A turbulência pode fazer cair um avião? "Não, mas pode matar"

11 jan, 08:56
Avião

"Fizeste boa viagem? Sim, mas apanhei turbulência." Esta é provavelmente uma das conversas mais ouvidas quando se anda avião e o fator mais referido pelas pessoas que têm medo de voar. Sim, pode ser muito desconfortável. Mas é só isso. O comandante José Correia Guedes explica porque é que não deve ter receio - e porque é muito importante usar sempre o cinto de segurança

O Airbus A330-200 da Hawaiian Airlines estava já em descida para se fazer à pista em Honolulu, no Havai, quando foi atingido por forte turbulência. Dos 278 passageiros e 10 tripulantes a bordo, 36 ficaram feridos - onze deles foram hospitalizados em estado grave. O que falhou neste acidente ocorrido no final de dezembro? A resposta é simples: não foi o avião.

Aliás, explica à CNN Portugal o ex-comandante da TAP, José Correia Guedes, por si só a turbulência não provoca acidentes: "Pode ser muito desconfortável, sim, mas só é perigosa se os passageiros não tiverem os cintos amarrados. Porque vão ser projetados para o lado e, pior, para cima. Isso provoca fraturas e pode matar." 

Segundo relatam testemunhas a bordo do voo HA35 da Hawaiian Airlines, vários passageiros não tinham o cinto de segurança e foram "levantados" dos assentos, acabando por bater no teto da cabine no momento da turbulência. E o resultado foi vários passageiros feridos gravemente.

Os vídeos publicados nas redes sociais mostram a situação a bordo após o incidente, com passageiros e tripulação cobertos de sangue, além dos danos causados à cabine. A ocorrência ilustra, na prática, os danos causados aos passageiros que não utilizam cinto de segurança durante todo o voo, mesmo quando os avisos estão apagados.

"De facto devia ser como nos automóveis: sentou, apertou. O perigo da turbulência não é partir as asas do avião: é partir a cabeça dos passageiros que não apertam o cinto. As asas não partem mas as cabeças podem partir", afirma José Correia Guedes.

Importa referir que a turbulência é uma situação normal e afeta voos realizados em todo o mundo. Estas ocasiões raramente resultam em algum risco para os passageiros e, geralmente, os incidentes registados são consequência da não utilização do cinto: "A turbulência não faz com que o avião se despenhe. Os cintos evitam que as pessoas sejam projetadas para os lados ou para cima. Quando há feridos, estes ou não tinham os cintos apertados ou estavam a circular em pé quando a turbulência aconteceu."

"O problema da turbulência são as acelerações verticais. O avião cai ou sobe brutalmente e se a pessoa não estiver amarrada corre o risco de bater com a cabeça no teto do avião. Mas também tem aceleração lateral e a pessoa pode bater contra a cadeira do lado. Se tiver o cinto de segurança apertado, esse risco já não existe", garante o ex-comandante.

Afinal, o que é a turbulência?

Há dois tipos de turbulência: a provocada por nuvens, detetável por radar, e a de "ar limpo", que não se vê. No primeiro caso, trata-se de nuvens de formação vertical muito altas - cumulonimbus - que contêm uma imensa quantidade de gelo e correntes ascendentes e descendentes muito fortes. "Se um avião entrar lá dentro não é bonito", aponta o ex-comandante, relembrando: "Já entrei em alguns e pode ser um bocado assustador." Contudo, Correia Guedes ressalva que os aviões há décadas que estão equipados com radares que detetam essas formações e classificam-as por cores. "Os pilotos sabem as zonas que devem evitar", assegura.

Um 737 da Southwest Airlines passa por nuvens cumulonimbus ao descolar do Aeroporto Internacional Sky Harbor (AP)

"Agora há circunstâncias em que aquilo que aparece à nossa frente é uma muralha", adverte, explicando que tal acontece às vezes no Equador e diversos locais de África - "e não há forma de evitar". E, nesses casos, o que o piloto tem a fazer é escolher as zonas de menor atividade - que aparecem a verde no radar - mas em que ainda assim a atividade é bastante intensa. "O avião dá uns saltos, sofre acelerações verticais para cima e para baixo, perde e ganha altitude e as asas fletem-se", descreve o especialista.

"Se alguém tiver coragem de olhar pela janela do avião nessa fase vai ver que a ponta das asas sobe e desce 1,5 a 2 metros. É um bocado assustador para quem não sabe o que se está a passar, mas ainda bem que as asas fletem - se não, aí é que partiam", sublinha José Correia Guedes.

Já a turbulência de ar limpo não é detetável - como a de nuvens - e é causada por camadas de ar aquecidas a diferentes temperaturas. Como a temperatura faz variar a densidade do ar, o avião acaba por entrar numa zona onde há ar com densidades diferentes. "O avião vai a cerca de 900km/h e, portanto, vai sentir esse efeito."

Segundo a Hawaiian Airlines, os sinais de cinto de segurança dos passageiros estavam acesos no momento da turbulência de ar limpo, ocorrido cerca de 30 minutos antes da aterragem. No entanto, houve um pouco de ar instável que apanhou a tripulação de surpresa sem qualquer aviso prévio.

"O problema dessa turbulência é que não avisa. Nós só sabemos quando estamos dentro dela. Isso por vezes causa alguns sobressaltos porque há pessoas que estão de pé, há pessoas que estão a circular e há pessoas que estão na casa de banho quando isso acontece. Desconfortável é de certeza, e pode provocar alguns acidentes", diz Correia Guedes. Daí a importância do cinto: "E realmente em caso de turbulência num destes casos protege - e protege muito."

"Quando estava a voar, sempre que possível, ou mantinha o sinal do cinto de segurança ligado ou então quando fazia o discurso aos passageiros pedia-lhes que sempre que estivessem sentados mantivessem o cinto amarrado - e não causa desconforto nenhum", garante o piloto.

Um medo comum 

Se não consegue evitar sentir receio antes de embarcar, então não está sozinho: além da vasta experiência nos céus, José Correia Guedes foi docente em cursos para a aerofóbicos e o factor mais citado pelas pessoas que têm medo de voar é precisamente a turbulência, "o que não faz sentido nenhum", admite.

"Aquilo que eu acho que assusta as pessoas é uma falha estrutural: que as forças excessivas eventualmente causem algum dano nas asas ou noutra parte do avião. Só que os aviões são construídos a pensar nisso - não há forças terrestres conhecidas capazes de destruir um avião, são projetados para isso", afirma o ex-comandante, que adverte: "Agora há fenómenos absolutamente anormais que ocorrem uma vez num milhão de vezes. Não é possível prever tudo."

Ainda assim, Correia Guedes diz que "não há memória de um avião ter sofrido um acidente provocado por turbulência". "É desconfortável muitas vezes - às vezes é muito desconfortável, vejamos o caso da Hawaiian - mas daí ao ponto de partir as asas do avião como algumas pessoas receiam... Não. Os aviões estão preparados para isso e para muito mais." 

Aliás, prova disso são casos de aviões que penetram no interior de furacões intensos. "Voam lá dentro para estudar os furacões e os aviões aguentam. Bom, é certo que aquilo lá dentro deve ser assustador e põe à prova os aviões, mas aquilo aguenta tudo e mais alguma coisa." 

"Não tenham medo da turbulência. A turbulência não destrói aviões. Tanto quanto possível, mantenham os cintos apertados. Aliás, os próprios pilotos levam os cintos sempre apertados."

Se mesmo depois das explicações teóricas e práticas do ex-comandante ainda tem medo de voar ou está com algum receio, fique a saber que há alguns lugares no avião nos quais os efeitos de uma turbulência podem ser sentidos de forma mais subtil. A parte da frente do avião é a ideal nesses casos. Outra dica é ficar perto das asas. Dessa forma estará mais perto do centro de gravidade do avião e sentirá menos o balanço e os movimentos da aeronave. 

"Imaginemos: se puser um lápis a balançar no seu dedo, na zona onde ele está apoiado as oscilações são poucas", exemplifica.

Portanto, se não gosta de turbulências no avião ou sofre mesmo com enjoos, evite os lugares mais ao fundo da aeronave. "Por alguma razão também as primeiras classes são na frente do avião", conclui.

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