É isto que acontece quando a sua casa vira uma atração turística

CNN , Lilit Marcus
25 dez 2024, 16:00
A Portobello Road, em Londres, que ilustra este artigo, é um ponto obrigatório em muitos roteiros. Contudo, isso também traz problemas a quem lá mora (Mark Kerrison/In Pictures/Getty Images)

A Portobello Road, em Londres, que ilustra este artigo, é um ponto obrigatório em muitos roteiros. Contudo, isso também traz problemas a quem lá mora

Alguma vez olhou para uma bela casa típica de Londres e pensou “deve ser mesmo incrível morar ali”?

Se sim, não é o único. Contudo, para as pessoas que vivem mesmo nessas casas, as fotografias para as redes sociais mudaram completamente a experiência de viver num lugar tão pitoresco?

Alice Johnston é uma moradora de longa data em Notting Hill, o bairro de Londres conhecido pelas suas casas geminadas, pintadas em tons pastel, que serviu de cenário ao filme homónimo com Julia Roberts e Hugh Grant.

Alice Johnston, que é jornalista, tem sentimentos contraditórios sobre este bairro que é amado pelo Instagram. Vive em Portobello Road, uma das ruas mais conhecidas de Londres. E já assistiu aos comportamentos mais loucos, tudo com o objetivo de tirar a fotografia perfeita.

Uma vez, Alice e um amigo estavam a passear o bulldog francês dele quando uma turista lhes perguntou se podiam “emprestar” o cachorro para uma fotografia rápida. O amigo e o cão lá consentiram, a “instagrammer” posou com o bicho em frente de uma brilhante porta azul e acabou a oferecer cinco libras [cerca de seis euros] como forma de agradecimento.

Vidas privadas, espaços públicos

Nesta história, tudo correu bem. Todos se divertiram. Contudo, pode haver um lado sombrio de viver naquilo que muitos pensam ser um cenário de filmes.

“Uma vez fui acordada às seis da manhã, num domingo de Páscoa, por adolescentes franceses a tirar fotografias na parte de fora”, conta Alice Johnston.

E partilha ainda outra situação caricata: “Houve uma vez em que estava a vestir-me, depois de tomar banho, e havia um idoso a tirar uma fotografia da minha janela com um iPad”.

Apesar de os estores estarem fechados naquele momento, Alice ficou muito abalada com tal experiência.

Quando as casas privadas – e as pessoas que vivem nelas – se tornam atrações turísticas, podem surgir confrontos. Em áreas mais rurais, os moradores podem colocar vedações ou outro tipo de barreiras de acesso. Todavia, quando essas casas estão nas ruas das cidades mais movimentadas do mundo, sendo por isso de uso coletivo, o que podem fazer os habitantes?

Comunidades diferentes têm adotado abordagens diferentes. Em Hong Kong, um grupo de cinco aglomerados habitacionais, ligados entre si e conhecidos como “Edifício Monstro”, tornou-se um lugar muito procurado para “selfies”, depois de ter aparecido em vários filmes de Hollywood, incluindo “Transformers 4: Era da Extinção”.

O megaempreendimento é em Quarry Bay, um bairro relativamente tranquilo no lado leste da ilha de Hong Kong, que escapa à maioria dos visitantes.

Os residentes, da sua maioria da classe trabalhadora, não conseguem bloquear o acesso porque há comércio e lojas no piso térreo. Assim, alguns resolveram tratar do problema com as próprias mãos, afixando cartazes a pedir aos visitantes para que sejam mais respeitadores.

Num cartaz em inglês e chinês colocado no local por residentes pode ler-se que “isto é uma propriedade privada. Está proibido todo o tipo de atividades para quem trespassar esta propriedade, incluindo tirar fotografias, fazer reuniões, usar drones e gritar. Não nos responsabilizamos por quaisquer danos materiais ou pessoais causados por qualquer acidente”.

Um dos cartazes a pedir aos turistas que se comportem adequadamente no “Edifício Monstro” de Hong Kong (Lilit Marcus/CNN)

Contudo, muitos visitantes ignoram os cartazes ou encaram-nos apenas como uma sugestão. Uma rápida pesquisa no Instagram mostra a imensidão de imagens que foram ali foram tiradas recentemente.

Alice Johnston conta que uma casa, que é de um tom rosa pálido, perto de onde vive em Notting Hill, se tornou um local tão popular para fotografias que até os moradores desistiram de tentar fazer com que os turistas respeitem as distâncias. Em vez disso, colocaram uma caixa para doações, pedindo às pessoas que contribuam com dinheiro para causas de caridade, em troca de uma fotografia.

Quando a sua casa é um pedaço de história

A avó de Chuck Henderson, chamada Della Walker, era uma apreciadora de arquitetura. Tão apreciadora que conseguiu encomendar uma casa, na Califórnia, construída por Frank Lloyd Wright, um arquiteto americano reconhecido a nível mundial.

Conhecida como “Mrs. Clinton Walker House”, mas também como “Cabin on the Rocks [Cabana nas Rochas]”, e localizada em Carmel-by-the-Sea, esta casa ficou concluída em 1951 e passou para as mãos de Chuck Henderson e de outros familiares quando a avó faleceu. Ninguém vivia lá a tempo inteiro. Contudo, os membros da família e seus convidados iam ficando lá à vez.

Os fãs do trabalho de Frank Lloyd Wright vêm de todo o mundo para tentar vislumbrar algumas das suas obras-primas. Enquanto algumas, como a famosa Casa da Cascata na Pensilvânia, são atrações turísticas, disponíveis para serem visitadas durante o ano inteiro, outras mantêm-se como habitações privadas.

Muitos proprietários de casas que aparecem em livros de arquitetura têm de juntar os custos com medidas de segurança às outras despesas habitais, como a água, a luz ou o seguro.

“Colocámos câmaras de segurança depois de termos registado alguns atos de vandalismo”, conta Chuck Henderson. O vandalismo em questão não eram grafitis.

Por isso explica: “Há um grande pedaço de madeira que foi colocado como peça central do jardim pelo paisagista original. Algum cortou um bocado dele. Foi feito a direito, como se alguém tivesse usado uma serra elétrica ou algo do género. Uma das portas – entre o alpendre e a casa principal – tinha discos de corda náutica que lhe serviam de contrapeso. Foram retirados algumas vezes”.

Apesar disso, Chuck Henderson e os membros da família ainda se riem desses ladrões. Porque as cordas não foram desenhadas por Wright. E têm pouco, ou mesmo nenhum, valor.

“Tivemos pessoas a passear mesmo ao lado da placa que dizia ‘propriedade privada, não passar’. Tivemos pessoas a dançar no alpendre. Tivemos pessoas a aparecer do nada. E, se não estivessem a fazer nada de mal, tentávamos não chamar a polícia. Era uma casa junto à praia, cercada por uma estrada, não tínhamos relvado, mas tínhamos uma família de veados”.

A Casa da Cascata na Pensilvânia, assinada por Frank Lloyd Wright e conhecida em todo o mundo (Chris Melzer/dpa/picture alliance/Getty Images)

Chegar a um compromisso

Quando se vive num lugar que é muito fotografado, há quem tenta conciliar o que há de bom e o que há de mau.

Alice Johnston tenta ser compreensiva com os viajantes que chegam à sua cidade, lembrando-se de como gostou de tirar fotografias em bairros históricos como o Marais em Paris ou Alfama em Lisboa.

Na verdade, a jornalista encontrou recentemente algumas fotografias dela própria, em adolescente, no Carnaval de Notting Hill, ainda antes de se ter mudado para a capital britânica.

“Adoro viajar. Por isso, tenho de ser compreensiva quando outras pessoas viajam para o sítio onde vivo. E até me sinto algo sortuda por viver que é fixe o suficiente para que as pessoas o queiram visitar”.

Chuck Henderson e os familiares alcançaram alguns compromissos, de forma a permitir que os apreciadores de arquitetura explorassem a casa, enquanto mantinham a sua privacidade. Houve momentos em que a arrendaram para sessões fotográficas, tal como a campanha para a marca de ótica Oliver Popes.

Além disso, abriram a casa ao público durante um dia por ano, com os ganhos a reverter para uma instituição local, a Carmel Heritage Society. Em 2021, por exemplo, 657 compraram bilhetes e visitaram o imóvel.

“Para nós, foi um tremendo prazer poder partilhar a casa com outros. E ver como tantas pessoas estavam felizes e entusiasmadas por visitá-la”, conta Henderson. “Permitiu-nos dizer às pessoas quando estava aberta. Deu-lhes a opção de visitar. E não tínhamos de agir como o Grinch [personagem conhecida pelo seu mau humor]”.

Ainda assim, não é certo se alguém da família mudou de ideias sobre tomar conta de uma casa tão importante. A família de Chuck Henderson vendeu a propriedade em 2023.

Nota do Editor: Este artigo foi publicado pela primeira vez em 2021 pela CNN e, entretanto, atualizado.

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