Fomos ao local onde Luís Montenegro apanhou com uma lata de tinta há um ano e encontrámos lá Marcelo Rebelo de Sousa. E o Presidente - que não esperávamos encontrar nem ele a nós - contou-nos os segredos do turismo português. Incluindo a estabilidade política de oito anos e meio dos governos PS. E incluindo a sedução a cada vez mais norte-americanos
- Estás com som?
- Estou!
... e fomos de câmara ligada diretos a ele: a Marcelo Rebelo de Sousa, que estava a chegar à FIL quando nós já estávamos a sair, depois de uma manhã de gravações, este domingo.
- O que é que este homem vem aqui fazer? Também anda aqui nisto?
Afinal, esta segunda visita do Presidente da República à Bolsa de Turismo de Lisboa não tinha sido comunicada. Marcelo andava arredado, não das câmaras mas dos microfones, talvez para evitar perguntas sobre a crise política.
- Posso fazer-lhe uma pergunta sobre turismo?
- Pode.
Desde que é Presidente, cargo que assumiu em 2016, Marcelo pôde ver o turismo disparar em Portugal. Pedimos-lhe para nos falar disso. E ele explicou-nos as razões para o crescimento, incluindo as políticas: Marcelo tem evitado falar da instabilidade política que levou à queda do governo de Montenegro, mas falou-nos logo da estabilidade política de Costa. E dos seus méritos também para o turismo:
- ... e a própria constância do governo. Um governo oito anos e meio seguido, com uma linha inalterável.
- Agora é que já não.
- Está bem, mas agora vai com uma velocidade adquirida que é imparável.
O encontro fortuito com Marcelo Rebelo de Sousa deu-se a metros do local onde, na edição da Bolsa de Turismo de Lisboa de há um ano, Luís Montenegro foi alvo de um ataque de tinta verde por um ativista climático. A mancha verde ainda está no chão, como se pode ver nas imagens.
A "velocidade imparável" do turismo
O breve mas fértil encontro com o Presidente da República pode ser visto na íntegra no vídeo no topo desta página, do episódio na íntegra da rubrica As Pessoas Não São Números desta semana. Marcelo sempre foi considerado bom analista, mas será também bom observador. Afinal, mais do que a estabilidade política no Parlamento, a estabilidade das políticas no turismo ao longo de vários governos tem sido sublinhada por operadores e intervenientes no sector como uma das razões do sucesso do seu crescimento, como aliás foi frisado ao longo da CNN Portugal Summit Portugal Tour, que pode rever aqui ou aqui.
A "constância política" era já a quinta razão de Marcelo para este crescimento. Outras: “Portugal ficou um país muito seguro em termos europeus”, sobretudo a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022; segundo, porque "as ligações a países como por exemplo a América e o Canadá melhoraram brutalmente”; em terceiro lugar, “o turismo residencial significou um aumento do poder de compra brutal no nosso país”; quarto, porque “passou a haver uma preocupação na promoção e essa promoção surtiu efeito”; e, além da constância política, haveria ainda uma sexta e uma sétima razões, o aumento do turismo interno e o fluxo de brasileiros, agora com mais poder de compra.
- Portugal caiu na moda. Caiu na moda em países europeus, caiu na moda no continente norte americano.
Americanos pesam cada vez mais
Se, em 2014, as receitas totais de turismo já superavam os 10 mil milhões de euros, em 2024 superaram os 27 mil milhões de euros. O valor cresceu 2,7 vezes numa década, o que dá uma média a rondar os 10% ao ano. Mesmo se, a meio do percurso, houve dois anos de paragem súbita com a pandemia.
Este crescimento farto inclui, mesmo assim, um outro crescimento ainda mais gordo: a dos turistas provenientes dos Estados Unidos: em 2014, geravam receitas de 428 milhões de euros, valor que cresceu 6,7 vezes numa década para 2,87 mil milhões de euros, o que equivale a um crescimento médio superior a 20%.
Em número de turistas, o mercado americano foi em 2024 o quinto mais importante, depois do Reino Unido, Alemanha, França e Espanha. Mas em receitas, o mercado americano valeu mais do que o espanhol, o que nunca tinha acontecido.
Dados do Turismo de Portugal mostram o perfil do turista americano: 93% vêm em lazer, viajam em grupos com uma média de 3,1 pessoas, permanecem 9,8 noites e fazem as suas reservas com 93 dias de antecedência. Dados do INE mostram que o gasto médio de cada hóspede americano é de 1 253 €. E dois em cada três viajam pela TAP Air Portugal (28,8%), United Airlines (20,9%) ou Delta Airlines (15,3%).
O investimento da TAP no mercado norte-americano, aliás, não pára: a empresa prepara-se para abrir novas rotas este ano, entre Porto e Boston e entre Lisboa e Los Angeles. Foi na privatização, aliás, que o grande crescimento começou, quando o então controlador, David Neeleman, abriu novas rotas estratégicas, nomeadamente para o aeroporto JFK, em Nova Iorque.
Crescer mais: onde? Como?
Os objetivos das entidades públicas e privadas do turismo são os de continuar a crescer mas também crescer melhor. E isso significa, para eles, reduzir a sazonalidade, aumentar a qualidade e atrair pessoas com cada vez mais poder de compra e distribuí-los por mais regiões do país, nomeadamente no interior.
Para isso, os mesmos operadores tendem a frisar várias necessidades: mais mão de obra; mais formação para essa mão de obra, mais infraestruturas e mais cultura.
Há, claro, o reverso: os impactos negativos do turismo precisamente face à capacidade das infraestruturas, incluindo na habitação - tema que já foi (e ainda será) desenvolvido em As Pessoas Não São Números.
No ano passado, Portugal teve 31,6 milhões de turistas, o valor mais elevado de sempre. Desses, 19,4 milhões eram estrangeiros.
Ficha técnica deste episódio
As Pessoas Não São Números - o grande boom do turismo americano
Local de filmagens: Parque das Nações, FIL, Bolsa de Turismo de Lisboa
Autoria: Pedro Santos Guerreiro, Vitor Costa e António Prata
Imagem: David Luz e João Franco
Edição: Afonso Alexandre
Grafismo: Matilde
Música no episódio: You Can´t Win, Charlie Brown, Expresso Atlântico, Dead Combo e Village People
Fontes de informação
PIB per capita: Banco Mundial
Aeroporto de Lisboa ultrapassa os 35 milhões de passageiros em 2024. Fonte: ANA via Negócios
Turismo em Números, dezembro 2024 – TravelBI by Turismo de Portugal
Estatística do Turismo, INE
European Tourism 2024 – Trends & Prospects (Q2/2024), European Travel Comission
Países mais visitados, Data Pandas
Travel & Tourism Development Index 2024, aqui
Turistas americanos superam espanhóis nos gastos em Portugal. Banco de Portugal via ECO
Perfil do turista norte-americano: TraveBI by Turismo de Portugal https://travelbi.turismodeportugal.pt/mercados/estados-unidos/
Peso do turismo no PIB, Turismo de Portugal
Número de passageiros transportados pela TAP entre Portugal e EUA. Fonte: TAP