nesse mercado uma estratégia muito ligada ao reforço da conetividade aérea [com novos destinos da TAP].

Em termos concretos, esse trabalho dá-se como?

Temos procurado aumentar a notoriedade de Portugal junto do consumidor. Obviamente, os EUA são um mercado gigantesco. Temo-nos focado nas regiões onde há ligações diretas. Este ano, por exemplo, já vamos com 27 “press trips” [viagens de jornalistas americanos até Portugal], com um efeito multiplicador.

E quanto têm investido em campanhas promocionais para este mercado concreto?

Temos à volta de 800 mil euros para campanhas para os EUA. É um valor 40% acima do que tínhamos para 2019. Temos mais de 10 milhões de pessoas alcançadas.

Mas, no bolo total da promoção, este mercado pesa quanto? Tem havido redireccionamento das verbas?

Pesa 10 a 15%. O mercado asiático tem estado mais parado em termos de campanhas. Pelo facto de as campanhas serem digitais, conseguimos direcionar [mais rapidamente essas verbas].

Da campanha à chegada do turista a Portugal há sempre uma margem. O que torna efetiva a decisão? É o facto de Portugal continuar a ser, na visão destes turistas, um destino barato?

Diria que é principalmente a questão da conetividade aérea. De janeiro a agosto, quando comparado com 2019 [último ano antes da pandemia], estamos a crescer 20% acima em termos de hóspedes e dormidas. E 40% acima a nível da receita turística no que respeita a este mercado emissor.

São um mercado conhecido por gastar muito. A valorização do dólar face ao euro também ajuda a tornar Portugal mais atrativo?

Obviamente que a valorização do dólar também tem impacto [na captação de turistas americanos]. Mas é um impacto a nível europeu. De facto, os turistas americanos gastam muito, ficam mais tempo, correm todo o território. As regiões do Norte, do Algarve e da Madeira foram aquelas onde a sua presença mais cresceu – esta última à custa de novas ligações aéreas. A conetividade [aérea] está praticamente aos níveis de 2019. E temos também a aposta em eventos muito concretos, na ótica B2B [“Business to Business”, entre operadores do setor].

Ações de promoção procuram conquistar a atenção para o destino Portugal (Getty Images)

Mas Portugal continua a depender fortemente dos mercados europeus, onde o impacto da guerra e da inflação é inegável, com redução do poder de compra. A Alemanha, um dos principais mercados, já admitiu o cenário de recessão. Como se lida com essa realidade que pode colocar em causa o crescimento da atividade turística em Portugal?

A incerteza é, em qualquer atividade, um princípio base. Continuamos a ter muita procura. Do ponto de vista de ligações aéreas, conseguimos recuperar as ligações que tínhamos antes da pandemia e conseguimos novas ligações. Pela resposta que temos, por parte de consumidores e operadores, tem vindo a aumentar a procura por Portugal. Temos inclusive visto estadias mais longas.

É Portugal, com um custo de vida mais baixo do que esses mercados emissores, a tirar partido disso?

A subida do custo da energia a nível europeu pode beneficiar algumas estadias mais longas, ao nível do teletrabalho. Mas essa procura é resultado, diria, de termos, nos últimos anos, promovido Portugal ao nível de condições de vida, segurança, conetividade, como um destino que não é só para passar férias mas para visitar ao longo de todo o ano.

Então, a promoção de Portugal não passa pelo facto de ser barato, mesmo que informalmente esse aspeto seja muito falado entre os turistas, distinguindo-o de outros destinos europeus?

Não, de todo. Inclusive somos o país que mais tem crescido em termos de receitas. Isso tem muito a ver com a perceção de valor [da qualidade da oferta] que as pessoas têm. Prova disso é o facto de o crescimento da receita ser muito superior ao crescimento de dormidas e hóspedes. Até agosto, comparando com 2019, o crescimento das receitas é de 13%. O nível de dormidas e hóspedes está 5% abaixo.

Muito do que alavancou a retoma nos últimos anos foi o turismo interno. As famílias portuguesas também têm um orçamento cada vez mais apertado. E, muitas vezes, quando fazem as contas, percebem que lhes sai mais barato ir para o estrangeiro. Como se concorre com isso?

Sentimos, ao longo destes dois anos, o crescimento da procura de Portugal por portugueses. É importante que se crie uma fidelização. Por haver um melhor conhecimento do mercado, continua a haver uma procura grande, sobretudo por destinos internos menos conhecidos. Há capacidade de absorver este mercado nacional. Mas já sabíamos que, quando eliminassem as restrições da covid-19 e da mobilidade, que haveria portugueses a ir para o estrangeiro. É essencial fazer essa fidelização. Muitas regiões e operadores estão a fazer esse processo [com oferta adaptada ao gosto e poder de compra nacional]. É preocupante a componente do custo de vida. Mas é uma preocupação para o setor como um todo, não apenas para Portugal.

Diversidade continua então a ser a palavra-chave.

Não é esquecer um lado e apostar no outro. Continuamos a apostar na promoção, embora focados em captar um segmento mais elevado e com um poder de compra maior. Por exemplo, [nesse sentido de promover novos produtos e destinos], lançámos uma campanha para captar turistas para as aldeias que foram atingidos pelos incêndios. Estamos a ter forte adesão no mercado ibérico, muito à custa da autenticidade do produto. E estamos a ponderar levar essa campanha para outros mercados.

Números do turismo em Portugal são animadores (Getty Images)

Nesta altura, embora não tenham saído os dados oficiais do INE, o verão está já fechado. E o verão é sempre o melhor barómetro de como está a evoluir a atividade. Qual é o balanço?

O resultado acumulado é extremamente positivo. Os números do verão são superiores aos do verão de 2019. Em agosto, batemos mesmo um recorde: tivemos mais de três mil milhões de euros em receitas turísticas num só mês.

E podemos afirmar que o efeito da pandemia já foi ultrapassado e que a recuperação plena, prevista para 2024, já foi atingida?

Ainda temos limitações com o mercado Ásia-Pacífico. Mas estamos a antecipar o objetivo da recuperação. Em 2023, já vamos ter a recuperação ao nível de receitas turísticas. Continuamos a sentir muita procura.

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