"Turismo de snipers": europeus pagaram para matar pessoas por desporto na última grande guerra europeia

12 nov, 13:35
Sarajevo

Foi aberta uma investigação a grupos acusados de pagar a soldados sérvios para matarem residentes de Sarajevo “por diversão” durante o cerco 

Foi aberta uma investigação a italianos que alegadamente pagaram viagens a Sarajevo a membros do exército sérvio-bósnio para que pudessem matar cidadãos durante o cerco à cidade na Guerra Civil da Jugoslávia. A prática, a que foi dado o nome de “turismo de atiradores furtivos”, envolve suspeitas de que estrangeiros foram transportados até às colinas da atual capital da Bósnia para disparar sobre a população entre 1992 e 1996.

O inquérito está a ser conduzido por Alessandro Gobbi, do Ministério Público de Milão, e visa identificar os suspeitos sob a acusação de homicídio voluntário agravado por crueldade e motivos abjetos. O caso nasceu de uma denúncia formal apresentada pelo escritor Ezio Gavazzeni, que afirma ter reunido provas consistentes após anos de investigação. A denúncia foi reforçada por um relatório da antiga presidente da Câmara de Sarajevo, Benjamina Karić, de acordo com o The Guardian.

“Havia um tráfego de turistas de guerra que iam até lá para matar pessoas”, explicou o escritor e autor da denúncia, que classificou o caso como uma “indiferença em relação ao mal”. No cerco de Sarajevo, que durou quase quatro anos e tornou-se o mais longo da história moderna, morreram mais de 10 mil pessoas sob bombardeamentos e tiros de franco-atiradores.

Estes últimos eram grupos de cidadãos italianos e de outras nacionalidades que, de modo a poderem disparar contra a população por prazer, pagaram grandes quantias a soldados do exército de Radovan Karadžić, o antigo líder sérvio-bósnio que foi considerado culpado de genocídio e de outros crimes contra a humanidade.

As acusações descrevem um cenário em que homens ricos, sem motivações políticas ou religiosas, viajavam de Trieste, em Itália, para Belgrado, hoje capital da Sérvia, e, sob escolta de soldados do exército sérvio-bósnio, eram levados até posições favoráveis ao tiro nas montanhas em torno de Sarajevo. “Estamos a falar de pessoas que gostam de armas e que talvez vão a campos de tiro ou a safaris em África”, afirmou o escritor.

Ezio Gavazzeni refere que “muitos, muitos italianos” e ainda “alemães, franceses, ingleses” iam lá por “diversão e satisfação pessoal”. Diz ainda ter identificado alguns dos indivíduos italianos alegadamente envolvidos que deverão ser interrogados pelos procuradores nas próximas semanas.

A avenida Meša Selimović, conhecida como Sniper Alley (“Beco do atirador” em português), fazia a ligação ao aeroporto de Sarajevo e tornou-se um símbolo do terror quotidiano: atravessar a rua podia significar morte e nem autocarros ou elétricos escapavam aos tiros; matavam pessoas, incluindo crianças, ao acaso, como se fosse um jogo.

Segundo Gavazzeni, a investigação começou depois de assistir ao documentário Sarajevo Safari (2022), do realizador esloveno Miran Zupanič, onde um ex-soldado sérvio e um empreiteiro relatam que grupos de ocidentais disparavam contra civis por puro divertimento. Embora veteranos de guerra sérvios tenham negado essas alegações, o escritor decidiu aprofundar o tema. “O Saravejo Safari foi o ponto de partida. A partir daí, expandi a minha investigação até reunir material suficiente para apresentar aos procuradores de Milão”, afirmou Ezio Gavazzeni.

O advogado Nicola Brigida, que apoia Gavazzeni no processo, afirma que “as provas recolhidas após uma longa investigação são bem fundamentadas e podem conduzir a uma investigação séria para identificar os culpados.”

Entre as vítimas mais emblemáticas estão Boško Brkić e Admira Ismić, o casal retratado no documentário “Romeu e Julieta em Sarajevo”, que foram mortos a tiro em 1993 ao tentarem atravessar uma ponte. As imagens do casal correram o mundo e tornaram-se símbolo da brutalidade e da aleatoriedade da guerra.

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